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Porque é que o meu dinheiro compra cada vez menos?




Porque é que o meu dinheiro compra cada vez menos?

Quanto Custa Viver em Angola — Episódio 8

A inflação em Angola está a descer há meses. Em Agosto de 2026 ficou nos 8,78%, o valor mais baixo em muitos anos.

E, mesmo assim, a nota de 1.000 kwanzas na sua carteira compra menos do que comprava no ano passado. E muito menos do que comprava há dez anos.

Não é impressão sua, nem é contradição. É a aritmética dos juros compostos aplicada aos preços — e é a coisa mais importante que um consumidor pode perceber sobre inflação.

O número que responde à pergunta

O Índice de Preços no Consumidor Nacional tem um período de base definido: Dezembro de 2014, a que corresponde o valor 100. Todos os meses, o INE recalcula quanto custa o mesmo cabaz de bens e serviços em relação a esse ponto de partida.

Em Janeiro de 2026, o índice estava em 257,76 pontos.

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Traduzindo: aquilo que custava 100 kwanzas em Dezembro de 2014 custava cerca de 258 kwanzas onze anos depois. Os preços mais do que duplicaram e meio.

Visto do outro lado — o lado da sua carteira — o mesmo dinheiro passou a comprar cerca de 38,8% do que comprava. O kwanza perdeu perto de 61% do seu poder de compra em onze anos.

Aí está a resposta à pergunta do título, num único número.

A armadilha: uma taxa que desce não devolve nada

Esta é a confusão mais frequente, e vale a pena insistir nela.

Quando se anuncia que a inflação caiu de 16,56% para 8,78%, o que mudou foi a velocidade a que os preços sobem. Não a altura a que já chegaram.

Pense num elevador. Se ele sobe mais devagar, continua a subir. Para voltar ao piso anterior, teria de descer — e preços a descer chama-se deflação, que é um fenómeno raro e, em geral, sinal de problemas económicos sérios.

O que Angola está a viver chama-se desinflação: os preços continuam a subir, mas menos depressa. É boa notícia. Não é uma devolução.

E há um pormenor que agrava isto: a inflação compõe-se sobre si própria. Cada subida aplica-se ao preço já subido do ano anterior, não ao preço original.

Um exemplo simples. Um produto custa 1.000 kwanzas. Com 20% de inflação, passa a 1.200. No ano seguinte, com apenas 10%, não sobe 100 kwanzas — sobe 10% de 1.200, ou seja 120, chegando aos 1.320. A taxa caiu para metade e o aumento em kwanzas foi maior.

É por isso que anos seguidos de inflação elevada deixam uma marca que não desaparece quando a taxa melhora. O nível fica.

Nem todos pagam a mesma inflação

Há aqui uma dimensão que a taxa nacional esconde por completo: a inflação não é igual em todo o país.

O INE publica a variação de preços província a província, e as diferenças são consideráveis. Em Julho de 2026, quando a taxa nacional foi de 9,33%, as províncias com maior subida de preços foram Cabinda, com 13,09%, Malanje, com 12,01%, e Lunda Sul, com 11,40%.

Ou seja, quem vive em Cabinda enfrentou nesse mês uma inflação cerca de quatro pontos percentuais acima da média nacional. A taxa que aparece nos noticiários é uma média do país inteiro — e, como vimos no episódio anterior a propósito do rendimento, uma média descreve mal quem está longe dela.

Se o seu dinheiro parece render menos do que as notícias sugerem, uma das explicações possíveis é geográfica.

Também não é igual para todos os produtos

A segunda razão pela qual a experiência individual diverge da taxa oficial é a composição do seu consumo.

Em Julho de 2026, dentro daquela taxa nacional de 9,33%, as classes comportaram-se de forma muito diferente:

  • Educação: 25,24% — de longe a maior subida, reflexo dos ajustes de propinas que vimos no episódio 4
  • Alimentação e bebidas não alcoólicas: 10,40%
  • Habitação, água, electricidade e combustíveis: 10,17%
  • Saúde: 10,16%

Uma família com três filhos na escola privada viveu, nesse mês, uma inflação pessoal muito superior aos 9,33% oficiais. Um agregado sem filhos em idade escolar, muito inferior.

A taxa do INE é rigorosa. Mede o cabaz médio das famílias angolanas, construído a partir do Inquérito sobre Despesas e Receitas. Só que ninguém consome exactamente o cabaz médio.

O que significa para o seu bolso

A pergunta prática é: o rendimento acompanhou?

Vale a pena fazer a conta com o Salário Mínimo Nacional, que subiu de 70.000 para 100.000 kwanzas — um aumento de cerca de 42,9%.

Entre Maio de 2024 e Maio de 2026, a inflação homóloga foi de 19,73% no primeiro período e de 10,88% no segundo. Compostas, essas duas subidas dão uma inflação acumulada de aproximadamente 32,8% nesses dois anos.

Comparando os dois: um aumento nominal de 42,9% contra uma subida de preços de cerca de 32,8% significa um ganho real de aproximadamente 7,6%. Quem passou dos 70.000 para os 100.000 kwanzas ficou, de facto, com mais poder de compra do que tinha.

Este é um cálculo ilustrativo, baseado em duas leituras homólogas do IPCN e no valor legal do salário mínimo. Não substitui uma série oficial de salários reais.

É uma conclusão positiva, e rara nesta série. Mas precisa de duas qualificações importantes.

A primeira: isto aplica-se a quem recebe o salário mínimo legal — ou seja, a quem tem emprego formal. Como vimos no episódio 5, cerca de oito em cada dez trabalhadores angolanos estão na informalidade, onde não há salário mínimo nem actualização automática. Para esses, não existe nenhuma garantia de que o rendimento tenha acompanhado os preços.

A segunda: um ganho real de 7,6% em dois anos não repõe os 61% de poder de compra perdidos em onze anos. Recupera uma fracção pequena de uma erosão longa.

O que observar a seguir

Duas coisas, uma mensal e uma anual.

Todos os meses, a Folha de Informação Rápida do IPCN traz a taxa nacional — mas traz também a variação por província. Se vive fora de Luanda, é esse o número que descreve a sua realidade, e quase nunca é o que aparece nos títulos.

E, uma vez por ano, vale a pena fazer a conta que fizemos acima: comparar a subida do seu rendimento com a inflação acumulada do mesmo período. Se o rendimento subiu menos, perdeu poder de compra mesmo tendo recebido um aumento. É a única forma honesta de saber se está melhor ou pior — e não é uma pergunta que a taxa de inflação, sozinha, consiga responder.

Fontes e notas

Índice de Preços no Consumidor Nacional, período de base de Dezembro de 2014, variação por classes de despesa e por província, e Inquérito sobre Despesas e Receitas: Instituto Nacional de Estatística (INE). Salário Mínimo Nacional: Decreto Presidencial n.º 152/24, de 17 de Julho. Valor do índice em Janeiro de 2026 conforme série compilada a partir dos dados do INE.

Os cálculos de poder de compra, inflação acumulada e ganho real são ilustrativos, feitos a partir dos valores publicados do índice e das variações homólogas, e não substituem séries oficiais de rendimento real. Os valores do mês corrente são preliminares e podem ser revistos pelo INE.

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