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Porque é o frango importado mais barato em Angola? 

Uma caixa de coxas atravessa o Atlântico e chega a Luanda mais barata do que o frango criado a 50 quilómetros da cidade. A explicação não está no frango.

ANÁLISE ANGOLAEXPERT


Angola gasta 850 mil dólares por dia a importar frango

É este o número. Todos os dias, incluindo domingos e feriados, saem do país cerca de 850 mil dólares para pagar carne de frango vinda de fora.

Em 2025, segundo dados da Administração Geral Tributária citados pelo ministro da Indústria e Comércio, Angola importou 227.855 toneladas de frango e suas partes, a um custo superior a 310 milhões de dólares. É o produto alimentar mais importado do país.


O que estas toneladas medem, e o que deixam de fora

Estas 227 mil toneladas não são frangos inteiros. São sobretudo coxas, quartos traseiros, moelas e miudezas congeladas, que chegam dos Estados Unidos, do Brasil e da União Europeia.

É uma distinção importante, e voltaremos a ela.

Do outro lado, a produção nacional tem crescido. Passou de cerca de 28 mil toneladas em 2019 para perto de 63 mil toneladas em 2025, segundo o mesmo ministério. É um crescimento real e não deve ser desvalorizado.

Mas o consumo anual do país estima-se entre 300 e 360 mil toneladas. Feitas as contas, a produção nacional cobre menos de um quinto do que os angolanos comem. Especialistas estimam que entre 70% e 80% do frango consumido no país venha de fora.

Aqui os dados divergem, e vale a pena dizê-lo. O ministério aponta 227.855 toneladas importadas em 2025, com uma redução face ao ano anterior. Já projecções do sector avícola internacional apontam para cerca de 260 mil toneladas em 2025 e 270 mil em 2026, ou seja, uma subida. A diferença resulta provavelmente do que cada fonte conta como "frango". Não a resolvemos aqui, apresentamo-la.


A armadilha: não está a comparar a mesma coisa

Quando uma dona de casa compara a caixa de coxas importada com o frango do produtor nacional, sente que o importado ganha sempre. E ganha. Mas a comparação é enganosa.

Nos países de origem, a coxa e o quarto traseiro são as partes que valem menos. O consumidor americano e o europeu preferem o peito. O que sobra é vendido barato para exportação. Angola compra, portanto, o subproduto de uma indústria construída para vender outra coisa.

O produtor angolano, esse, vende o frango inteiro. Tem de recuperar no preço final o custo de criar a ave toda, sem um mercado que lhe pague bem o peito para compensar.

O Expansão notou este ponto há alguns anos: a entrada das coxas de frango na Reserva Estratégica Alimentar contribuiu para o aumento das importações, por ser um produto que os produtores nacionais têm dificuldade em oferecer, levando ao desinvestimento nesse segmento.

Não é o frango angolano que é caro. É que ele não está a competir com frango. Está a competir com sobras.


A conta que explica tudo: 4.000 kwanzas contra 1.150

Mesmo descontando essa distorção, há uma diferença de custo que é real e grande.

Segundo um documento de Setembro de 2024 produzido pela Associação Agropecuária de Angola, pela Associação Nacional dos Avicultores de Angola e pela Associação de Empresas de Comércio e Distribuição Moderna, produzir um quilo de frango em Angola custa em média 4.000 kwanzas. No Brasil custa 1.150 kwanzas. Em Moçambique, 2.736.

Mais do triplo do Brasil. E o Brasil é justamente um dos países de onde vem o frango congelado que está no seu congelador.

Gráfico de barras comparando custos por quilo de frango em Angola, Moçambique e Brasil, em Kz.

O verdadeiro preço do frango chama-se ração

A ave come antes de ser comida. E é aí que a conta se estraga.

A ração é feita de milho e de soja. Angola ainda não é auto-suficiente em nenhum dos dois. A Associação dos Avicultores estima que cerca de 70% da soja usada no país seja importada.

Há ainda um pormenor técnico com consequências no preço. Angola não tem legislação nacional de biossegurança, o que impede a importação de grãos geneticamente modificados. O país é obrigado a comprar milho e soja não transgénicos, que são mais caros e vêm de mercados mais distantes. O resultado aparece no saco de ração, e depois no balcão do talho.

A isto juntam-se duas coisas que qualquer angolano reconhece: a energia é cara e instável, e a cadeia de frio é deficiente. Criar, abater, congelar e transportar uma ave até ao consumidor exige electricidade constante e camiões refrigerados. Cada falha acrescenta custo ou estraga produto.

Como resume uma análise recente do sector, produzir localmente continua, em muitos casos, a sair mais caro do que importar.


O que isto significa para o seu bolso

Traduzido para o dia a dia: nos armazéns e supermercados de Luanda, uma caixa de 10 quilos de coxa congelada importada tem sido anunciada este ano entre cerca de 18.000 e 26.000 kwanzas, conforme a marca e a promoção. Dá qualquer coisa entre 1.800 e 2.600 kwanzas por quilo.

O salário mínimo nacional é de 100.000 kwanzas desde Setembro de 2025. Uma caixa de coxas consome, portanto, entre um quinto e um quarto de um salário mínimo mensal.

E se o país conseguisse substituir tudo por produção nacional ao custo actual de 4.000 kwanzas por quilo? A mesma caixa passaria dos 18.000 ou 26.000 kwanzas para 40.000. Seria mais do dobro, e absorveria 40% do salário mínimo.

É por isto que a substituição das importações não é apenas uma questão de vontade política. Enquanto o custo de produzir não descer, substituir importações significa preços mais altos no prato de quem menos pode pagar.

Convém notar que não há série oficial de preços do frango nos mercados informais de Luanda, bairro a bairro. Os valores acima vêm de listagens de retalho e de levantamentos de imprensa, não de um índice do INE.


A inflação está a descer, mas a comida continua a puxar

Em Agosto de 2026, a taxa de inflação homóloga foi de 8,78%, a segunda vez consecutiva abaixo dos dois dígitos desde que a série do IPCN começou, em 2015.

Boa notícia. Com uma ressalva que interessa directamente a este artigo: a classe alimentação e bebidas não alcoólicas foi a que mais contribuiu para a subida geral dos preços, com 6,01 pontos percentuais dos 8,78. A variação homóloga desta classe foi de 9,94%, acima da média nacional.

Ou seja, a inflação geral abrandou. A da comida abrandou menos.


A nova regra dos 20%

Em Maio de 2026, o Executivo aprovou uma medida que muda o enquadramento. Os operadores que queiram importar carne suína, frango, arroz, açúcar refinado e tilápia passam a ser obrigados a adquirir um mínimo de 20% desses produtos a produtores nacionais para obterem licença de importação.

A lógica é clara: garantir escoamento à produção interna, que já tem volumes significativos mas ainda insuficientes para a procura.

O efeito no preço é que ainda está por ver. Se o importador tiver de comprar 20% a 4.000 kwanzas o quilo e 80% a preço internacional, o custo médio da sua caixa sobe. Quem paga essa diferença, e se ela chega ou não ao consumidor, é a pergunta em aberto.

Fontes e notas

Ministério da Indústria e Comércio e Administração Geral Tributária, dados de importação de 2025 apresentados na Conferência sobre o Desenvolvimento do Sector Avícola, Luanda, Março de 2026, via Lusa. Instituto Nacional de Estatística, Índice de Preços no Consumidor Nacional, Agosto de 2026. Associação Agropecuária de Angola, Associação Nacional dos Avicultores de Angola e ECODIMA, documento de Setembro de 2024, citado pelo Expansão. Decreto executivo sobre licenciamento de importações aprovado pela Comissão Económica do Conselho de Ministros, Maio de 2026. Preços de retalho recolhidos de listagens comerciais de Luanda em 2026.

Os valores de 2026 são estimativas e estão sujeitos a revisão. Onde as fontes divergem, indicámo-lo no texto em vez de escolher um número por conveniência.

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