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Cambambe: porque é que há aldeias sem luz perto de uma das maiores barragens do país
A barragem de Cambambe, no Cuanza Norte, produz electricidade para Luanda e para grande parte do norte de Angola. Algumas comunidades próximas continuam a iluminar-se com lanternas e candeeiros a petróleo. Não é uma contradição: produzir electricidade e levá-la a cada casa são investimentos diferentes.
Em resumo
A barragem de Cambambe, no Cuanza Norte, produz electricidade para Luanda e para o norte de Angola. Mesmo assim, muitas aldeias da província continuam sem luz. A razão é simples: produzir electricidade, transportá-la em alta tensão e levá-la a cada casa são três investimentos diferentes. O Cuanza Norte está um pouco acima da média nacional, mas no campo só uma minoria das famílias tem ligação à rede. Hoje o país produz mais electricidade do que consome; o que falta é a rede de distribuição, a parte mais cara por família ligada.
ANÁLISE ANGOLAEXPERT

O problema de fundo
A barragem de Cambambe fica no rio Cuanza, junto à cidade do Dondo. Foi inaugurada em 1963 [1], e com a reabilitação e ampliação concluída em 2017 passou a ter 960 megawatts (MW) de potência instalada, distribuídos por duas centrais [2][3]. O projecto custou cerca de 2 mil milhões de dólares e produz, em média, cerca de 5 milhões de megawatts-hora por ano. Abastece Luanda e as províncias do norte, como o Uíge, o Zaire e Malanje [2].
Ainda assim, em várias comunas rurais do Cuanza Norte, muitas famílias continuam sem ligação à rede eléctrica. Para quem passa na região, a pergunta é natural: como é que há escuridão a poucos quilómetros de uma das maiores centrais do país?
Em termos simples
Pense na electricidade como água. Uma grande barragem é como uma estação de captação: produz muita água. Para essa água chegar às cidades, são precisas condutas principais, grandes e caras, que atravessam o país. Mas para chegar a cada casa são precisos ainda canos pequenos em cada rua, ligações individuais e contadores.
Se uma conduta principal passa ao lado de uma aldeia sem uma ligação local, a aldeia continua sem água. Com a electricidade é igual. As linhas de alta tensão que saem de Cambambe levam energia para as grandes cidades, mas não ligam por si só as casas por onde passam.
Três investimentos diferentes
O sector eléctrico angolano está organizado em três partes, cada uma com a sua empresa pública:
- Produção: a PRODEL gera a electricidade em centrais como Cambambe.
- Transporte: a Rede Nacional de Transporte de Electricidade (RNT) leva a energia em alta tensão, em grandes linhas e subestações, entre as centrais e as regiões de consumo. Em Cambambe, a ampliação incluiu subestações de alta tensão que ligam a central às barragens de Capanda e Laúca [4].
- Distribuição: a Empresa Nacional de Distribuição de Electricidade (ENDE) baixa a tensão e leva a energia às casas, através de postes, transformadores locais, cabos de baixa tensão e contadores.
Uma central do tamanho de Cambambe foi construída para alimentar a rede nacional, não para servir directamente as aldeias à sua volta. O que liga essas aldeias é a terceira parte, a distribuição. Essa é uma decisão de investimento separada.
Porque importa: a existência de uma barragem numa província não garante electricidade às famílias locais. O que decide isso é a rede de distribuição.
O que mostram os números
Segundo o Censo 2024, 48,6% dos agregados familiares de Angola têm electricidade: 68,9% nas zonas urbanas e apenas 8,5% nas zonas rurais [5]. O Cuanza Norte está um pouco acima da média nacional. Segundo os dados provinciais do Censo, cerca de 54% dos agregados usam a rede pública como principal fonte de iluminação [6].
A grande diferença é entre cidade e campo. Nas zonas urbanas da província, cerca de três em cada quatro agregados estão ligados à rede. Nas zonas rurais, apenas cerca de um em cada cinco [6]. É melhor do que a média rural do país, mas significa que a maioria das famílias do campo continua a depender de lanternas, candeeiros a petróleo ou pequenos geradores.
Porque importa: o problema não é a barragem. A rede chegou às cidades e ainda não chegou à maior parte do campo.
Porque é que a última ligação é a mais cara
Ligar uma cidade é relativamente barato por família: as casas estão próximas e o consumo é alto. Ligar o campo é o contrário. As casas estão dispersas, cada quilómetro de linha serve poucas famílias e o consumo de cada uma é baixo. O custo por família ligada é muito maior, e a receita que cada ligação gera é pequena.
Os números confirmam a escala do desafio. Um projecto para levar a rede às sedes municipais de Bolongongo, Banga e Ngonguembo, no Cuanza Norte, foi financiado com 88,7 milhões de euros [7]. Em 2016, o Ministério da Energia e Águas calculava que, para chegar a toda a população até 2030, o país precisaria de cerca de 250 mil novas ligações rurais por ano [8].
Porque importa: a electrificação rural depende sobretudo de financiamento para a distribuição, e cada projecto tende a servir relativamente poucas famílias por cada milhão investido.
Um país com mais produção do que consumo
Nos últimos anos, Angola aumentou muito a capacidade de produção, com centrais como Cambambe e Laúca. Segundo a PRODEL, citada pela Angop, o país tem cerca de 6,3 gigawatts de capacidade instalada, dos quais apenas cerca de um terço está a ser consumido [9]. Na mesma ocasião, a empresa anunciou a paragem temporária da central de ciclo combinado do Soyo, por excedente de energia no sistema nacional [9].
Porque importa: em Angola, o factor que mais limita o acesso à electricidade é hoje a capacidade de levar a energia às casas, e não a capacidade de a produzir. É mais um sinal de que o próximo passo está na distribuição.
O que está a ser tentado
Há várias iniciativas em curso no Cuanza Norte.
Ligações a partir das linhas de alta tensão. Em Novembro de 2025 foi lançada a primeira pedra de um projecto-piloto em Quiangombe, no Lucala, ao lado de uma torre de muito alta tensão [10]. Usa uma pequena subestação, desenvolvida pela empresa portuguesa REN, que retira da linha uma pequena quantidade de energia para a comunidade local [10]. O projecto deverá abastecer 175 casas, uma escola e um centro de saúde, com iluminação e tomadas em cada casa [10]. A RNT, no âmbito do programa RETEC, já identificou cerca de uma dúzia de comunidades onde o modelo pode ser repetido [10].
Extensão da rede aos novos municípios. Com a nova divisão administrativa, o Cuanza Norte passou a ter 17 municípios. Em 2026, o governador provincial anunciou que sete dos novos municípios e 87 aldeias deverão ser ligados à rede nacional [11].
Reforço do transporte. Está prevista uma nova subestação de 400 kV no Lucala, para reforçar a rede de alta tensão na província [12].
O que isto significa
A barragem de Cambambe cumpre a função para que foi construída: produzir electricidade para a rede nacional. A falta de luz em comunas rurais próximas é um problema de distribuição, o último troço da rede, que é o mais caro por família e o que menos receita gera.
Para quem investe, isto aponta para oportunidades na distribuição e não na produção: construção de redes de média e baixa tensão, contadores, pequenas subestações e soluções para comunidades isoladas. Os pagadores tendem a ser o Estado e os financiadores internacionais, mais do que as próprias famílias.
Há quatro sinais a acompanhar: o resultado do piloto de Quiangombe e a sua eventual repetição noutras comunidades; o cumprimento do calendário de ligação dos novos municípios; o número de novas ligações rurais por ano face às necessidades estimadas; e a próxima medição da taxa de electrificação rural no Cuanza Norte.
Fontes
- Ver Angola / Lusa, "Cambambe: concluída em 2016 barragem que Américo Thomaz deixou 'incompleta'", Novembro de 2015.
- Ver Angola, "Manuel Vicente inaugura central eléctrica de Cambambe que beneficia oito milhões de pessoas", Junho de 2017.
- Ministério da Energia e Águas, trabalhos de manutenção no Aproveitamento Hidroeléctrico de Cambambe, Agosto de 2019.
- Golden / registos técnicos do Aproveitamento Hidroeléctrico de Cambambe (subestações de 400, 220 e 60 kV).
- INE Angola, Relatório Síntese dos Resultados Definitivos do RGPH 2024 (2025).
- INE Angola, Resultados Definitivos do RGPH 2024 – Província do Cuanza Norte (2026).
- Notícia sobre o lançamento das obras de electrificação de Bolongongo, Banga e Ngonguembo (via ProQuest).
- Ver Angola, "Electricidade chega a todos os angolanos até 2030", Setembro de 2016.
- Angop, "Vice-governador do Zaire defende electrificação das sedes comunais" (declarações do presidente da PRODEL).
- REN, "REN's Speed-E will bring energy to rural communities in Angola", 11 de Novembro de 2025.
- Angop via AllAfrica, "Seven New Municipalities in Cuanza-Norte to Benefit From National Grid Energy", Julho de 2026.
- Power Technology / GlobalData, subestação do Lucala (400 kV).
Última verificação: 5 de Outubro de 2026. Onde as fontes divergem, isso é indicado no texto em vez de resolvido artificialmente. A análise reflecte a informação disponível nessa data.

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