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A água mais cara de Angola corre nos bairros sem cano

Nas periferias das grandes cidades, as famílias pagam pela água de camião-cisterna dezenas de vezes o que paga um cliente ligado à rede. A procura com capacidade de pagamento existe. O que falta é um modelo que transforme metros cúbicos produzidos em ligações facturadas.


ANÁLISE ANGOLAEXPERT


O problema de fundo

As cidades angolanas cresceram muito mais depressa do que as suas redes de água. O censo de 2024 contou 36,6 milhões de habitantes, mais 42 % do que em 2014, e apenas 37 % dos agregados familiares com água canalizada em casa, no quintal ou no vizinho [1]. Em 2014, a torneira da rede pública dentro de casa servia 17 % dos agregados [2]. As duas definições não são idênticas, por isso a comparação directa deve ser feita com cautela. Ainda assim, ambas descrevem a mesma realidade: a rede formal chega a uma minoria. O inquérito de saúde de 2023–2024 indica que 70 % dos agregados bebem água de fontes melhoradas [3]. Mas esta categoria inclui chafarizes, furos e outras fontes fora da rede domiciliária, e não diz quanto cada família paga pela água.

O problema é sobretudo urbano e periférico. Segundo o Banco Mundial, cerca de 4,5 milhões de residentes urbanos não tinham acesso a água melhorada em 2022 [4]. Um inquérito da Development Workshop aos assentamentos informais, feito em 2020, concluiu que só um terço dos inquiridos tinha ligação domiciliária. Os restantes compravam água a camiões-cisterna [8].

Daqui resulta um mercado paralelo. As empresas provinciais de água vendem água tratada a granel em pontos de enchimento, conhecidos como "girafas". Existem também girafas privadas que captam directamente em rios. Operadores privados transportam essa água em camiões até tanques domésticos nos bairros. A categoria "Girafa" existe formalmente no tarifário desde 2018 [28]. O Estado reconhece, portanto, este canal de distribuição. Não o substitui.

Quanto custa não ter cano

A diferença de preço é grande. Uma família com a tarifa social da rede pública paga em média cerca de 260 kwanzas por mês pela água que consome [2]. A mesma quantidade comprada a um camião-cisterna em Luanda custava, no início de 2025, cerca de 5.000 kwanzas em tempo normal, e até três vezes mais quando faltava água na cidade [3].

Ou seja, quem não tem cano paga pela água dezenas de vezes mais do que quem tem. E quem tem cano beneficia de um preço baixo, apoiado pelo Estado. Já há muitos anos que estudos feitos em Luanda apontam este paradoxo: o apoio público à água chega sobretudo a quem vive no centro, e não a quem mais precisa [4].

Há aqui uma conclusão importante. Muitas vezes diz-se que a água não pode custar mais porque as famílias pobres não conseguem pagar. Mas as famílias da periferia já estão a pagar, e a pagar caro. O problema não é que não queiram ou não possam pagar. É que o dinheiro que pagam vai para o transporte da água, não para a construção de uma rede que lhes daria água mais barata.


Porque é que o cano não chega

Se há tantas famílias dispostas a pagar, porque é que as empresas de água não estendem a rede até elas? A resposta tem menos a ver com falta de água e mais com a forma como as empresas funcionam.

Grande parte da água produzida nunca é paga. Em Luanda, de cada dez litros que a empresa pública de águas produz, cerca de sete não chegam a ser facturados [5]. Perdem-se em canos rotos, em ligações clandestinas ou em contas que nunca se cobram. Uma empresa nesta situação tem pouco incentivo para produzir mais ou ligar mais casas, porque a maior parte do esforço não se transforma em receita.

Muitos clientes não pagam as contas. Isto inclui famílias, mas também organismos do próprio Estado, que acumularam dívidas grandes à empresa de águas [6]. A empresa já fez campanhas de corte a devedores [7], mas é difícil cortar a água a um ministério ou a um hospital. Sem receita, também não há dinheiro para comprar contadores e ligar novas casas.

Nos bairros informais, muitas casas não têm papéis. Para ligar uma casa à rede e enviar uma factura, a empresa precisa de saber onde fica a casa e quem é o responsável. Em muitos bairros periféricos, uma grande parte dos moradores não tem documento que prove a posse do terreno [8]. Não está claro se isto impede legalmente a ligação. Mas torna-a mais difícil e mais cara.


As grandes obras resolvem?

O Governo está a construir grandes sistemas de água para Luanda, sobretudo os projectos do Bita e do Quilonga Grande, financiados com empréstimos internacionais. Prometem levar água a milhões de pessoas e centenas de milhares de novas ligações domiciliárias [9]. Mas os prazos já foram adiados várias vezes [10].

E há uma dificuldade maior. Construir uma estação que trata muita água é uma coisa. Levar essa água por canos pequenos até cada casa dos bairros é outra, e é aí que tudo costuma falhar. O próprio Banco Mundial, que ajudou a financiar o Bita, teve de insistir para que o projecto incluísse a rede de distribuição, e não apenas a produção [11]. O ministro da tutela reconheceu publicamente que o maior desafio é precisamente essa rede até às casas [12].

Se a rede não chegar, a nova água pode acabar onde a velha já acaba: perdida em canos rotos, ou vendida nas girafas e levada de camião até aos bairros, a preço de camião.


Não é só Luanda

O mesmo acontece noutras cidades. Em Benguela e no Lobito, a rede foi pensada para cidades muito mais pequenas do que as de hoje, e há bairros que recebem água apenas alguns dias por semana [13]. Quando o rio que abastece a região baixa na época seca, a falta de água atinge também as girafas que enchem os camiões [14]. E quando a água escasseia, quem depende do camião é o primeiro a pagar mais.


Quem perde se o cano chegar

Levar a rede aos bairros também tem perdedores, e isso ajuda a explicar porque é difícil mudar. Os donos de camiões-cisterna e de girafas privadas vivem desta falta de rede. Cada bairro ligado é um bairro onde deixam de vender. Ao mesmo tempo, em muitos bairros, são eles a única forma de levar água às famílias. Durante as cheias de Abril de 2026 em Benguela, foi com camiões que se abasteceram os pontos mais afectados [15]. Se o camião desaparecer antes de o cano chegar, as famílias ficam sem nada.


Três modelos para a última milha

Há três formas de levar a água das estações de tratamento até às periferias. Diferem em custo de capital, rapidez e risco.

Ligação domiciliária com contador pré-pago e subsídio ao ramal. Neste modelo, o subsídio público paga o ramal e o contador, e o consumo é cobrado a uma tarifa próxima do custo. É o modelo com maior efeito, porque elimina o diferencial de preço onde a rede chega. A EPAL já prevê instalar contadores pré-pagos nas zonas urbanas e nas instituições públicas [12], o que lhe dá um ponto de partida. É também o modelo mais exigente: depende de redes secundárias e terciárias que ainda não existem, de cadastro dos imóveis e de capacidade de gerir contadores. Os riscos principais são atrasos na rede e vandalismo de equipamentos.

Quiosques e chafarizes geridos pela comunidade. Pontos de venda regulados dentro dos bairros, abastecidos pela rede. Exigem menos capital e podem ser instalados depressa. Têm ainda um precedente em Luanda: a Development Workshop demonstrou a viabilidade de chafarizes geridos por associações de moradores [30]. O preço desce para perto da tarifa regulada, mas o transporte até casa continua a cargo das famílias. O risco é a captura do quiosque e a revenda acima do preço fixado.

Regulação ou concessão do canal de girafas e cisternas. Este modelo pode travar subidas abruptas de preço em períodos de escassez e melhorar o controlo da qualidade, que é frequentemente questionada nas girafas privadas [5]. Exige pouco capital, mas fixa a distribuição por camião como solução permanente. Esse é estruturalmente o método mais caro por metro cúbico, porque cada entrega soma combustível, viatura e mão-de-obra ao preço da água. Depende ainda de uma capacidade de fiscalização sobre operadores dispersos que o Estado hoje não tem.

A posição desta análise é que o primeiro modelo deve ser o objectivo e o segundo a ponte. Os quiosques servem as zonas onde a malha urbana impede fisicamente a passagem de tubagens, ou enquanto a rede terciária não chega. Regular o canal de cisternas faz sentido como salvaguarda de preço e de qualidade durante a transição. Como estratégia, consolidaria o custo que se pretende eliminar. O argumento central mantém-se: as famílias sem rede já demonstram capacidade de pagamento, e esse pagamento deve passar a financiar a empresa de água, não o transporte rodoviário.


O que isto significa

Os novos sistemas de Luanda vão aumentar a produção. Mas, com quase 70 % de água não facturada e uma tarifa social de 260 Kz/mês, mais metros cúbicos não garantem ligações facturadas nos bairros periféricos. O risco concreto é que parte da nova capacidade acabe em perdas e em vendas a granel nas girafas, e continue a chegar às periferias de camião, a preços de camião.

Esta posição estaria errada em dois cenários. O primeiro: as redes terciárias do Bita e do Quilonga acumulam atrasos por bloqueios de expropriação ou de licenciamento urbano, e nesse caso o modelo domiciliário fica no papel e os quiosques deixam de ser ponte para passar a ser a solução de longo prazo. O segundo: as empresas de água mostram não conseguir gerir sistemas pré-pagos nem reduzir a água não facturada, e então qualquer nova ligação herda as mesmas perdas que hoje tornam a expansão pouco rentável.

Os indicadores a acompanhar são concretos. O primeiro é o número de ligações activas e facturadas acrescentadas pelo Bita e pelo Quilonga até ao final de 2027, face às 170.000 e 350.000 prometidas. O segundo é se a água não facturada da EPAL desce abaixo dos 69 % e a eficiência de facturação atinge os 75 % fixados pela própria empresa [12]. Se as ligações ficarem muito abaixo das metas, o preço da água de cisterna nos bairros continuará a ser o melhor indicador de quanto falta fazer.

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Fontes

  1. INE, Recenseamento Geral da População e Habitação 2024, resultados divulgados em Novembro de 2025 (via VerAngola/RTP).
  2. IRSEA, actualização tarifária de Maio de 2025 (via VerAngola e Lusa).
  3. Lusa, "Falta de água em Luanda tornou negócio apetecível", Janeiro de 2025 (via VerAngola).
  4. Development Workshop/ANGOP, "Zona periurbana é a que menos beneficia da subvenção da água", Outubro de 2008.
  5. O País, dados da EPAL apresentados no Conselho Consultivo da Energia e Águas, 2025.
  6. VerAngola, "Estado deve 36.000 milhões de kwanzas à EPAL", Março de 2019; VerAngola, "Clientes devem cerca de 99 mil milhões de kwanzas à EPAL", Setembro de 2021.
  7. Expansão, "EPAL vai forçar pagamento de dívidas com cortes selectivos em Luanda".
  8. Development Workshop/ULM, "Segurança progressiva de posse: o caso do Huambo", 2013.
  9. Ministério da Energia e Águas (minea.gov.ao), comunicados sobre Bita e Quilonga.
  10. VerAngola, "Projecto Bita pronto no final do ano", Abril de 2026.
  11. Global Trade Review, financiamento do Projecto Bita com garantia do Banco Mundial.
  12. Expansão, "Projecto Bita ajuda mas não resolve grande défice de água em Luanda".
  13. ANGOP, "Benguela's neighboring cities puts pressure on water supply system", Janeiro de 2024.
  14. VerAngola, "Redução do caudal do Catumbela afecta província de Benguela", Agosto de 2026.
  15. VerAngola, "Empresa garante que chuvas intensas não afectaram abastecimento de água em Benguela", Abril de 2026.
  16. Cain, A., Daly, M. e Robson, P., Basic Service Provision for the Urban Poor: The Experience of Development Workshop in Angola, IIED Working Paper 8, 2002.