Mercado dos Kwanzas em Luanda
O Museu Vivo Onde a Sabedoria Ancestral se Recusa a Morrer
Angola Unfiltered — onde se conta o país tal como ele é, longe das fotografias higienizadas dos folhetos turísticos.
Há lugares em Luanda que aparecem nos guias oficiais — a Marginal, a Fortaleza, o Mausoléu, a Ilha. E há outros, bem mais difíceis de digerir para o turismo institucional, que contam a verdadeira história de Angola. O Mercado dos Kwanzas pertence a este segundo grupo. Não é apenas um espaço de comércio: é um arquivo vivo, um santuário cultural a céu aberto onde a memória do país se mantém em equilíbrio precário entre a tradição e o abandono.
Visitar os Kwanzas é assumir um compromisso. Não se vai ali à pressa, nem se sai indiferente. É preciso paciência para se ouvir as vendedoras, estômago para enfrentar os cheiros intensos e, sobretudo, vontade genuína de compreender o que sustenta o quotidiano de milhões de angolanos para lá das luzes do centro da capital.
Onde Fica e Porque Importa
Para quem chega de fora, vale a pena situar a coisa. O Mercado dos Kwanzas fica no Bairro Hoji Ya Henda, município do Cazenga — uma das zonas mais densamente povoadas e populares de Luanda. Não é um mercado de centro turístico, nem está nos roteiros das agências de viagem. É um mercado de trabalho, um mercado de bairro, um daqueles polos comerciais que se tornam, por inércia da história, em verdadeiros arraiais: pontos de encontro, troca, conversa e sobrevivência.
A sua importância vai muito além da venda. O mercado funciona também como plataforma de transporte de longo curso, com candongueiros, carrinhas e camiões que ligam Luanda a províncias como Bengo, Zaire, Kwanza Norte e Uíge. É por isso que tantos produtos do interior chegam aos Kwanzas antes de chegarem a qualquer outro lado: porque o mercado é, ao mesmo tempo, destino e ponto de partida. Quem vem da província traz galinhas, peixe seco, raízes e fuba. Quem regressa leva sal, sabão, óleo, mercadorias da capital.
Esta dupla função — comercial e logística — explica também a resiliência do mercado. Em 2016, as autoridades anunciaram a sua possível deslocalização ou encerramento, alegando as péssimas condições sanitárias. A notícia gerou uma onda de revolta entre os vendedores, que viram no anúncio uma ameaça direta ao sustento das suas famílias. O encerramento acabou por não acontecer, e desde então o mercado tem passado por obras de requalificação parciais, que melhoraram alguns aspetos sem nunca resolver os problemas estruturais. Em paralelo, ganhou alguma projeção institucional através de eventos como a Feira da Fruta, que junta dezenas de produtores e tenta promover a economia comunitária e os produtos nacionais.
É um mercado que sobrevive, portanto, num equilíbrio difícil: demasiado importante para fechar, demasiado popular para receber investimento público a sério.
Uma Radiografia do que o Angolano Realmente Come
A primeira lição que o mercado dá é gastronómica. Esqueçam os restaurantes da Ilha com pratos a 25 mil kwanzas. Aqui descobre-se o que efetivamente alimenta o país.
As bancadas exibem catato — os pequenos bichos comestíveis que dividem opiniões entre os turistas e que, para muitos angolanos, são uma iguaria sem substituto. Há macaiabo, bagre fumado com aquele cheiro penetrante que se agarra à roupa durante dias, sacos enormes de feijão de várias variedades, e a lenha que abastece os famosos "cabriteiros" — os vendedores ambulantes de carne de cabrito assada que fazem da rua o seu restaurante.
É um mercado onde se compreende imediatamente uma verdade que muitos relatórios de desenvolvimento ignoram: a alimentação tradicional angolana não desapareceu. Resistiu. E continua a alimentar a maioria da população, longe dos supermercados de Talatona.
As Médicas Tradicionais e o Tesouro do Bazongo
Mas o verdadeiro coração do Mercado dos Kwanzas, aquilo que o distingue de todos os outros mercados de Luanda, está na sua secção de medicina natural. É aqui que afluem as raízes, as cascas e as plantas vindas do interior, sobretudo do Norte de Angola — com destaque absoluto para a região do Bazongo.
As vendedoras desta zona não são meras comerciantes. Funcionam como autênticas médicas tradicionais, com um conhecimento que se transmitiu durante gerações, frequentemente por via oral. Sentam-se atrás das suas bancadas com a serenidade de quem sabe exatamente o que está a vender e para que serve.
O catálogo é vasto e impressiona. Para infeções de pele e sarnas, vende-se enxofre em pó. Para a febre tifoide e o açúcar no sangue, recomenda-se a raiz de Gange (também conhecida como Gans) e a Gabáia. A raiz de coqueiro misturada com pau de Milo combate a febre amarela, a chamada briosa. Há remédios para conjuntivite à base de planta Umundo, fervida e usada como colírio natural.
A medicina tradicional angolana tem também uma forte dimensão de saúde reprodutiva e íntima. Para as mulheres, vende-se o Muzo para tratar miomas, o Amargo para cólicas, e ervas como Chandalá e Salpe para higiene íntima e recuperação pós-parto. Para os homens, a famosa combinação de Pau de Cabinda com Lando — comercializada com a promessa de devolver "a tração 4x4", como se diz entre risos cúmplices na praça. O Londolondo ajuda a controlar a hipertensão masculina.
E há a categoria mais surpreendente: os antídotos. O Bubanguelo e a Godiça provocam vómitos para expulsar venenos. A Pedra Brilhante mastiga-se antes de festas como proteção contra bebidas envenenadas — algo que, num país onde a desconfiança social tem raízes profundas, faz mais sentido do que possa parecer a um observador estrangeiro. E a Pedra de Cobra aplica-se diretamente sobre picadas, com a função de "sugar" o veneno.
É preciso, no entanto, sermos honestos como o nome deste blog promete. Nem tudo no mercado da medicina tradicional resiste ao escrutínio. Nas ruas do bairro Palanca, alguns vendedores fazem alegações perigosas e não comprovadas, incluindo a venda de pós e raízes apresentados como cura para o VIH/SIDA "em poucos dias". Estas são afirmações que matam, literalmente, e que envergonham a verdadeira sabedoria ancestral. O Bazongo merece melhor do que isto.
As Mãos que Sustentam o Mercado
Por trás de cada banca há uma história, e quase sempre uma mulher. Peixeiras que acordam às quatro da manhã, alfaiates com trinta anos de profissão e máquinas Singer que sobreviveram a guerras, jovens a oferecer manicure e pedicure sentados em bancos de plástico. Todos partilham o mesmo chão, a mesma luta.
Os relatos são impressionantes. Há vendedoras que estão na praça há dez, vinte, trinta e um anos. Mulheres que criaram filhos, pagaram escolas e, em muitos casos, construíram casas com os lucros mínimos do comércio diário — frequentemente entre mil e quatro mil kwanzas por dia. Muitas são viúvas. Muitas são mães solteiras. Quase todas são chefes de família.
A frase mais ouvida quando se pergunta como aguentam o ritmo é uma só, repetida quase como mantra: "as panelas em casa não podem entrar de férias". Não há nada que resuma melhor a economia informal angolana.
A Lama e a Crise
Mas há que dizê-lo sem rodeios: o Mercado dos Kwanzas não está minimamente preparado para o que recebe todos os dias. Quando chega o cacimbo, ou quando caem os aguaceiros da estação das chuvas, os corredores transformam-se em lamaçais perigosos. As vendedoras enfiam botas de borracha sobre as saias e continuam, porque parar não é opção.
A redução da clientela, fruto da crise económica, tem afetado especialmente as peixeiras, que enfrentam custos altíssimos de frete para trazer peixe seco do Namibe, sobretudo do Tômbwa. O cálculo já não fecha como antes. Margens que sempre foram apertadas tornaram-se, em muitos casos, negativas. Estas mulheres que trabalham nos Kwanzas fogem da criminalidade, fogem da prostituição, escolheram o suor da praça.
Não é um Mercado para Turistas
Convém deixar uma coisa clara: o Mercado dos Kwanzas não é um mercado de artesanato para turistas. Não tem máscaras polidas para vender ao estrangeiro, nem batiks expostos com preços em dólar. Quem procura essa experiência mais higienizada tem o Mercado do Benfica, na zona sul de Luanda, com peças de qualidade variável e regateio quase obrigatório.
Os Kwanzas pertencem a outra categoria. São primos do Mercado de São Paulo e dos famosos arraiais informais do Roque Santeiro (este último encerrado oficialmente, mas cuja memória continua viva). São mercados onde o angolano vai porque precisa, não porque quer ter uma "experiência". E essa diferença é, justamente, o que torna a visita tão valiosa para quem queira entender o país a sério.
Canais como o Vlogs do Primata, que já tenho referido neste blog, captam bem essa autenticidade: bancas apinhadas, marisco fresco a chegar do litoral, regateio em todas as línguas nacionais, e a vida do dia-a-dia a desenrolar-se sem filtro nem encenação. É, no fundo, a Luanda real — a que respira longe da Marginal.
Uma palavra prática para quem queira ir: levem pouca coisa de valor consigo. Vão de manhã. Levem sacos próprios. E, sobretudo, falem com as pessoas. É essa a verdadeira moeda dos Kwanzas.
Um Museu Que Precisa de Ser Visitado
O Mercado dos Kwanzas é, no fim de contas, um museu vivo e a céu aberto. Um espaço onde a Angola que existe antes do petróleo, antes dos arranha-céus de Luanda Sul, antes das marcas importadas, continua a respirar.
É o sítio onde se vai para perceber que este país tem séculos de farmacopeia tradicional, conhecimento sobre plantas que a indústria farmacêutica internacional anda hoje a estudar com avidez. É o lugar onde se descobre que a verdadeira identidade angolana não está nos discursos oficiais — está nas mãos calejadas de uma peixeira do Tômbwa, na voz rouca da senhora que vende Pau de Cabinda, no sorriso da costureira que ainda faz uma calça por cinco mil kwanzas.
Visitem o Mercado dos Kwanzas. Comprem alguma coisa. Conversem. Ouçam. E percebam, de uma vez por todas, que Angola não cabe nos folhetos. Angola cheira a peixe fumado, sabe a Gabáia e tem o som das vozes que se recusam a desaparecer.