pt

.







A comida que nunca chega ao prato

Quase metade dos produtores de tomate de Benguela perde mais de metade do que colhe. Não é por falta de trabalho. É por falta de frio, de estrada e de luz. E é essa a razão pela qual o congelado importado ganha quase sempre.

ANÁLISE ANGOLAEXPERT


Quase metade dos produtores perde mais de metade da colheita

Um estudo publicado em 2025 sobre os produtores de tomate das comunas de Equimina e Dombe-Grande, na Baía-Farta, província de Benguela, chegou a este resultado: 45% dos produtores perdem mais de metade do que colhem, depois de colhido. Uma parte dos restantes perde entre um quinto e metade. Só uma minoria consegue ficar abaixo dos 20%.

E 95% dos entrevistados já venderam tomate a preços muito baixos por não haver mercado para o excesso.

O tomate cresceu. Ninguém o comeu.


Perder a colheita não é a comida estragar-se em casa

Convém explicar o termo, porque se usa pouco e diz muito.

Chama-se perda pós-colheita a tudo o que desaparece entre o momento em que o produto sai da terra e o momento em que chega a alguém que o compra. Não é o tomate que apodrece no seu frigorífico. É o tomate que nunca chegou ao seu bairro.

Os próprios produtores da Baía-Farta nomearam as causas quando lhes perguntaram. Dificuldade de armazenamento, apontada por 14 dos 20 inquiridos. Custo do transporte, por 11. Preço de venda baixo, por 8. Ausência de indústria de transformação, por 6.

Nenhuma dessas causas tem a ver com saber plantar.

O mesmo se passa longe dali. Em Malanje, produtores de fruta descreveram toneladas de abacate, ananás, banana, goiaba, laranja e maracujá a degradar-se por não haver como as mover. Uma sócia de uma fazenda no Massango resumiu o problema numa frase difícil de esquecer: estragou-se muita fruta por falta de transporte, e só tinha uma mota de três rodas, que não aguentava.

Um dirigente de cooperativa apontou as estradas terciárias — as pequenas, as de terra batida, as que ligam a lavra à estrada principal. É por elas, disse, que vem a alimentação.


Onde a comida cresce, não há electricidade

Agora a parte que raramente entra na conversa sobre preços.

Segundo o Afrobarometer, 92% dos angolanos que vivem em zonas urbanas estão em áreas servidas pela rede eléctrica nacional. Nas zonas rurais, a proporção é de 14%.

E ter rede por perto não é o mesmo que ter luz. Juntando cobertura e fiabilidade, menos de metade dos angolanos — cerca de 47% — tem electricidade que funciona a maior parte do tempo. No meio rural, essa percentagem cai para 6%.

Seis por cento. É este o número que decide o destino de um camião de tomate.

Para quem vive na cidade, um corte de energia é um incómodo. Para quem produz comida, a electricidade é um factor de produção, como a semente ou a água. Sem frio não há armazenamento. Sem armazenamento não há espera. E quem não pode esperar vende hoje, ao preço que lhe derem, ou perde tudo.

É por isso que 95% daqueles produtores já venderam abaixo do que valia. Não foi por falta de jeito para negociar. Foi por não terem alternativa ao fim do dia.


O frango importado viaja refrigerado do princípio ao fim

Compare agora as duas viagens.

O quarto traseiro de frango sai de um matadouro no Brasil ou nos Estados Unidos já congelado. Entra num contentor refrigerado. Atravessa o Atlântico a temperatura constante. Descarrega num entreposto frigorífico. Segue em camião frigorífico para a arca do supermercado. Em nenhum momento da viagem lhe falta energia.

Essa cadeia de frio existe, funciona e é fiável. Só não foi construída em Angola. Foi construída noutro sítio, por outra gente, e o seu custo vem incluído no preço do saco.

O tomate da Baía-Farta não tem nada disto entre a lavra e Luanda.

Daqui sai uma conclusão desconfortável, e é o coração deste artigo: a falta de electricidade fiável é, por si só, um argumento a favor da importação. Não porque alguém o tenha decidido, mas porque o produto importado chega com a sua própria infra-estrutura incluída, e o nacional não.

[IMAGE: cadeia-de-frio-angola.png]

Os números dão a medida. A cadeia de frio da nova Plataforma Logística da Caála, no Huambo, a primeira grande infra-estrutura deste tipo no país, foi dimensionada para mover 48 mil toneladas por ano. Em 2025, Angola importou 227.855 toneladas de frango.

Ou seja: o país consegue mover quase cinco vezes mais comida refrigerada vinda de outro continente do que aquela que a sua principal plataforma agrícola consegue escoar a partir do interior.


Porque é que o tomate é quase de graça em Maio e caríssimo em Setembro

Três traduções para a sua vida.

O preço do produto nacional oscila porque não há reserva. Na época, tudo chega ao mesmo tempo, o mercado enche e o preço colapsa. Fora da época, não há nada guardado e o preço dispara. Um armazém frio é, na prática, uma máquina de estabilizar preços. Angola quase não tem nenhuma.

O produto importado é caro mas previsível; o nacional é barato mas incerto. É essa, e não o patriotismo, a escolha que faz no mercado. E é também a razão pela qual muitos comerciantes preferem trabalhar com congelado: não estraga na segunda-feira.

Comprar à época compensa mais em Angola do que noutros países. Precisamente porque não existe amortecedor entre a colheita e a prateleira, a diferença de preço entre a época e a contra-época é aqui maior do que em países com cadeia de frio. Quem compra tomate, cebola ou fruta quando há, paga uma fracção do que pagará três meses depois.

Uma nota de honestidade: não existe em Angola uma série oficial que meça as perdas pós-colheita a nível nacional. O estudo da Baía-Farta abrange 20 produtores de duas comunas — é indicativo do problema, não representativo do país. Os relatos de Malanje são jornalísticos. Usamo-los porque é o que há, e dizemo-lo porque é o que é.


A primeira câmara frigorífica abriu há dois dias

E há movimento, o que também deve ser dito.

Em 29 de Setembro de 2026 foi inaugurada a primeira fase da cadeia de frio da Plataforma Logística da Caála, no Huambo. São cerca de 5.000 metros quadrados e 15 câmaras refrigeradas de dimensões variadas, pensadas para produtos sensíveis à temperatura, com destaque inicial para o abacate. Funciona com energia renovável e integra-se no Corredor do Lobito, que liga o Caminho de Ferro de Benguela ao Porto do Lobito.

A Caála é a primeira de seis plataformas previstas. As outras estão planeadas para a Arimba (Huíla), Lombe (Malanje), Luau (Moxico), Luvo e Soyo (Zaire). O conjunto precisa de 246,6 milhões de dólares — 152,1 milhões dos concessionários e 94,5 milhões do Estado. Só a Caála está, para já, em processo de concessão.

Seis plataformas não resolvem a electricidade de um país. Mas mudam o destino de uma colheita, e é por uma colheita que se começa.

Fontes e notas

Estudo sobre o impacto da ausência de indústria de processamento de tomate na Baía-Farta, província de Benguela, publicado na Revista Agrária Acadêmica em Setembro de 2025, com base num inquérito a 20 produtores das comunas de Equimina e Dombe-Grande. Relatos de perdas agrícolas em Malanje recolhidos pela Voz da América. Afrobarometer, inquérito sobre acesso à rede eléctrica em Angola. Ministério dos Transportes e imprensa económica angolana, sobre a Plataforma Logística da Caála e o programa de seis plataformas. Ministério da Indústria e Comércio e Administração Geral Tributária, importações de frango em 2025.

Não existe série oficial nacional de perdas pós-colheita em Angola, pelo que os valores citados são de estudos locais e não devem ser extrapolados para o país inteiro. As classes de perda publicadas naquele estudo somam ligeiramente mais de 100%, provavelmente por arredondamento ou por sobreposição de respostas, pelo que citámos apenas o escalão mais alto, que é o que o estudo destaca. Os valores do ano corrente são provisórios e sujeitos a revisão.

SÉRIE

Análise AngolaExpert

A série Análise AngolaExpert explica, com números e contexto, as forças que moldam a economia angolana: da energia aos portos, das estradas ao Corredor do Lobito, até ao preço do frango na banca da zungueira. Análises independentes para investidores, profissionais e para quem quer perceber porque as coisas custam o que custam em Angola.

Ler todas as análises →

.