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O que o gasóleo faz ao preço do tomate

Em dois anos, o litro de gasóleo passou de 135 para 420 kwanzas. O tomate não mudou. A terra não mudou. O que mudou foi a viagem entre os dois.

O que o gasóleo faz ao preço do tomate

Em dois anos, o litro de gasóleo passou de 135 para 420 kwanzas. O tomate não mudou. A terra não mudou. O que mudou foi a viagem entre os dois.

ANÁLISE ANGOLAEXPERT


O problema de fundo

Há uma coisa que quase toda a gente já reparou no mercado: os preços mexem sem que nada tenha acontecido à comida.

Não houve seca. Não houve praga. A colheita foi igual à do ano passado. E no entanto o tomate está mais caro, a cebola está mais cara, e o vendedor não sabe explicar porquê — apenas diz que lhe cobraram mais.

Quando isto acontece, a explicação costuma estar longe do mercado, num sítio onde ninguém pensa em procurar: no depósito de um camião.

Este artigo segue essa ligação do princípio ao fim.

O litro de gasóleo passou de 135 para 420 kwanzas em dois anos

A escada é esta, e é curta.

Até Abril de 2024, o gasóleo custava 135 kwanzas por litro. Em Maio de 2024 passou para 200. Em Abril de 2025 para 300. Em Julho de 2025 para 400. E em Junho de 2026, por decisão do Instituto Regulador dos Derivados do Petróleo, para 420.

São 211% de aumento em cerca de dois anos.


O preço subiu porque o Estado deixou de pagar a diferença

Convém explicar de onde vem esta escada, sem entrar em juízos.

Durante décadas, o combustível em Angola foi vendido abaixo do que custava. A diferença era paga pelo Estado. Chama-se a isso um subsídio: o preço na bomba é um, o custo real é outro, e alguém cobre o intervalo.

Esse alguém era o Orçamento Geral do Estado. E a conta era grande. Só o gasóleo custou ao Estado cerca de 5,6 biliões de kwanzas entre 2021 e meados de 2024 — um valor próximo de tudo o que o país gastou em educação e saúde juntas no mesmo período.

A partir de Junho de 2023, o Executivo começou a retirar esse subsídio de forma gradual, uma recomendação que constava também dos acordos com o Fundo Monetário Internacional. Cada subida da escada acima é um degrau dessa retirada. Para 2026, a poupança prevista ultrapassa os dois mil milhões de dólares.

Não é objectivo deste artigo dizer se a medida foi certa ou errada. É seguir o que ela faz ao preço da comida.


O gasóleo está 40% mais caro do que a gasolina

Aqui está um pormenor que muda tudo e que passa despercebido.

Enquanto o gasóleo subia até aos 420 kwanzas, a gasolina ficou nos 300. O petróleo iluminante continua nos 70 e o gás de botija nos 100.

Ou seja: em Angola, hoje, o gasóleo é 40% mais caro do que a gasolina.

E gasóleo não é o combustível dos carros particulares. É o combustível dos camiões, dos geradores, dos tractores, dos barcos e das câmaras frigoríficas. É o combustível que move mercadoria.

Portanto esta subida em particular não caiu sobre quem vai passear ao domingo. Caiu, quase inteira, sobre as coisas que são transportadas. Sobre a comida, em primeiro lugar.


Como é que isto chega ao tomate

A ligação não é teórica. É fácil de seguir e está documentada.

Em Maio de 2024, quando o gasóleo passou de 135 para 200 kwanzas, os transportadores rodoviários de mercadorias aumentaram as tarifas em 15% de imediato. Nas rotas mais longas e difíceis, como as de Cabinda, o aumento chegou aos 44% e 52%.

Em Abril de 2025, quando o gasóleo passou para 300, as operadoras de transporte de passageiros ajustaram os preços entre 6% e 25%, conforme a rota.

E as tarifas de mercadoria, uma vez subidas, ficam. Levar um camião de 30 toneladas de Luanda a Malanje passou a custar cerca de 607.500 kwanzas — 20 kwanzas por cada quilo transportado. Até ao Cuando Cubango, 87 kwanzas por quilo.

Um quilo de tomate que sai da lavra vale uma coisa. Esse mesmo quilo, depois de pagar o depósito do camião, vale outra. E entre a lavra e o mercado não lhe aconteceu nada: continua a ser o mesmo tomate.

Os próprios transportadores dizem que o gasóleo não é a única causa. Apontam também o estado das estradas, que gasta pneus e suspensões, a desvalorização do kwanza e o preço das peças importadas. Mas o gasóleo é o único desses factores que muda de um dia para o outro, por decisão anunciada, e que se aplica a todas as rotas ao mesmo tempo.


O efeito não aparece na linha dos transportes. Aparece na da comida

Agora a parte que explica porque é que quase ninguém faz esta ligação.

Olhe para os números de Maio de 2026. A inflação geral foi de 10,88%. A classe que mais subiu de preço em todo o índice foi a dos transportes, com 15,73% — bem acima da média, e acima da alimentação, que ficou nos 11,33%.

Mas os transportes contribuíram com apenas 0,75 pontos percentuais para aquela inflação de 10,88%.

Como pode a classe que mais sobe ser a que menos conta?

Porque o índice pesa cada classe conforme aquilo que as famílias gastam nela. E as famílias angolanas gastam muito mais em comida do que em bilhetes. Então, mesmo disparando, os transportes quase não mexem a média.

Daqui sai a conclusão que interessa: o efeito do gasóleo não chega ao seu orçamento com a etiqueta "transportes". Chega escondido dentro do preço do tomate, do peixe e do saco de arroz, e é contado como alimentação.

Por isso a subida do combustível parece pequena nas estatísticas e grande no mercado. Está a ser medida no sítio errado.


As tarifas de transporte sobem depressa e nunca voltam a descer

Três traduções práticas.

Entre a bomba e o mercado há um a dois meses. O preço do combustível muda num dia. O preço no mercado muda quando se esgota o stock comprado ao preço antigo e chega o camião seguinte. Quem conhece este desfasamento pode comprar o que não estraga antes de a onda chegar.

Quanto mais longe da lavra, maior a fatia do gasóleo no que paga. Num produto local de época, o combustível é uma parte pequena do preço. Num produto que atravessou o país, pode ser a maior parte da diferença. É mais um argumento a favor do que cresce perto.

As tarifas de transporte não descem quando o gasóleo desce. Sobem depressa e ficam. É por isso que um alívio no preço do combustível quase nunca se sente no mercado, enquanto um aumento se sente sempre.

Uma nota de honestidade: não existe em Angola um estudo público que meça que percentagem do preço final de um produto agrícola é combustível. Sabemos o preço do gasóleo, sabemos as tarifas de transporte e sabemos a variação da classe dos transportes no índice. A ponte exacta entre os três é uma estimativa, não uma medição, e não a apresentamos como tal.

Fontes e notas

Instituto Regulador dos Derivados do Petróleo, actualização do preço do gasóleo para 420 kwanzas por litro em Junho de 2026, e preços em vigor da gasolina, petróleo iluminante e gás de botija. Ajustamentos anteriores do preço do gasóleo em Maio de 2024, Abril de 2025 e Julho de 2025, conforme noticiado à data. Custo do subsídio ao gasóleo entre 2021 e meados de 2024 e poupança prevista para 2026, conforme divulgado pelo Ministério das Finanças e pela imprensa económica angolana. Tarifas de transporte rodoviário de mercadorias e de passageiros praticadas em 2024 e 2025, divulgadas por associações do sector. Instituto Nacional de Estatística, Índice de Preços no Consumidor Nacional, Maio de 2026, para a variação e o contributo por classe.

Os valores do ano corrente são provisórios e sujeitos a revisão. As tarifas de transporte citadas referem-se ao momento em que foram anunciadas e servem para mostrar a dimensão do ajustamento, não o preço em vigor hoje. Este artigo trata do efeito da variação do preço do combustível sobre o custo de vida e não avalia a decisão de política orçamental que lhe deu origem.

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