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Quanto custa pagar

Desde Abril, cada operação no multicaixa acima do quarto levantamento do mês passou a custar 20 kwanzas. Parece pouco. Depende inteiramente de quantas vezes por mês precisa de tirar dinheiro — e isso depende de quanto ganha.

ANÁLISE ANGOLAEXPERT


O problema de fundo

Quase tudo o que se escreve sobre custo de vida trata do preço das coisas. Do arroz, do frango, do transporte, da luz.

Quase nada trata do preço de pagar por essas coisas.

E pagar, em Angola, não é gratuito. Custa dinheiro a quem tem cartão, porque há comissões. Custa tempo a quem tem cartão e encontra fila. E custa viagem a quem não tem conta nenhuma, porque a máquina mais próxima pode estar noutro município.

Este artigo é sobre essa factura invisível.

Desde Abril, o quinto levantamento do mês custa 20 kwanzas

O Banco Nacional de Angola uniformizou, através do Instrutivo n.º 02/2025, as comissões dos serviços bancários electrónicos. A partir de Abril de 2026, os cartões de débito multicaixa passaram a pagar 20 kwanzas por operação no caixa automático.

Não é em todas as operações. Há um número de operações gratuitas por mês, e o número é este:

Quatro levantamentos. Quatro consultas de saldo com talão. Duas consultas de movimentos.

A partir daí, cada uma custa 20 kwanzas.


A isenção foi desenhada para quem recebe salário ao fim do mês

Repare no que aquele número pressupõe.

Quatro levantamentos por mês é exactamente o padrão de quem tem salário fixo, pago por transferência, uma vez por mês. Recebe, tira o dinheiro em duas ou três vezes, e acabou.

Agora pense em quem não vive assim.

Quem vende no mercado recebe e paga todos os dias. Quem faz biscates recebe quando há trabalho. Quem gere um pequeno negócio tira dinheiro conforme precisa de comprar mercadoria. Para essas pessoas, quatro levantamentos não cobrem uma semana.

Faça a conta para quem levanta dinheiro todos os dias. São cerca de 30 levantamentos por mês, menos os quatro gratuitos, dão 26 operações a 20 kwanzas: 520 kwanzas por mês.

Não é uma ruína. Mas é a ilustração exacta de uma regra que custa zero a quem recebe salário e alguma coisa a quem não recebe.

E, em Angola, quem não tem é a maioria: no primeiro trimestre de 2026, 78,9% do emprego era informal.


O índice diz 51,7%. Com conta bancária estão 32%

Aqui está a armadilha, e vale para quase todos os números de inclusão financeira que vai ler.

No primeiro trimestre de 2026, o índice de inclusão financeira de Angola foi de 51,7%. A meta é 65% até 2027. O número soa bem, e a evolução é real.

Mas o índice de inclusão mede acesso a serviços financeiros em sentido largo. Não mede quantas pessoas têm conta no banco.

Esse número é outro: 32% da população. A meta para 2027 é 36%.

Ou seja, mais de dois terços dos angolanos não têm conta bancária. O índice que aparece nos comunicados é quase o dobro do número que decide se consegue receber uma transferência.

A mesma distância existe dentro do dinheiro móvel. A Afrimoney ultrapassou os 2 milhões de utilizadores registados. Mas, no segundo trimestre de 2024, apenas cerca de 630 mil usavam efectivamente o serviço, e perto de 250 mil o usavam com frequência.

Registar-se não é usar. Ter acesso não é ter conta. São três coisas diferentes e são contadas como se fossem uma.


Em 38 municípios não havia um único caixa automático

Se não tem conta, o custo de pagar deixa de ser uma comissão e passa a ser uma viagem.

Em 2024, Angola tinha 3.548 caixas automáticos, presentes em 126 municípios, e 1.426 agências bancárias, presentes em 100 municípios. O país tinha então 164 municípios. Faltavam caixas em 38 deles, e bancos em 64.

E há um pormenor que explica o resto: apenas 15% dos caixas automáticos ficam fora de uma agência bancária. A máquina segue o banco, e o banco segue o negócio.

Luanda é a província mais bem servida do país. Tem 24 caixas por cada 100 mil habitantes. É este o melhor caso. No Bengo eram 35 máquinas no total, no Bié 44, no Lunda Norte e no Moxico 45.

Entretanto, a reforma administrativa que entrou em vigor em 2025 levou o país de 18 para 21 províncias e de 164 para 326 municípios. O mapa duplicou. A rede não.


Os cartões cresceram quatro vezes mais depressa do que as máquinas

A fila do multicaixa não é falta de organização. É aritmética.

Entre 2010 e 2020, os cartões multicaixa activos cresceram 561%. Os caixas automáticos cresceram 142%. Quase quatro vezes menos.

O resultado é que cada máquina passou de perto de 3.900 operações por mês, em 2010, para mais de 9.700, em 2020. Um aumento de 149% de trabalho por máquina.


E a tendência não se corrigiu sozinha: num dos anos recentes, o número de caixas automáticos chegou a cair 2% enquanto os cartões cresciam 12%.

O Banco Nacional de Angola reconhece o problema. Em Junho de 2025 apresentou um programa para instalar mais 122 terminais, depois de um piloto em Viana que atingiu cerca de 60% dos objectivos, com alvo em Cacuaco, Icolo e Bengo e mais 38 municípios.


Quem não tem conta paga em tempo, e o tempo também é dinheiro

Três traduções práticas.

Conte os seus levantamentos. Se faz mais de quatro por mês, está a pagar comissão. Levantar uma vez 40 mil kwanzas custa menos do que levantar quatro vezes 10 mil. Agrupar levantamentos é a poupança mais simples que existe neste artigo.

O telemóvel evita a fila, e às vezes a viagem. As transferências instantâneas do sistema KWiK já somam 58,5 milhões de operações desde 2023, e os pagamentos digitais cresceram cerca de 56% até meio de 2026. Para quem tem conta, pagar pelo telefone poupa deslocação; para quem não tem, a carteira móvel é a porta de entrada mais barata que existe.

Sem conta, receber é caro. Quem não tem onde receber uma transferência recebe em dinheiro vivo — e quem paga em dinheiro vivo desconta essa inconveniência no preço ou no salário. É um custo que não aparece em nenhuma factura e que recai sobre quem já tem menos.

Uma nota de honestidade: não existe em Angola uma medida pública do que uma família gasta por ano em comissões bancárias, nem do tempo médio passado em filas de multicaixa. Os valores acima são tarifas oficiais e dados de rede, não um custo médio por agregado familiar.

Fontes e notas

Banco Nacional de Angola, Instrutivo n.º 02/2025 sobre uniformização de comissões de serviços bancários electrónicos, com aplicação a partir de Abril de 2026. Índice de inclusão financeira e taxa de população com conta bancária relativos ao primeiro trimestre de 2026, no âmbito da Estratégia Nacional de Inclusão Financeira lançada em Dezembro de 2025. Dados de rede bancária de 2024: agências, caixas automáticos, terminais de pagamento e agentes bancários. Densidade de caixas por habitante em Luanda e por província conforme levantamento publicado em 2022. Evolução de cartões e caixas automáticos entre 2010 e 2020, e programa de expansão do BNA apresentado em Junho de 2025. Utilizadores registados e activos de carteiras móveis conforme divulgado pelos operadores e pela imprensa especializada. Instituto Nacional de Estatística, Inquérito sobre o Emprego em Angola, primeiro trimestre de 2026.

Os valores do ano corrente são provisórios e sujeitos a revisão. Os dados de rede de 2024 referem-se à divisão administrativa anterior, de 18 províncias e 164 municípios; a reforma que entrou em vigor em 2025 criou 21 províncias e 326 municípios, pelo que a cobertura em percentagem do território não é directamente comparável entre os dois momentos. As fontes divergem quanto à base populacional usada para calcular a taxa de bancarização, pelo que citamos a percentagem e não o número absoluto de pessoas.

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