A distância entre crescer e viver melhor
A distância entre crescer e viver melhor
Quanto Custa Viver em Angola — Episódio 7
Esta série começou com um número e uma contradição. Em 2025, a economia angolana cresceu 3,13%. No mesmo ano, o rendimento real por pessoa cresceu 0,1%.
O país produziu mais. O angolano médio ficou onde estava.
Ao longo de seis episódios percorremos o caminho entre esses dois números — o transporte, a comida, a escola, o salário, a luz e a água. Este último episódio junta as peças e responde à pergunta que esteve por baixo de todas elas: porque é que o crescimento demora tanto a chegar a casa das pessoas?
A primeira resposta: somos cada vez mais
A explicação mais simples é aritmética.
O Produto Interno Bruto mede o que o país produz. Dividi-lo pela população dá o rendimento por pessoa. Se a produção cresce 3,13% mas a população cresce quase ao mesmo ritmo, a divisão devolve praticamente o mesmo valor do ano anterior.
Foi exactamente o que aconteceu em 2025. Não houve retrocesso — houve empate.
E vale a pena guardar esta ideia, porque explica décadas de história económica angolana: para o nível de vida subir de forma perceptível, o crescimento tem de ser consistentemente superior ao crescimento demográfico, durante anos seguidos. Um bom ano não chega.
A segunda resposta: a média esconde a distribuição
Aqui está a parte que a aritmética não capta, e é a mais importante.
"Rendimento por pessoa" é uma média. E uma média divide o bolo de forma igual no papel, mesmo quando na realidade ele é cortado em fatias muito diferentes.
Segundo dados apresentados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, em Angola os 10% mais ricos detêm cerca de 40% do rendimento nacional, enquanto os 40% mais pobres recebem apenas 11,5%.
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Leia-se devagar: um décimo da população recebe mais do triplo daquilo que quatro décimos da população recebem, somados.
Quando o PIB por pessoa sobe 1%, esse 1% não aparece igualmente em todas as casas. Aparece sobretudo onde o rendimento já está concentrado. É por isso que é perfeitamente possível — e frequente — que os números nacionais melhorem enquanto a maioria das famílias não nota diferença nenhuma.
O próprio Índice de Desenvolvimento Humano reconhece isto. Quando o IDH de Angola é ajustado para ter em conta a desigualdade, o país perde duas posições na classificação mundial. A desigualdade custa desenvolvimento humano de forma mensurável. Para os países de IDH médio, a perda média causada pela desigualdade ronda os 25,1%; na África Subsariana, os 30,8%.
O que melhorou mesmo
Seria desonesto terminar a série sugerindo que nada mudou. Mudou, e em dimensões que contam.
Angola ocupa a 148.ª posição entre 193 países no Índice de Desenvolvimento Humano, tendo subido dois lugares face à edição anterior, e mantém-se na categoria de desenvolvimento humano médio, com um valor de IDH superior à média da África Subsariana.
O IDH não mede apenas dinheiro. Combina três dimensões: saúde, educação e rendimento. E em duas delas o progresso angolano é claro:
- A esperança de vida à nascença subiu de 61,9 anos em 2022 para 64,6 anos em 2023 — quase três anos de vida ganhos num único ano de medição.
- A média de anos de escolaridade passou de 3,4 anos em 2006 para 6,0 anos em 2024. Quase duplicou em menos de duas décadas.
- O rendimento per capita considerado no índice subiu de 5.328 para 6.631 dólares no mesmo período.
Entre 1999 e 2023, o valor do IDH angolano registou melhoria contínua. Isto não é estagnação. É progresso real, embora lento e desigualmente distribuído.
O que não se mexeu
E, ao lado disso, os indicadores que a série encontrou repetidamente:
- Cerca de 78,8% dos trabalhadores estão na economia informal, sem piso salarial nem protecção legal (episódio 5).
- No primeiro trimestre de 2026, 88 em cada 100 novos postos de trabalho foram informais.
- O desemprego jovem dos 15 aos 24 anos rondou os 40,7%.
- A taxa de acesso à electricidade é de 44% e à água potável de 56%; em Luanda, menos de 35% da população tem água da rede (episódio 6).
- Segundo o Programa Alimentar Mundial, mais de um quarto das crianças em idade escolar nunca frequentou a escola, e a desnutrição crónica afecta cerca de quatro em cada dez crianças com menos de cinco anos.
Uma nota de método sobre a pobreza, no espírito desta série. Vai encontrar números diferentes conforme a fonte: o Banco Africano de Desenvolvimento aponta uma taxa de pobreza de 40,6%, o Programa Alimentar Mundial refere 31% da população abaixo da linha de pobreza. Não é contradição — é a consequência de linhas de pobreza diferentes, anos de referência diferentes e metodologias diferentes. Como aprendemos no episódio 5 a propósito do desemprego: antes de comparar dois números, verifique se medem a mesma coisa.
O que 2026 está a mostrar
E agora a parte que torna este final menos fechado do que parecia.
Os números de 2026 são substancialmente melhores do que os de 2025. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, o PIB cresceu 5,32% no primeiro trimestre e 8,74% no segundo, com o crescimento acumulado do ano a situar-se em 7,15% face ao mesmo período de 2025. O Banco Africano de Desenvolvimento projectava 2,9% para 2026 — está a ser largamente ultrapassado.
Ao mesmo tempo, a inflação caiu de 16,56% em Novembro de 2025 para 8,78% em Agosto de 2026, abaixo dos 10% por dois meses consecutivos pela primeira vez desde que a série do IPCN começou, em 2015.
Se este ritmo se mantiver, 2026 será o primeiro ano em muito tempo em que o crescimento supera folgadamente o crescimento demográfico. Nesse caso, o rendimento real por pessoa subirá de forma perceptível, e não os 0,1% de 2025.
Duas ressalvas importantes. Primeira: são dados de meio ano, preliminares, e podem ser revistos. Segunda, e mais séria: crescer mais depressa não resolve, por si só, o problema da distribuição. Se os 10% mais ricos continuarem a receber 40% do rendimento, um crescimento maior chegará a essas mesmas casas primeiro.
O crescimento é condição necessária. Nunca foi condição suficiente.
O que significa para o seu bolso
Juntando tudo o que a série apurou, o quadro de uma família com o Salário Mínimo Nacional de 100.000 kwanzas é este:
O transporte diário consome entre 13% e 26% do salário. A factura da electricidade na categoria monofásica, mais 13,5%. A propina mensal mais baixa encontrada numa ronda por colégios de Luanda, 71% — por um filho. O cabaz alimentar de uma família numerosa, vários salários inteiros.
E isto para quem tem salário. Para os cerca de oito em cada dez trabalhadores angolanos que estão na informalidade, não existe piso, não existe factura fixa e não existe forma de fazer estas contas com dados oficiais.
É esta a distância entre crescer e viver melhor. Não é uma metáfora. São os pontos percentuais que separam 3,13% de 0,1%, e os que separam 40% de 11,5%.
O que observar a seguir
Três números, daqui para a frente:
- O crescimento acumulado de 2026, nas Contas Nacionais Trimestrais do INE. Se fechar o ano acima dos 4%, o rendimento por pessoa terá subido de forma real pela primeira vez em anos.
- A repartição entre emprego formal e informal nos postos de trabalho criados. Enquanto se mantiver perto dos 88 para 12, o crescimento estará a produzir trabalho sem protecção.
- As novas ligações domiciliares de electricidade e água, rumo à meta de 50% de cobertura até 2027.
Se o primeiro subir e os outros dois não acompanharem, Angola crescerá outra vez sem que a maioria o sinta. Se os três se moverem juntos, será outra coisa — e esta série terá um episódio novo para escrever.
Fontes e notas
Índice de Desenvolvimento Humano, esperança de vida, escolaridade, rendimento per capita e distribuição do rendimento: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Relatório de Desenvolvimento Humano. Crescimento do PIB, Contas Nacionais Trimestrais, Índice de Preços no Consumidor Nacional e Inquérito sobre o Emprego em Angola: Instituto Nacional de Estatística (INE). Pobreza, desigualdade e projecções de crescimento: Banco Africano de Desenvolvimento, Angola Economic Outlook. Escolarização infantil e desnutrição crónica: Programa Alimentar Mundial (PAM). Taxas de acesso a electricidade e água: Ministério da Energia e Águas e Governo Provincial de Luanda. Salário Mínimo Nacional: Decreto Presidencial n.º 152/24, de 17 de Julho.
Os dados de 2026 são preliminares e podem ser revistos. As taxas de pobreza citadas resultam de metodologias e anos de referência diferentes e não são directamente comparáveis entre si. A parcela do rendimento atribuída ao grupo intermédio da população é um valor residual calculado a partir dos dois extremos divulgados.


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