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Fosfatos do Zaire: porque é que os jazigos ainda não deram fertilizante

Angola importa quase todo o adubo que usa, e há quase duas décadas que os fosfatos do Zaire aparecem como "potencial". O motivo não é falta de anúncios: é uma combinação de teor baixo da rocha, investimento elevado e um mercado interno ainda pequeno.


Em resumo

Angola precisa de cerca de 800 mil toneladas de fertilizantes por ano, mas importa quase tudo o que usa. O Zaire tem jazigos de fosfato conhecidos há anos, como o do Lucunga, mas a rocha é pobre (cerca de 10% de fósforo útil) e exige fábricas caras para um mercado que ainda compra pouco. Por isso, os projectos anunciados não avançaram. Hoje, o que está mais perto de produzir é uma pequena fábrica de fosfato de alto teor em Cabinda e, no Soyo, uma grande fábrica de ureia a partir do gás, prevista para 2027, que fornece azoto mas ainda não fósforo.

ANÁLISE ANGOLAEXPERT


O problema de fundo

Os fertilizantes (ou adubos) devolvem ao solo os nutrientes que as plantas consomem. Os três principais são o azoto (N), o fósforo (P) e o potássio (K). Os adubos chamados NPK misturam os três, a ureia é a forma mais comum de azoto, e o fósforo vem sobretudo de uma rocha, a rocha fosfática.

Angola usa muito pouco fertilizante. O Instituto de Desenvolvimento Agrário estimava em 2023 que o país precisava de cerca de 800 mil toneladas por ano, mas usava menos de 50 mil [1]. Em média, aplicam-se 6 a 8 quilos de fertilizante por hectare, e a Zâmbia usa cerca de dez vezes mais [2]. Em 2025, o país importou 129 990 toneladas, segundo o Ministério da Agricultura e Florestas [6]. Para a campanha agrícola de 2026-2027, o Governo prevê distribuir cerca de 156 mil toneladas, 19,5% das necessidades estimadas [2].

Quase tudo vem de fora. As unidades nacionais que misturam ingredientes importados cobrem cerca de 3% do mercado [3]. Em Junho de 2025, o Despacho Presidencial n.º 162/25 autorizou a compra de 180 mil toneladas ao grupo marroquino OCP, o maior produtor mundial de fosfatos, por 100 milhões de dólares [3][4].

Ao mesmo tempo, o Zaire tem fosfatos conhecidos há muitos anos. A pergunta desta análise é simples: porque é que essa rocha ainda não se transformou em fertilizante?

Mapa de Angola com províncias destacadas, incluindo Cabinda e Zaire em destaque com círculo vermelho.
Provincia do Zaire

Em termos simples

Pense na rocha fosfática como minério: o que interessa é a quantidade de fósforo que ela contém. Essa quantidade mede-se pelo teor de P₂O₅ (pentóxido de fósforo), a forma padrão de expressar o fósforo útil. Uma rocha com 30% de P₂O₅ é rica; uma com 10% é pobre.

Com rocha pobre, é preciso extrair e tratar três vezes mais material para obter o mesmo fósforo. Esse tratamento (a beneficiação, que concentra o fósforo, e depois a transformação química com ácido sulfúrico e a granulação) exige fábricas caras. Uma fábrica cara só se paga se tiver um mercado grande e estável. O caso do Zaire é a soma destas três coisas: rocha pobre, investimento alto e mercado pequeno.


Os jazigos do Zaire

O jazigo mais citado fica no Lucunga, no município do Tomboco. Em 2017, a Vale Fértil, subsidiária angolana do grupo israelita LR, lançou ali a primeira pedra do Projecto Integrado de Exploração e Transformação de Fosfato do Lucunga [7]. A concessão cobria 504 km², com cerca de 215 milhões de toneladas de rocha fosfática e teores à volta de 10% [7]. O plano previa 132 milhões de dólares de investimento privado até 2019. A mina ficaria no Lucunga e a transformação no pólo industrial do Soyo, com uma produção inicial de 330 mil toneladas de fertilizantes fosfatados a partir de 2019, 550 mil toneladas a partir de 2022 e cerca de 250 empregos para angolanos [7].

A unidade não chegou a ser construída. Em 2021, a empresa australiana Minbos Resources indicou que, após a fusão com a Petril Fosfatos, passaria a ter projectos no Lucunga e na Pedra de Feitiço, outro alvo no Zaire [8]. O historial de titularidade destes jazigos mudou várias vezes, e nenhum projecto chegou à fase de produção.


Porque não avançou

O teor. A rocha do Lucunga tem cerca de 10% de P₂O₅ [7]. Para comparação, o jazigo de Cácata, em Cabinda, tem reservas de 30,1% [9], e as grandes jazidas do Norte de África, como Bu-Craa, rondam 31% a 33% [11]. Uma rocha de 10% precisa de mais tratamento para competir com o fosfato importado de Marrocos.

O mercado. O teor baixo, por si só, não impede a produção. O Brasil explora reservas com cerca de 8,4% de P₂O₅ [10], mas tem um dos maiores mercados agrícolas do mundo e uma indústria química integrada. Angola tem as necessidades, estimadas em 800 mil toneladas [1], mas não tinha a procura efectiva: o consumo real ficava abaixo de 50 mil toneladas em 2023 [1]. Uma fábrica dimensionada para centenas de milhares de toneladas, num país que comprava algumas dezenas de milhares, dependeria de a procura crescer muito, e depressa.

Os preços. O preço do fertilizante importado varia muito, e isso torna difícil calcular se uma fábrica local compensa. O Ministério da Indústria e Comércio indicou um preço médio de 932,97 dólares por tonelada em 2023, contra 305 dólares nas importações leiloadas em 2024 [5]. Na encomenda à OCP de 2025, o valor implícito subiu para cerca de 556 dólares por tonelada [4]. Em 2026, os importadores relataram que o preço internacional da ureia tinha duplicado devido à guerra [6]. Preços altos tornam a produção local mais atractiva; preços baixos tornam-na difícil de justificar. Um investidor precisa de saber em qual dos cenários vai operar durante 20 anos.

O capital. Durante este período, o capital e a atenção do sector industrial angolano concentraram-se no petróleo e no gás. Um projecto de fosfatos de baixo teor, com custos elevados e um mercado incerto, competia com alternativas de retorno mais previsível.


O que está, de facto, a avançar

A situação de 2026 mostra uma inversão de prioridades. Os projectos mais avançados não são os jazigos de baixo teor do Zaire.

Cabinda, fosfato de alto teor. A Minbos está a construir a mina de Cácata e a Fábrica de Fertilizante Fosfatado de Cabinda, que a empresa descreve como o único projecto integrado de mina e fertilizante fosfatado em Angola [9]. O equipamento foi enviado para Angola em 2023. Em 22 de Junho de 2026, a empresa assinou com o Grupo Arliz um contrato de 13,8 milhões de dólares para levar a fábrica até ao comissionamento a seco, a fase em que os equipamentos são testados antes de receberem matéria-prima [9]. O financiamento inclui uma linha da sociedade sul-africana de desenvolvimento industrial (IDC) e um compromisso de 5,48 milhões de dólares do Banco de Fomento Angola [9]. Trata-se de um projecto pequeno, de rocha rica e investimento modesto, o oposto do modelo tentado no Lucunga.

Benguela, mistura de fertilizantes. Uma unidade em Benguela, com um investimento de 18 milhões de dólares, deverá produzir 180 mil toneladas por ano, cerca de 23% das necessidades estimadas [3].

Soyo, azoto a partir do gás. O maior projecto é a Amufert, no Soyo, detida pelo grupo Opaia (90%) e pela Sonagás (10%), com um investimento de 2,2 mil milhões de dólares [12]. O Afreximbank comprometeu 1,4 mil milhões de dólares em financiamento [13]. A primeira pedra foi lançada em 2022, numa área de 152 hectares [14]. Em 2026, a empresa nomeou uma nova administração com a entrada na fase de construção, e o arranque está previsto para 2027 [15]. As datas e capacidades indicadas variam: 1,2 milhões de toneladas por ano segundo a empresa [12], cerca de 1,3 milhões segundo o CRU [15], e arranque "no início de 2027" segundo o Afreximbank [13]. A empresa anunciou 3500 empregos directos [12].

O ponto essencial é que a Amufert produz sobretudo azoto (ureia e amónia), a partir do gás do Soyo. Não resolve a questão do fósforo. Em Julho de 2024, o ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás anunciou que o fosfato seria acrescentado ao projecto para produzir NPK [14], e a Amufert está a prospectar rocha fosfática perto do Soyo [16]. A componente de fósforo continua, por agora, em fase de estudo.

Porque importa: se a Amufert produzir 1,2 a 1,3 milhões de toneladas por ano, terá uma capacidade superior a todas as necessidades estimadas do país (800 mil toneladas) e cerca de dez vezes o volume importado em 2025 [1][6][12]. A sua viabilidade dependerá, portanto, também das exportações e do preço do gás, não só do mercado angolano.

O que isto significa

Os fosfatos do Zaire não se transformaram em fertilizante porque, até agora, a combinação entre rocha de cerca de 10%, uma fábrica de transformação cara e um consumo nacional real muito abaixo das necessidades não oferecia um retorno previsível face à importação. Não é uma questão de falta de recursos, mas de condições económicas.

A sequência que está a surgir é diferente da que foi anunciada há uma década. Primeiro vem o azoto a partir do gás (Soyo), depois o fósforo de alto teor em pequena escala (Cabinda), e só por último, eventualmente, os fosfatos de baixo teor do Zaire, como complemento para a produção de NPK.

Há quatro indicadores a acompanhar: o comissionamento e as primeiras vendas da fábrica de Cabinda; o arranque da Amufert em 2027 e a parte da produção vendida em Angola; o resultado da prospecção de fosfatos perto do Soyo; e a evolução do consumo real de fertilizantes face às 800 mil toneladas estimadas. Se o consumo crescer, os jazigos do Zaire poderão voltar a fazer sentido económico.

Fontes

  1. Angop, "Angola needs 800,000 tons/year of fertilizers" (Instituto de Desenvolvimento Agrário), 5 de Dezembro de 2023.
  2. Expansão, "Governo vai distribuir apenas 19,5% das necessidades de fertilizantes do País", 2026.
  3. Expansão, "Fábrica de fertilizantes vai cobrir apenas 23% do mercado", 2025 (inclui Despacho Presidencial n.º 162/25).
  4. Expansão, "100 milhões USD para a compra de 180 mil toneladas de fertilizantes", 2025.
  5. Ver Angola, "Sete empresas vencem concurso para importar 250 mil toneladas de fertilizantes", Julho de 2024.
  6. Ver Angola / Lusa, preços dos fertilizantes e importações de 2025, Março de 2026.
  7. Ver Angola / Lusa, "Grupo israelita investe 132 milhões para produzir fertilizantes no Zaire", Junho de 2017.
  8. Ver Angola, "Minbos Resources recebe licença para exploração mineira de fosfato em Cabinda", Março de 2021.
  9. Minbos Resources, comunicado à ASX de 22 de Junho de 2026, e Engineering News, "Cabinda phosphate project, Angola – update", 26 de Junho de 2026.
  10. Engineering & Mining Journal, "Vale acquires phosphate assets in Brazil", 2010.
  11. U.S. Bureau of Mines, Minerals Yearbook 1971 (jazida de Bu-Craa).
  12. Forbes África Lusófona, "Grupo Opaia arranca produção de fertilizantes em 2027 em Angola", Julho de 2024.
  13. African Energy Chamber / Fertilizer Daily, "Afreximbank commits $1.4B to AMUFERT fertilizer plant", Agosto de 2024.
  14. Angop, "Angola's will produce NPK Compound Fertilizer", 30 de Julho de 2024.
  15. CRU BCInsight, "New Amufert board for Soyo project", 7 de Julho de 2026; Fertilizer Daily, Julho de 2026.
  16. Quantum Commodity Intelligence, "Amufert exploring for phosphate rock near Soyo urea plant: ANGOP", 2026.

Última verificação: 5 de Outubro de 2026. Onde as fontes divergem, isso é indicado no texto em vez de resolvido artificialmente. A análise reflecte a informação disponível nessa data.

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