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Quem abastece a zungueira? Siga um saco de arroz do navio até à rua
Quase todo o arroz que come entrou por um navio. Entre o cais e a lata que lhe vendem à porta de casa, o saco muda de mãos várias vezes e o preço muda de cada vez. O maior salto não acontece onde toda a gente pensa.
ANÁLISE ANGOLAEXPERT
Nove empresas trouxeram o arroz. Um só mercado tem 5.644 vendedores
No concurso público de importação de arroz para 2024, o Estado adjudicou a nove empresas a entrada de 270 mil toneladas.
No Mercado do 30, em Viana, trabalham cerca de 5.644 vendedores. No Catinton, perto de 2.800. E em Luanda há pelo menos 120 mercados informais de produtos alimentares.
Nove portas à entrada. Centenas de milhares de mãos à saída. É este o funil que abastece a rua, e vale a pena percorrê-lo de ponta a ponta.
O saco muda de dono quatro vezes entre o cais e a sua porta
Siga um saco.
Primeiro dono: o importador. No concurso de 2024, o arroz foi adjudicado a 420.000 kwanzas por tonelada — 420 kwanzas o quilo. O preço de referência do concurso era de 700.000 kwanzas por tonelada, portanto ficou bastante abaixo. O produto está definido ao pormenor: arroz branqueado ou semi-branqueado, com 5% de partido, em sacos de 25 a 50 quilos.
Guarde esse número: 420 kwanzas o quilo, à chegada.
Entre o primeiro e o segundo dono: o porto. O saco não sai do navio para o mercado. Espera. E esperar custa.
No Porto de Luanda, um contentor tem cerca de cinco dias livres de armazenagem. Passados esses dias, a factura pode chegar aos 270 mil kwanzas por dia. Houve importadores a relatar contentores retidos mais de 60 dias à espera de um carimbo, com milhões de kwanzas acumulados só em aluguer de contentor.
Este dinheiro não desaparece. Entra no preço do saco.
Segundo dono: o grossista. Daí o arroz segue para os grandes armazéns e para os dois mercados que abastecem a cidade inteira: o 30 e o Catinton. Um estudo do ISPTEC apresentado no Banco Nacional de Angola descreve-os exactamente assim — os principais grossistas do sector alimentar, que fornecem os restantes mercados de Luanda.
Terceiro dono: a retalhista de bairro. Compra o saco inteiro, vende ao quilo. É aqui que o saco se parte pela primeira vez.
Quarto dono: a zungueira. Compra quilos, vende latas e copos, e leva-os a pé até onde não há loja nenhuma.
Entre o navio e o mercado, o quilo mais do que duplica
Façamos a conta com números do mesmo ano.
Em Setembro de 2024, um saco de 25 quilos de arroz custava nos mercados de Luanda entre 22.000 e 25.500 kwanzas. Faz entre 880 e 1.020 kwanzas o quilo. Digamos, em média, 950 kwanzas.
À chegada, o mesmo quilo custava 420.
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Mais do que duplicou antes sequer de chegar à lata da zungueira. E essa diferença não é lucro de ninguém em particular: é o porto, o camião, o armazém, a quebra, e o crédito de quem adianta dinheiro para comprar em quantidade.
A rua não é a parte cara. É a parte barata
Agora o ponto que contraria a intuição de quase toda a gente.
A ideia corrente é que o mercado informal encarece, porque tem muitos intermediários. Os levantamentos mensais de preços feitos pelo Expansão em Luanda dizem o contrário: os mesmos produtos alimentares custam substancialmente menos no mercado informal do que nas cadeias formais, ainda que com qualidade mais irregular.
E as duas pontas andam em sentidos diferentes. No ano até Julho de 2025, o cabaz do mercado informal ficou cerca de 4% mais barato. No mesmo período, o das cadeias formais ficou cerca de 7% mais caro.
A zungueira, portanto, não é a origem do preço alto. É a ponta mais barata de uma cadeia cujo preço foi decidido muito antes dela.
O que ela realmente vende não é arroz. É três coisas que o supermercado não vende:
Quantidade pequena. Uma lata, um copo, meio quilo. Quem não tem 23.000 kwanzas hoje não compra um saco, por muito que o saco seja mais barato ao quilo.
Crédito. O fiado até ao fim da semana não existe em nenhuma caixa registadora.
Distância. Há bairros inteiros onde a loja mais próxima fica a uma viagem de candongueiro. A zungueira leva o produto à porta, e essa viagem poupada também vale dinheiro.
Comprar pouco de cada vez é a coisa mais cara que se faz
Três traduções para a sua vida.
O preço por quilo é o único que interessa comparar. Entre o saco de 25 quilos e a lata há uma diferença que pode chegar a metade do preço. Não é fraude; é o custo de fraccionar. Mas só se descobre fazendo a divisão.
Comprar em conjunto resolve parte do problema, e já é prática corrente. Chama-se, em Luanda, o método sócia: duas ou mais pessoas juntam dinheiro, compram o saco ou a lata de óleo, e dividem em partes iguais. Aplica-se sobretudo ao arroz, à fuba, ao açúcar e ao óleo.
O preço que paga na rua responde ao câmbio, não à vizinhança. Se o kwanza se desvalorizar, o saco a 420 kwanzas o quilo à chegada sobe, e sobe toda a cadeia atrás dele. A zungueira é a última a saber e a primeira a ser culpada.
Uma nota de honestidade: não existe em Angola nenhuma série oficial que meça o preço da lata de arroz na rua, nem a margem de quem a vende. O que a zungueira ganha por quilo é, literalmente, um número que ninguém conta. Os valores acima vêm de concursos públicos e de levantamentos de imprensa em mercados de Luanda.
O programa formalizou 252 mil pessoas. Num só trimestre nasceram 606 mil empregos informais
É aqui que a conversa sobre formalização precisa de números.
O Programa de Reconversão da Economia Informal, o PREI, existe desde 2021. Regista operadores, dá formação, abre contas e disponibiliza microcrédito. Entre 2021 e 2023 desembolsou cerca de 10,4 mil milhões de kwanzas, dos quais foram devolvidos 1,7 mil milhões. Formalizou perto de 252 mil operadores e levou mais de 339 mil pessoas a usar mobile money.
São resultados reais. Agora o contraste.
Segundo o Inquérito sobre o Emprego do INE, no primeiro trimestre de 2026 foram criados 686.090 postos de trabalho no país. Destes, 606.395 foram informais — 88 em cada 100. O total de trabalhadores informais subiu para 7,58 milhões, e a taxa de informalidade para 78,9%.
Ou seja: em três meses, a economia informal absorveu cerca de duas vezes e meia mais pessoas do que o programa formalizou em dois anos e meio.
O que a formalização mudaria de facto, e o que não mudaria
Convém separar as duas coisas, porque são muito diferentes.
O que não mudaria: o preço. O preço do arroz é fixado no concurso de importação, no câmbio e no porto. Uma zungueira com cartão de contribuinte compra ao mesmo grossista pelo mesmo preço. Formalizar a ponta da rua não toca na parte grossa da cadeia.
O que mudaria: a capacidade de comprar em quantidade. Esta é a mudança verdadeira, e é grande. Quem está registado pode aceder a crédito bancário — incluindo as linhas bonificadas a 7,5% que financiam os bens da lista do PRODESI. Quem não está, compra ao dia, em quantidades pequenas, ao preço mais caro da cadeia. A informalidade não é só falta de imposto pago; é a obrigação permanente de comprar na pior condição.
O que também mudaria: o lugar fixo. Vender em movimento custa tempo, risco e mercadoria. Um ponto de venda estável muda a economia de quem vende mais do que qualquer isenção fiscal.
Fontes e notas
Concurso público de importação de 270 mil toneladas de arroz para 2024, adjudicado a nove empresas, divulgado pelo Portal do Governo. Estudo do ISPTEC sobre mercados informais de Luanda, apresentado na conferência anual do Banco Nacional de Angola em 2023. Porto de Luanda e relatos de importadores sobre prazos e custos de armazenagem, citados pelo Expansão. Levantamentos mensais de preços em mercados formais e informais de Luanda, realizados pelo Expansão. Preços de sacos de arroz em Setembro de 2024, recolhidos pela Forbes África Lusófona. Programa de Reconversão da Economia Informal, dados de execução 2021-2023. Instituto Nacional de Estatística, Inquérito sobre o Emprego em Angola, primeiro trimestre de 2026.
Os valores do ano corrente são provisórios e sujeitos a revisão. O INE alterou a metodologia do Inquérito sobre o Emprego a partir do quarto trimestre de 2025, pelo que a comparação com anos anteriores deve ser feita com cuidado. As fontes sobre o PREI divergem ligeiramente no número de operadores formalizados, entre 251.674 e 253.048, conforme a data do balanço.

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