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O gás que não chega e o carvão que fica

Angola está a retirar os subsídios aos combustíveis. O gás de cozinha continua protegido, mas nos bairros periféricos as famílias cozinham com carvão. O problema não é só o preço. É a botija que não chega, e quem paga é a floresta.

ANÁLISE ANGOLAEXPERT


O problema de fundo

Em muitas cidades angolanas há duas cozinhas diferentes. Nos bairros do centro, cozinha-se com gás butano, a botija azul que se troca no revendedor. Nos bairros da periferia, cozinha-se sobretudo com carvão, comprado em sacos ou em pequenas porções à beira da estrada. Segundo um consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, cerca de oito em cada dez famílias angolanas usam carvão para cozinhar [1].

Isto não é uma questão de gosto. Para usar gás, uma família precisa de comprar uma botija, pagar de uma só vez a carga inteira e ter um revendedor por perto onde trocar a botija vazia. Para usar carvão, basta ter dinheiro para o dia e um vendedor na rua. Quem não consegue reunir as três condições do gás fica pelo carvão, mesmo que o gás seja, na teoria, mais barato.


O gás é protegido, mas não chega a todos

Desde Junho de 2023, o Governo tem vindo a retirar os subsídios aos combustíveis, de forma gradual. A gasolina quase duplicou de preço de um dia para o outro [2], e o gasóleo subiu várias vezes desde então. Mas o gás de cozinha ficou de fora. A ministra das Finanças garantiu que o Governo não mexeria no subsídio ao gás de cozinha nem ao petróleo iluminante, porque são produtos que quer manter protegidos [3].

Na teoria, isto ajuda as famílias. O Estado paga a maior parte do custo da botija, e o preço oficial está fixado há anos. Mas o subsídio está no produto, não no caminho que ele percorre. A botija é cheia num número pequeno de centros de enchimento, sobretudo em Luanda, e daí tem de viajar até cada província e cada bairro. Depois tem de voltar vazia.

Quando esse caminho falha, o preço oficial deixa de valer. Em momentos de falta de gás, revendedores chegaram a pedir pela botija quatro vezes o preço oficial [4]. Há relatos recentes do mesmo fenómeno em províncias novas, onde ainda não há depósito nem estrada em boas condições. E a própria Sonangol reconhece que se perdem muitas botijas todos os anos, ao ponto de precisar de construir uma fábrica para produzir novas [5].

Por outras palavras: o gás é barato no papel, mas caro ou inexistente na periferia. O carvão não tem este problema. É produzido perto das cidades, transportado em camionetas pequenas ou a pé, e vendido em porções tão pequenas quanto o dinheiro que a família tiver nesse dia.


O que a retirada dos subsídios muda

A subida do gasóleo não mudou directamente a forma como se cozinha. Quem tem acesso fácil à botija continua a usá-la, porque o preço oficial do gás não subiu. Mas o gasóleo mais caro torna mais caro o transporte de tudo, incluindo das botijas. E o gás sofre mais do que o carvão, porque a botija faz uma viagem longa a partir de um centro de enchimento distante e ainda tem de voltar vazia. O carvão faz uma viagem curta e não volta.

O risco maior está no que pode vir a seguir. A ministra das Finanças admitiu em Setembro de 2026 que a despesa com subsídios aos combustíveis está a subir, por causa do preço do petróleo, e que os subsídios ainda não foram totalmente retirados [6]. O gás de cozinha é um dos produtos ainda protegidos, e por isso será tentador mexer-lhe a seguir. Há até um argumento para isso: as famílias que usam botija tendem a não ser as mais pobres, que cozinham com carvão.

A ministra também disse uma coisa importante: uma retirada total dos subsídios não seria responsável enquanto os apoios sociais em dinheiro não chegarem às cidades. Hoje, esses apoios chegam sobretudo às zonas rurais [6].


O custo que não aparece nas contas: a floresta

O carvão vem das árvores. Em Angola, grande parte vem do miombo, a floresta seca que cobre boa parte do centro e do leste do país. O Ministério do Ambiente reconheceu que o abate de árvores serve sobretudo para produzir carvão, para venda e para uso próprio, por falta de electricidade e de gás [7]. O problema é mais grave no planalto central, no centro-sul e em partes do norte.

Isto cria uma ligação directa entre a cozinha da cidade e a floresta à sua volta. Se o gás ficar mais caro, algumas famílias que hoje usam botija vão passar para o carvão. Se o gás continuar barato, mas a botija não chegar, acontece exactamente o mesmo. A diferença é que, no segundo caso, ninguém vê o problema nas contas do Estado. Cada família que passa uma semana a cozinhar com carvão porque a botija acabou contribui um pouco para a destruição da floresta perto da cidade.


Quem ganha e quem perde

Uma mudança para o gás teria perdedores. Milhares de famílias rurais vivem da produção de carvão e não têm, para já, outra fonte de rendimento. Nos bairros, os vendedores de carvão perderiam clientes. E os revendedores que aproveitam a falta de botijas para cobrar mais perderiam esse negócio se o gás passasse a chegar com regularidade.

Do outro lado estão as famílias dos bairros periféricos, que ganhariam uma forma de cozinhar mais limpa, com menos fumo dentro de casa e, a prazo, mais barata. E estaria a floresta, que hoje não tem quem a defenda à mesa da decisão.


Três caminhos possíveis

Levar a botija aos bairros. Criar depósitos pequenos nos bairros e nas províncias, com agentes licenciados e botijas suficientes em circulação. É a solução que ataca a causa principal, porque o problema não é o preço oficial, é a botija que não chega. Exige investimento e tempo, e corre o risco de as botijas continuarem a desaparecer no mercado paralelo.

Ajudar as famílias a dar o primeiro passo. Apoiar a compra da primeira botija e do fogão, ou permitir pagar em prestações pequenas, por exemplo através do telemóvel. É mais rápido e mais barato, mas não resolve nada se a botija não estiver disponível no bairro quando acaba.

Controlar o carvão. Fiscalizar o abate de árvores e taxar o carvão. Protege a floresta no papel, mas castiga as famílias que hoje não têm alternativa. E é difícil de aplicar num território tão grande, onde o controlo é fraco.

Esta análise defende o primeiro caminho, apoiado pelo segundo. Proibir ou taxar o carvão antes de o gás chegar aos bairros só tornaria mais difícil a vida das famílias mais pobres, sem lhes dar outra opção.

O que isto significa

A discussão sobre os subsídios aos combustíveis costuma centrar-se no preço. Mas, para a maioria das famílias da periferia, a questão do gás não é o preço da botija. É se a botija chega. Enquanto o gás for barato apenas no papel, o carvão continuará a ser a escolha natural. E enquanto for o carvão a cozinhar as refeições da cidade, a floresta à volta dela continuará a encolher.

Se o Governo decidir um dia mexer no subsídio ao gás, a pergunta certa não é só quanto vai custar a botija. É se, até lá, a botija já chega a todos os bairros, e se as famílias que perderem o apoio vão receber outro em troca. Caso contrário, a factura não desaparece. Muda apenas de lugar: sai do Orçamento do Estado e vai para a floresta.

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Fontes

  1. VerAngola, "Carvão vegetal é utilizado por 80 por cento das famílias em alternativa ao gás", Outubro de 2019.
  2. VerAngola, "Vera Daves rejeita pressões externas para redução de subvenção aos combustíveis", Junho de 2023.
  3. VerAngola, "Vera Daves diz que combustíveis vão aumentar com mais retirada de subvenções", Abril de 2024.
  4. VerAngola, "Aumento da produção garante abastecimento de gás a todo o país, assegura Sonangol", Abril de 2020.
  5. ANGOP via AllAfrica, "La Sonangol projette la première usine de production de bouteilles de gaz dans la province du Zaire", Dezembro de 2025.
  6. VerAngola, "Vera Daves: despesa pública com subsídios aos combustíveis vai subir", Setembro de 2026.
  7. VerAngola, "Abate indiscriminado de árvores agrava problema da desflorestação no país", Agosto de 2015.

Última verificação: 5 de Outubro de 2026. O texto reflecte a informação disponível nesta data.

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