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Viana a zona industrial de Luanda

Viana: o motor industrial que está a mudar o centro de gravidade de Luanda


Por Angola Unfiltered

Há municípios que se vivem e há municípios que se atravessam. Viana, durante anos, foi um município de travessia — passava-se por ali a caminho do interior, do Catete, de Malanje, de uma fábrica. Era o sítio onde Luanda deixava de ser cidade colonial e começava a ser estrada empoeirada, camiões, contentores, gente a fazer hora extra. Hoje, Viana já não é só travessia. É o coração industrial de Angola, a maior bacia humana da província, a porta da nova aviação civil do país. E está, em silêncio, a puxar o centro de gravidade de Luanda para leste.

Onde fica e o que é

Viana é um dos municípios da província de Luanda, situado a leste e sudeste do centro da capital, entre 15 e 30 quilómetros do downtown. Foi oficialmente fundado a 13 de dezembro de 1963, ainda no tempo colonial, como povoação ao longo da histórica Estrada de Catete — o caminho de terra que ligava Luanda ao interior. Depois da independência, com a guerra civil a empurrar populações inteiras do interior para a capital e a indústria a procurar terrenos amplos fora da Baixa, Viana cresceu de forma vertiginosa.

Hoje, com mais de dois milhões de habitantes (2022), é, com larga diferença, o município mais populoso da província. Para se ter ideia: Viana sozinho tem mais gente do que muitas capitais africanas inteiras. Inclui ainda uma comunidade refugiada significativa — cerca de seis mil pessoas, sobretudo da província do Katanga (RDC), que se instalaram nas guerras dos anos 1990 e ficaram.

O Polo Industrial de Viana

O traço definidor do município é o Polo de Desenvolvimento Industrial de Viana (PDIV), no quilómetro 25 da Estrada de Catete — a maior concentração industrial de Angola. Ocupa uma área total de 2.350 hectares e alberga centenas de empresas, desde bebidas e cervejas, fábricas de contadores de água, siderurgia (FABRIMETAL), fábricas de fios e pregos (FATRA), gelo e padaria (FAUCHIL), materiais de construção, câmaras frigoríficas para produtos agrícolas, plásticos e embalagens (ZEEPACK), antenas de telecomunicações, artefactos de cimento (ZERCA) e metalurgia.

E continua a crescer. Em 2022, o PDIV anunciou a entrada em operação de 17 novas fábricas que iriam criar mais de mil empregos, com destaque para uma fábrica de fertilizantes — a primeira do polo — com capacidade para 250 mil toneladas. Em 2025, o Secretário de Estado para a Indústria, Carlos Rodrigues, inaugurou a fábrica de vestuário do grupo BEFRAN, com um investimento de 2,5 milhões de dólares, capacidade para produzir entre 300 mil e 900 mil peças por mês e 120 novos postos de trabalho.

Refriango, Bom Jesus e a comida do país

A jóia da coroa industrial de Viana é a Refriango — o gigante das bebidas que produz a Blue, a Caprice, a Tángara, a água Welwitschia e uma longa lista de refrigerantes e destilados. Não fica no PDIV em sentido estrito, mas a poucos quilómetros, na zona do Kikuxi, perto do desvio do Zango. Esta área é também palco de engarrafamentos constantes, devido ao enorme fluxo de trabalhadores e camiões que entram e saem do Zango e de Cacuaco.

A Refriango tem expandido também para o setor alimentar. Em setembro de 2023, o grupo inaugurou uma nova fábrica de lacticínios no seu complexo de Viana, num projeto que, segundo o diretor pretende reduzir a importação de leite, contribuir para a autossuficiência alimentar do país e dinamizar a agropecuária. O projeto integra a estratégia de internacionalização da espanhola Pascual, com operações também em Marrocos e na Guatemala. A inauguração contou com a presença do Ministro do Comércio e Indústria e do Ministro da Educação — sinal claro de quão estratégica é considerada a operação.

Na mesma região está também a fábrica responsável pela água Bom Jesus, uma das marcas mais conhecidas do mercado angolano. Bom Jesus, a localidade que deu o nome à água, fica logo ali, do lado de lá da fronteira provincial, em Icolo e Bengo. E é precisamente nessa fronteira que se está a desenhar a maior mudança de tudo.

O novo aeroporto: o jogo virou

Aqui, importa uma clarificação. O novo Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto (AIAAN) é frequentemente descrito como estando "perto de Viana" — e, do ponto de vista de qualquer luandense, está. Tecnicamente, porém, fica no município de Bom Jesus, na província vizinha de Icolo e Bengo, a 40 quilómetros a sudeste da Baixa de Luanda. É o maior aeroporto alguma vez construído por uma empresa chinesa fora da China e foi pensado para receber 15 milhões de passageiros por ano e 130 mil toneladas de carga.

Aberto em 10 de novembro de 2023, tem duas pistas paralelas (uma delas com 4.000 metros) e capacidade para mais de cinco mil passageiros em hora de ponta. A migração de voos do velho 4 de Fevereiro foi-se fazendo por etapas — o Decreto Executivo n.º 2/25 fixou em 1 de junho a transferência completa das operações internacionais —, e no início deste ano 99,9% das ligações já tinham sido consolidadas no AIAAN: Royal Air Maroc, Turkish Airlines, Asky Airlines e a TAAG, que descreveu a mudança como "marco histórico no ecossistema da aviação civil angolana".

E em Viana sente-se. A nova estrada que liga o Zango 5 ao AIAAN passa rente às zonas industriais. Em abril de 2025, o Ministro dos Transportes, Ricardo Abreu, confirmou que os acessos ao aeroporto — incluindo a futura via circular Luanda–Icolo e Bengo e a ligação ferroviária — estariam concluídos até ao final do ano. O Presidente João Lourenço chegou a fazer a viagem completa de comboio entre a estação do Bungo, no centro de Luanda, e o AIAAN: 45 quilómetros que mudam tudo.

O comércio que veio atrás

Onde há indústria, fluxo, trabalhadores e ligação ao mundo, vem o comércio. Viana é também um polo comercial gigantesco e independente. A Cidade da China, o enorme complexo comercial chinês com 16 naves e mais de 400 lojas, está exatamente aqui — a abastecer o país de azulejos, mobília, eletrodomésticos, ferragens e fardo. E o Mercado do 30, o maior mercado informal de Luanda, herdeiro do extinto Roque Santeiro, descarrega aqui todos os dias as toneladas de produtos agrícolas vindos do interior, alimentando dezenas de mercados retalhistas mais pequenos espalhados pela capital.

A descentralização que aconteceu sem aviso

Junta-se tudo isto: mais de dois milhões de habitantes em Viana, mais centenas de milhares nas centralidades adjacentes (Zango, Vida Pacífica), o maior polo industrial do país, a Refriango, a Cidade da China, o Mercado do 30, e o novo aeroporto na fronteira. Resultado: o eixo de gravidade de Luanda, que durante décadas esteve na Baixa e na Marginal, está claramente a deslocar-se para leste.

Esta é, no fundo, a descentralização real de Luanda — não a decretada por nenhuma política, mas a que aconteceu por acumulação. O aeroporto, as fábricas, os mercados grossistas, as centralidades de habitação, tudo num só corredor a leste. E é precisamente Viana o tecido conjuntivo que liga a velha cidade colonial ao novo hub logístico e de aviação na fronteira com Icolo e Bengo.

Os preços de crescer assim

Nem tudo é triunfal. Viana paga o custo do crescimento desordenado. O trânsito é dos piores de Luanda — a Via Expressa e a Estrada de Catete vivem em engarrafamento crónico, com camiões pesados, carros particulares e mototáxis a disputarem cada metro. As infraestruturas básicas falham em vários pontos: cortes de energia, ruturas de água, sinal de internet instável em algumas zonas, gestão de resíduos sólidos a meio gás. As condições do polo industrial em si nem sempre acompanham o ritmo da sua expansão.

Por que vale a pena conhecer Viana

Para o visitante curioso, Viana não é uma paragem com monumentos para fotografar. É outra coisa: é o sítio onde se vê, em estado bruto, como Angola está a tentar deixar de ser um país que importa quase tudo. É onde se percebe que a próxima década da economia angolana se decide menos em conferências e mais em armazéns, contentores, pistas de aterragem e camiões a sair às quatro da manhã. Conduzir pela Estrada de Catete, ver as fábricas, parar na Cidade da China, almoçar perto do Mercado do 30 e olhar para os aviões a aterrar no AIAAN ao fundo é fazer um curso intensivo, em meio dia, sobre o presente e o futuro de Luanda.

A Baixa ainda manda. Mas, em silêncio, Viana já não pede licença.