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Estrada da Samba em Luanda

Estrada da Samba: a artéria sul que conta a Luanda inteira numa só viagem


Por Angola Unfiltered

Há estradas que são apenas caminhos. E há estradas que, percorridas com atenção, contam a cidade inteira. A Estrada da Samba pertence a este segundo grupo. Em pouco mais de meia hora — descontando, claro, o trânsito que torna esses trinta minutos numa estimativa quase utópica — atravessas todas as Luandas que cabem dentro de Luanda. A colonial, a popular, a piscatória, a moderna, a turística. Toda a cidade passa por aqui.

Onde fica e para onde leva

A Estrada da Samba — oficialmente parte do corredor da EN-100 — é uma das principais artérias costeiras de Luanda. Começa perto do porto e da Baixa, e estende-se para sul em direção ao Corimba, a Benfica e ao Futungo de Belas, servindo como porta de entrada do coração histórico da cidade para toda a zona sul. É, em termos práticos, o eixo que liga o centro às novas centralidades do sul, às praias e à própria saída para Mussulo.

Pelo caminho, dá acesso a quase tudo o que importa: à zona da Mutamba (centro nevrálgico de transportes), à Ilha de Luanda e à Marginal, ao Porto de Luanda, à zona da Samba propriamente dita, ao bairro de Benfica através de um desvio, e até serve de ponto de partida para quem quer subir em direção a Cacuaco. É uma daquelas estradas que, se a conheceres bem, te permite chegar a quase qualquer parte da cidade.

A Samba enquanto bairro

O nome da estrada vem da zona que atravessa: a Samba. Antes da reorganização administrativa recente, a Samba era um dos municípios urbanos de Luanda; hoje voltou a ser um distrito urbano, integrado no município de Luanda. É uma zona costeira, histórica, com fortes raízes na pesca artesanal e ligada à comunidade quimbundu original do litoral. O próprio nome carrega essa memória — Samba é uma palavra antiga, ligada à dança, à comunidade, ao rio.

Hoje a Samba é uma daquelas zonas que misturam camadas urbanas como poucas: bairros piscatórios antigos, condomínios fechados de luxo, embaixadas, restaurantes virados para o mar, musseques de chapa nas encostas, e uma das marginais mais bonitas (e mais negligenciadas) da capital. Quem desce a estrada vê tudo isto desfilar à esquerda e à direita.

O Mabunda: peixe acabado de descarregar

Falar da Estrada da Samba sem falar do Mercado do Avô Mabunda seria injusto. Localizado na Samba, mesmo junto à estrada, o Mabunda é considerado o maior polo de venda de peixe de Luanda. O nome vem de uma figura histórica da pesca local, e o mercado mantém uma ligação direta com os pescadores — o peixe é, em muitos casos, descarregado dos próprios barcos e vendido ali, no espaço de poucas horas.

Para quem quer comprar peixe fresco a um preço razoável em Luanda, é ao Mabunda que se vai. Cavalas, carapaus, garoupas, polvo, lulas, camarão, peixe-galo, pargo — depende da maré, depende do dia. Os preços flutuam consoante o que entrou nas redes, e a hora ideal para comprar é cedo, entre as seis e as nove da manhã, quando a oferta é abundante e o peixe ainda está com brilho. Não é um mercado polido nem turístico. É funcional, ruidoso, com cheiro a maresia e a sal. É exatamente isso que o torna autêntico.

O trânsito que mata a paciência

A Estrada da Samba é, ao mesmo tempo, uma das vias mais importantes e uma das mais castigadas pelo trânsito crónico. Os engarrafamentos matinais são lendários. A meio da manhã, a estrada pode estar parada durante horas. Os automobilistas que tentam chegar à Baixa para trabalhar saem de casa cada vez mais cedo, e ainda assim apanham filas longas.

É nessas filas que acontece o pequeno teatro luandense que já conhecemos de outras vias: mototáxis a serpentear por entre os carros parados, vendedores ambulantes a desfilarem com tabuleiros de água, gasosa, amendoim, panos, carregadores de telemóvel. A economia informal aproveita o trânsito como se fosse um shopping a céu aberto — e, em certo sentido, é mesmo.

A causa é a mesma de sempre, a mesma que já discutimos a propósito da Via Expressa e da Estrada de Catete: a forte centralização de empregos e serviços na Baixa de Luanda. Centenas de milhares de pessoas saem das zonas periféricas do sul (Benfica, Talatona, Futungo, Patriota) e tentam entrar no centro à mesma hora. A Estrada da Samba é o funil. E o funil entope.

A boa notícia é que a estrada está em processo de reabilitação. Em 2024 foram anunciadas obras com um orçamento na ordem dos 11,9 milhões de dólares para modernizar troços inteiros da via. Algumas faixas e vias de serviço têm sido encerradas periodicamente para os trabalhos. A má notícia é que, durante o tempo das obras, o trânsito tende a piorar antes de melhorar.

O que se vê pelo caminho

Conduzir pela Estrada da Samba é, em si mesmo, uma aula de geografia social. À direita, o oceano Atlântico, com os barcos de pesca artesanal recortados contra o azul. À esquerda, os musseques que sobem pelas encostas, contrastando com os condomínios de vidro e os arranha-céus mais a norte. Mais para sul, a paisagem suaviza, ganha tons mais verdes, e a Luanda densa dá lugar à Luanda de fim de semana — com restaurantes à beira-mar, esplanadas e os primeiros sinais de Talatona ao fundo.

Para o visitante atento, é o melhor curso intensivo possível sobre a cidade. Numa só viagem vê-se o porto, o centro colonial, os bairros piscatórios, os musseques, os condomínios fechados, as embaixadas, os mercados informais, as marginais ainda por desenvolver. Toda a cidade num só corredor.

A porta para o sul turístico

Para o viajante que quer sair do centro de Luanda e explorar a costa sul, a Estrada da Samba é praticamente obrigatória. É por aqui que se chega:

Ao Museu Nacional da Escravatura, mais a sul, junto à costa, uma das paragens mais importantes — e mais comoventes — para entender a história angolana e a sua ligação ao tráfico transatlântico.

Ao Mercado de Artesanato de Benfica, o melhor lugar para comprar esculturas em pau-preto, máscaras tradicionais, tecidos, pinturas e peças de arte popular. Para quem quer levar uma recordação verdadeiramente angolana, é aqui — e não em qualquer loja de souvenir do hotel.

Ao embarcadouro para a Ilha do Mussulo, a península de areia branca e águas calmas que é o destino balnear preferido dos luandenses ao fim de semana.

Conselhos práticos

Evita as horas de ponta. Entre as 7h30 e as 10h, e entre as 16h e as 19h, a estrada está em modo de estacionamento. Para passeios turísticos, parte por volta das 10h e planeia o regresso ao centro antes do meio da tarde.

Não conduzas sozinho se não conheces. A Estrada da Samba é relativamente segura durante o dia, mas o ritmo de condução é agressivo, os candongueiros param sem aviso e a sinalização nem sempre ajuda. Yango ou Bolt com motoristas bem avaliados são a opção mais sensata para quem está de visita.

Vai cedo se queres ver o Mabunda. O peixe fresco aparece de manhã. Ao meio-dia já só sobram restos.

Combina o passeio. Numa única ida ao sul, dá para parar no Mabunda para fotografar (com licença), seguir até Benfica para o mercado de artesanato, almoçar à beira-mar e terminar o dia no Mussulo. É um dia inteiro, mas é um dos melhores dias possíveis de Luanda.

À noite, redobra os cuidados. Como em qualquer grande artéria luandense, a Estrada da Samba à noite exige atenção. Evita conduzir sozinho, mantém os vidros fechados nas paragens, e não exibas telemóveis nas filas de trânsito.

A estrada que resume a cidade

Há quem visite Luanda e fique pela Marginal e pela Fortaleza. Há quem só conheça os shoppings e os hotéis. E há quem perceba que a verdadeira Luanda — a do peixe a chegar dos barcos, dos musseques nas encostas, das embaixadas atrás dos muros, dos vendedores ambulantes nas filas de trânsito, das praias do sul a chamar — é toda visível ao longo de um único traçado de asfalto.

A Estrada da Samba não está em nenhum cartaz turístico. Mas é, talvez, uma das melhores formas de entender em poucos quilómetros o que torna Luanda tão complicada, tão exaustiva e, ao mesmo tempo, tão impossível de esquecer.