Mercado do 30 em Viana - Luanda
Mercado do 30: o gigante de Viana que herdou o trono do Roque Santeiro
Por Angola Unfiltered
Há lugares em Luanda que não estão em nenhum roteiro turístico, mas onde acontece, na prática, a vida da cidade. O Mercado do 30 é um deles. É enorme, é caótico, é poeirento, é exaustivo — e é, neste momento, o coração da economia informal angolana. Se quiseres entender como Luanda come, como se veste e como se mexe, é aqui que vens. Não com a câmara ao pescoço. Com os sapatos certos e paciência.
O que é, e onde fica
O nome completo é Mercado do Km 30. Vem de um hábito muito luandense de marcar distâncias ao longo das estradas que saem da cidade: o mercado nasceu junto ao quilómetro 30 da Estrada de Catete, no município de Viana — mais concretamente no Distrito Urbano da Baía. Viana é o vasto município industrial e dormitório que se estende a leste de Luanda, com mais de dois milhões de habitantes — o que dá uma ideia da bacia humana que alimenta o mercado todos os dias.
Fica também nas imediações do novo Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto, na zona do quilómetro 44, e funciona como porta de entrada das mercadorias que chegam do interior do país. Camiões vindos de Malanje, Uíge, Kwanza-Sul, Huambo e mais longe descarregam aqui antes que os produtos sejam fragmentados e distribuídos pelos outros mercados da cidade.
O herdeiro do Roque Santeiro
Para entender a importância do Mercado do 30, é preciso saber o que existiu antes dele. Durante duas décadas, a grande referência do comércio informal em Luanda foi o lendário Mercado Roque Santeiro, em Sambizanga. Abriu em 1991 com o nome oficial de Mercado Popular da Boavista e foi apelidado de Roque Santeiro por causa da telenovela brasileira que passava na televisão angolana na altura. Tornou-se conhecido como o maior mercado de África, estendendo-se por uma área de um quilómetro por 500 metros — o equivalente a 500 campos de futebol —, onde se vendia de tudo, de comida a computadores, em bancas de chapa zincada. Prosperou durante a guerra civil precisamente porque, num país com escassez de quase tudo, era um dos poucos sítios onde se conseguia encontrar. Também ficou conhecido por atividades menos confessáveis, como o tráfico de droga e de armas.
O Roque Santeiro foi encerrado em 2011 pelo Governo provincial e os vendedores transferidos para Panguila — uma realocação amplamente considerada um fracasso, porque era longe demais, estéril, sem clientes. O comércio acabou por migrar para outros lugares, e o Mercado do Km 30, que já vinha a crescer junto à estrada de Catete, absorveu boa parte desse fluxo. Foi assim que herdou o título de maior mercado informal de Luanda.
A escala da coisa
Os números ajudam a perceber a dimensão. O Mercado do 30 conta atualmente com mais de cinco mil vendedores. Um estudo de 2023 do ISPTEC para o Banco Nacional de Angola colocou-o no topo da cadeia de abastecimento alimentar da capital: o 30 e o Catinton funcionam como grandes grossistas do setor alimentar e abastecem todos os outros mercados. Há mais de 120 mercados informais de alimentos em atividade em Luanda, concentrados sobretudo nos municípios de Luanda, Belas, Cacuaco, Cazenga e Viana — e muitos deles vão buscar os seus produtos ao 30.
O volume de negócio é tão grande que se estima na ordem dos mil milhões de kwanzas em transações, com os preços praticados ali a influenciarem diretamente os números de inflação que o Instituto Nacional de Estatística publica para Luanda. Quando o tomate sobe no Mercado do 30, sobe em toda a cidade. Quando desce, desce em toda a cidade.
Por que é tão barato
O segredo dos preços baixos está na logística. Os fornecedores e os camponeses que trazem os produtos agrícolas diretamente do interior e das fazendas descarregam aqui. Não há intermediários, não há camadas extra de margem, não há transporte adicional até ao centro. Os outros mercados — o Catinton, o dos Kwanzas, o Asa Branca, o Avô Mabunda, o Prenda, os Congoleses — praticam preços mais altos porque os seus vendedores vêm primeiro ao 30 comprar a grosso e só depois revendem a retalho.
Para uma família que quer poupar, ou para um pequeno comerciante, o cálculo é simples: vir ao 30 uma vez por semana sai muito mais em conta do que comprar todos os dias no mercado do bairro. É essa equação que faz com que, todos os dias, milhares de pessoas atravessem Luanda só para chegar até aqui.
O que se vende
Tudo. À semelhança do Roque Santeiro, o 30 é genuinamente um mercado geral, não apenas alimentar. Há produtos frescos em montanhas — mandioca, batata-doce, gimboa e outras verduras, óleo de palma, peixe seco, galinhas vivas. Há cereais e feijão a granel, comida pronta, roupa em segunda mão (a famosa calamidade ou roupa americana), utensílios domésticos, plásticos, ferragens, telemóveis, eletrónica e o inevitável cardume de cambistas. Entre os vendedores formais, com banca, circulam as zungueiras — as mulheres que carregam à cabeça cestos com mercadoria e fazem o seu próprio mercado dentro do mercado.
Os preços flutuam ao longo do dia. À tarde, perto do encerramento, aplica-se a famosa política do "arreiou arreiou" — baixa-se tudo, sobretudo os perecíveis. É a melhor hora para barganha, embora a oferta já esteja revolvida.
Sombras e disputas
Nem tudo é fluido no Mercado do 30. O terreno onde está implantado é disputado há anos. Em maio de 2023, a 1.ª Secção Cível do Tribunal de Comércio de Luanda determinou que o Estado angolano devolvesse o mercado a Cidália Baptista Cambinda, que litigava a propriedade contra a Administração Municipal de Viana há mais de 16 anos. O tribunal aceitou que, antes de ser despejada, ela auferia mais de 90 milhões de kwanzas por mês em taxas cobradas aos vendedores, e fixou os prejuízos só para 2018 em mais de 1,3 mil milhões de kwanzas. O caso continua a fazer ondas na política luandense.
Já em 2016, durante o surto de febre amarela em Luanda, o 30 foi identificado como possível foco e chegou a falar-se em fechá-lo. Os vendedores, muitos dos quais já tinham sido deslocados do Roque Santeiro e do mercado da Estalagem, recearam ter de voltar à venda ambulante. O mercado sobreviveu. E há, em paralelo, obras em curso: o Governo Provincial tem vindo a melhorar acessos e gestão, com troços da estrada de acesso a serem terraplanados para aliviar o trânsito de pessoas e camiões.
Conselhos práticos para o visitante
Vai de viatura própria ou alugada. Depender de candongueiros é constrangedor, desconfortável e demorado, com filas longas nas paragens. Prepara-te para o trânsito — a Via Expressa, a Estrada de Catete e a zona do desvio do Zango costumam estar congestionadas com camiões e comerciantes. Se fores com um guia que não visita o local há muito tempo, atenção: a antiga entrada principal ficou bloqueada por inundações das chuvas, e a nova entrada exige um contorno pelo bairro e a travessia de uma linha férrea.
Vai de manhã, entre as 6h e o meio-dia, quando os produtos frescos chegam e o mercado está no seu auge. Não andes sozinho — leva alguém que conheça o terreno. Não exibas o telemóvel topo de gama nem a câmara profissional, e pede sempre licença antes de fotografar os vendedores. Se o teu foco for medicina tradicional, raízes e ervas, troca o 30 pelo Mercado dos Kwanzas — tem um cariz cultural mais forte nesse aspeto. O 30 é, sobretudo, alimentos em massa: fuba, tomate, cebola, peixe, feijão.
Por que vale a pena ir
Visitar o Mercado do 30 não é apenas fazer compras com bom custo-benefício. É uma imersão direta no coração trabalhador, ruidoso, incansável da economia informal angolana — a economia que sustenta a cidade enquanto o resto se debate em planos e diagnósticos. É ver de onde vem o pão, o peixe, o feijão e o tomate que estão em cima da mesa de milhões de luandenses. E é perceber que, em Luanda, os verdadeiros centros nem sempre coincidem com os do mapa oficial.