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Pode um investidor estrangeiro tirar os lucros de Angola?
ANÁLISE ANGOLAEXPERT
O problema de fundo: ganhar em kwanzas, prestar contas em dólares
Imagine-se uma empresa portuguesa que abre um supermercado em Luanda, ou um grupo sul-africano que investe num hotel em Benguela. Vende aos clientes em kwanzas. Paga salários e fornecedores em kwanzas. Mas os acionistas estão no estrangeiro e querem receber o lucro em euros ou dólares.
Para isso, a empresa tem de trocar kwanzas por dólares num banco angolano e transferi-los para fora. É o mesmo processo de um importador que paga a um fornecedor estrangeiro, e é a mesma fila. Nos episódios anteriores vimos que essa fila existe: em meados de 2026, os pedidos de dólares por satisfazer rondavam 1,7 mil milhões de dólares, com esperas superiores a dois meses [1].
A pergunta deste artigo é direta: um investidor estrangeiro consegue tirar os lucros de Angola? E quanto lhe custa?

A lei garante o direito
Do ponto de vista legal, a resposta é sim. A Lei do Investimento Privado de 2018 garante aos investidores estrangeiros o direito de transferir para o exterior os dividendos, o valor da venda do negócio, indemnizações e royalties, depois de o projeto estar implementado e os impostos pagos [2]. Uma alteração de 2021 foi mais longe: passou a permitir transferências antes de o projeto estar concluído [3].
Há ainda regras favoráveis. A transferência de dividendos está isenta da contribuição especial de 10% que Angola cobra sobre a maior parte dos pagamentos ao estrangeiro [4]. E no petróleo, os investidores estrangeiros podem mesmo manter os lucros em contas fora do país, sem nunca os trazer para Angola [5].
E os lucros saem, de facto
Os números confirmam que os lucros saem. Nos primeiros nove meses de 2025, as empresas estrangeiras em Angola enviaram para fora cerca de 2,2 mil milhões de dólares em lucros, segundo cálculos do Expansão com dados do banco central [6]. Somando juros e outros rendimentos, o país pagou ao estrangeiro cerca de 6,5 mil milhões de dólares em 2025 [4].
Mas estes números misturam situações muito diferentes. Uma petrolífera, que recebe em dólares e pode manter os lucros lá fora, não precisa de entrar na fila. Um supermercado, um hotel ou uma fábrica de bebidas, que recebem em kwanzas, precisam.
Para quem ganha em kwanzas, há duas esperas
A primeira é a espera pelo dólar. O lucro em kwanzas tem de ser trocado num banco que, como vimos, só consegue satisfazer parte dos pedidos. Há relatos de transferências internacionais atrasadas três a quatro meses [7]. Não há dados públicos sobre quanto tempo esperam, em concreto, os dividendos.
Um bom termómetro são as companhias aéreas estrangeiras, que vendem bilhetes em kwanzas e precisam de converter as receitas. Em março de 2026, a associação internacional das companhias aéreas (IATA) contava 73 milhões de dólares de receitas bloqueadas em Angola [8]. Para estas empresas, o dinheiro existe, mas não pode sair.
A segunda é a espera pelo câmbio certo. O lucro é feito em kwanzas, mas o que conta para o acionista é quanto vale em dólares quando chega.
O risco escondido: o câmbio pode mudar antes de o lucro sair
Hoje, o kwanza está praticamente fixo em 912 por dólar, enquanto no mercado paralelo o dólar vale entre 20% e 24% mais [1]. O FMI recomenda que a taxa oficial se aproxime da taxa de mercado [4].
Para o investidor, isto tem uma consequência simples. Um lucro de mil milhões de kwanzas vale hoje cerca de 1,10 milhões de dólares à taxa oficial. Se a taxa oficial se aproximar do paralelo antes de o lucro ser transferido, o mesmo lucro passa a valer entre 0,88 e 0,91 milhões de dólares. São menos 17% a 19%, sem que o negócio tenha mudado em nada.
O câmbio parado tem, por isso, um efeito enganador. Faz os lucros em kwanzas parecerem maiores em dólares do que provavelmente vão ser no momento em que saírem do país.
Um terceiro obstáculo: os bancos lá fora
Há ainda a questão de como o dinheiro sai. Em 2024, Angola entrou na "lista cinzenta" do GAFI, o organismo internacional que avalia o combate ao branqueamento de capitais, e em 2025 na lista de países de risco elevado da União Europeia [4]. Isto torna os bancos estrangeiros mais cautelosos e as transferências mais lentas e caras. O FMI nota que, até agora, não houve perda de relações com bancos correspondentes, e que dois bancos angolanos restabeleceram ligações com grandes bancos nos Estados Unidos e na Europa [4].
Mesmo assim, o investimento fora do petróleo está a voltar
Apesar de tudo isto, o investimento estrangeiro fora do petróleo cresceu. Foi de cerca de 354 milhões de dólares em 2024 e de 959 milhões em 2025, mais 171% e o valor mais alto desde 2008 [9]. No primeiro trimestre de 2026, entraram 304 milhões, o melhor início de ano desde que o banco central publica estes dados [10]. Há sinais de mais investimento, sobretudo chinês, em mineração, comércio e imobiliário [10].
Não é um volume grande: o investimento fora do petróleo representou cerca de 10% de todo o investimento estrangeiro em 2025 [9]. Mas a tendência é clara. E vimos no primeiro episódio desta série que este investimento é uma das razões pelas quais os bancos estão a comprar mais dólares ao balcão.
O FMI, por seu lado, é claro: as dificuldades no acesso a divisas continuam a travar o investimento estrangeiro, e liberalizar o mercado cambial é essencial para o atrair [4].
O que isto significa: sim, mas com espera e desconto
A resposta à pergunta do título é: sim, um investidor estrangeiro pode tirar os lucros de Angola. A lei garante-o, as isenções ajudam, e os lucros saem. Mas quem ganha em kwanzas paga dois custos que não aparecem na lei: o tempo de espera pelo dólar e o risco de o câmbio mudar antes de o dinheiro sair.
Para quem está a avaliar um investimento em Angola fora do petróleo, isto traduz-se em três regras práticas:
- Contar com meses entre o lucro e a transferência. O plano financeiro deve prever que os dividendos chegam ao acionista com atraso.
- Avaliar os lucros a uma taxa próxima do paralelo, não a 912. Uma diferença de 17% a 19% no valor em dólares pode mudar a rentabilidade de um projeto.
- Dar preferência a negócios com receitas em dólares, ou com uma parte das vendas a exportação. Como vimos no episódio anterior, um exportador pode manter os próprios dólares e evitar a fila.
O paradoxo é que um ajustamento do câmbio, que reduz o valor em dólares dos lucros acumulados, pode ser exatamente o que torna Angola mais atrativa para novos investidores, porque encurta a fila e reduz a incerteza.
O indicador a acompanhar: o investimento estrangeiro fora do petróleo, publicado trimestralmente pelo banco central. Se continuar a crescer apesar da fila, os investidores estão a contar com uma melhoria. Se recuar, é sinal de que o custo de esperar pelo dólar pesa mais do que as oportunidades. Um segundo termómetro, mais rápido: os fundos das companhias aéreas bloqueados em Angola, publicados pela IATA duas vezes por ano.
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Investimento em Angola
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Aceder ao guia gratuitoFontes
- Banco de Fomento Angola — Relatório de Conjuntura, 3.º trimestre de 2026.
- Lei n.º 10/18, de 26 de junho — Lei do Investimento Privado (artigo 19.º).
- PwC Angola — Alteração da Lei do Investimento Privado (Lei n.º 10/21, de 22 de abril).
- Fundo Monetário Internacional — Angola: 2026 Article IV Consultation, Country Report n.º 26/94 (maio 2026).
- Lei n.º 2/12, de 13 de janeiro — Regime Cambial Aplicável ao Sector Petrolífero.
- Expansão — Investimentos angolanos lá fora repatriam 148,7 milhões USD em lucros, valor mais alto de sempre.
- Expansão — Défice de 1,2 mil milhões USD na banca no acesso a divisas (janeiro 2026).
- CAPA / IATA — African countries account for USD774m in blocked airline funds as of March 2026.
- Expansão — IDE não petrolífero disparou 171% para 959,4 milhões USD, o mais alto desde 2008.
- Expansão — IDE não petrolífero regista o melhor arranque de ano desde que há registos.
Última verificação: 3 de outubro de 2026. Onde as fontes divergem, a divergência é apresentada no texto e não resolvida artificialmente. O exemplo do lucro de mil milhões de kwanzas é ilustrativo e usa as taxas publicadas pelo BFA. O valor do investimento petrolífero em 2025 difere entre fontes (8,85 ou 10,03 mil milhões de dólares, consoante se conte o investimento líquido ou bruto); a conclusão deste artigo não depende desse número.

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