O Mercado Do Asa Branca em Luanda
Mercado do Asa Branca: o coração do Cazenga onde se compra de tudo (e se registam até os filhos)
Por Angola Unfiltered
Há mercados em Luanda que se visitam pela comida, outros pela roupa, outros pelos materiais. O Asa Branca é tudo isso ao mesmo tempo — e mais alguma coisa que nenhum outro mercado da cidade oferece: serviços públicos. Aqui, no mesmo espaço onde se compra peixe seco, jeans em fardo e cadernos escolares, também se regista um filho recém-nascido, se autentica um documento ou se faz queixa na polícia. É essa mistura impossível de funções que torna o Asa Branca um dos mercados mais interessantes — e mais subestimados — de Luanda.
Onde fica (e onde não fica)
Há uma confusão recorrente sobre a localização do Asa Branca, que vale a pena esclarecer. O mercado fica no município de Cazenga, e não em Sambizanga, como por vezes se ouve dizer. Os dois municípios são vizinhos e a confusão é compreensível — Sambizanga está mesmo ao lado, a noroeste —, mas o Asa Branca é firmemente um mercado do Cazenga.
Mais concretamente, está localizado no Distrito Urbano de Tala Hady, no bairro Asa Branca, na 5.ª Avenida (Quinta Avenida) — uma das principais artérias que atravessam os históricos "bairros operários" do Cazenga, traçados em avenidas numeradas. Fica a cerca de quatro quilómetros a leste do estádio do Campo de São Paulo e a uns quatro quilómetros a sudeste de Sambizanga, a pé de distância do recém-criado município de Hoji-ya-Henda (separado do Cazenga em 2024).
O Cazenga como pano de fundo
Para entender o Asa Branca, é preciso entender o Cazenga. Cazenga é o município mais densamente povoado dos nove que compõem a província de Luanda, com cerca de 892.401 habitantes. Foi historicamente um dos grandes núcleos de musseque operário da capital — denso, construído informalmente, com uma identidade fortíssima e uma vida comercial vibrante que sempre girou em torno dos seus mercados. O Cazenga tem hoje 14 mercados, sendo os mais proeminentes o Asa Branca, o Mercado dos Kwanzas, o Mercado das Peças e, mais a norte, o Kikolo. No panteão comercial do município, o Asa Branca está claramente na primeira divisão.
A rainha da roupa usada
A grande fama do Asa Branca está em três letras: fardo. É aqui que muitos angolanos sabem que vão encontrar o melhor mercado de roupa em segunda mão da capital — ou, como alguns lhe chamam, a "Rainha da roupa usada". Os fardos chegam dos contentores internacionais (sobretudo dos Estados Unidos, da Europa e do Reino Unido), são abertos no chão e vendidos peça a peça ou ao quilo, a preços que tornam impensável comprar a mesma camisa numa loja formal.
Mas o Asa Branca está longe de ser só roupa usada. Numa única tarde, encontras lá produtos frescos — peixe (a costa não fica longe), carne, hortícolas, óleo de palma, quitutes da terra —, roupa nova, calçado, acessórios de moda, material escolar e didático em quantidade (uma das categorias mais procuradas), eletrónica desde o básico até equipamentos da última geração, bebidas alcoólicas e não-alcoólicas em volume, plásticos, ferragens, utensílios domésticos. Como resume bem um cliente habitual numa avaliação online: "neste mercado adquires tudo num só lugar — desde alimentação, vestuário, todo o tipo de bebidas, os quitutes da terra".
O detalhe que muda tudo: os serviços públicos
Aqui está a particularidade que torna o Asa Branca diferente de qualquer outro mercado em Luanda. Dentro do mesmo complexo onde se vende peixe e roupa, funcionam vários serviços públicos. Como descreve um morador: "dentro do Mercado do Asa Branca encontras a 6.ª Conservatória do Registo Civil do Cazenga". Outro acrescenta: "tens acesso a vários serviços, como o Cartório Notarial, e ao lado uma esquadra da polícia bem equipada com diversos serviços".
Por outras palavras, o Asa Branca não é só um mercado — é também onde um residente do Cazenga pode ir registar um filho, autenticar uma escritura, tirar uma cópia certificada ou fazer queixa de um furto. Isso dá ao mercado um fluxo diário de pessoas muito superior ao que a sua dimensão comercial sugeriria, porque há quem passe por lá por motivos cívicos e acabe a comprar o jantar.
Dois mercados no mesmo mercado
Os moradores descrevem-no consistentemente como um mercado de duas metades: uma praça com duas zonas — uma parte edificada e mais organizada, com bancas formais, a conservatória e os negócios mais permanentes; e uma zona adjacente a céu aberto, mais caótica e informal, onde operam o comércio ambulante, as zungueiras e os pequenos vendedores do dia-a-dia. Essa convivência entre o organizado e o improvisado é, no fundo, uma metáfora do próprio Cazenga.
A economia paralela (e quem com ela ganha)
Há uma camada do Asa Branca que poucos veem mas que vale a pena conhecer. Uma investigação detalhada sobre os mercados do Cazenga apontou que estes funcionam, além de centros comerciais, como verdadeiros polos financeiros informais. Cada um dos 14 mercados do município, do mais pequeno ao maior, gera receitas mensais que vão das dezenas às centenas de milhões de kwanzas.
A mesma investigação revelou que um operador da economia informal — Tany Narciso — montou uma máquina paralela de cobrança no Asa Branca, com ramificações em diversos serviços. O exemplo paradigmático é o aluguer de cadeiras de plástico no Mercado do Asa Branca, que recentemente passou a ser domínio exclusivo da sua empresa. Pode parecer um detalhe menor — quem é que pensa nas cadeiras? —, mas é precisamente nestes pormenores que se revela a economia das sombras dos grandes mercados luandenses.
Da gestão pública à privada (e os protestos que vieram a seguir)
O Asa Branca passou em 2017/2018 a ter gestão privada, o que gerou fortes protestos dos vendedores. A taxa cobrada por banca subiu drasticamente — em alguns casos, de mil para dez mil kwanzas. Para muitas pequenas comerciantes e zungueiras, essa multiplicação por dez foi insustentável, e várias chegaram a abandonar o espaço. É uma história que se repetiu noutros mercados angolanos: a privatização da gestão como solução de modernização, mas com efeitos colaterais brutais para os vendedores mais frágeis.
O incêndio que ninguém esquece
Como muitos mercados informais luandenses, o Asa Branca conhece bem o risco do fogo. As bancas em madeira e lona, as ligações elétricas improvisadas e a densidade extrema das instalações criam um cenário propício a incêndios. Em 18 de novembro de 2023, um grande incêndio destruiu mais de 30 a 50 lojas, sobretudo nas secções de roupa e calçado. Não foi o primeiro: já em 2018, o Novo Jornal noticiava outro fogo na madrugada, com danos significativos. Os comerciantes acabam por reerguer as bancas e voltar ao trabalho — não porque os problemas estruturais estejam resolvidos, mas porque é a única coisa que sabem fazer.
A memória do Asa Branca
Curiosamente, há uma camada nostálgica nas avaliações dos moradores. Um deles escreve, simplesmente: "Asa Branca, aqui já fomos felizes uma vez. Lembro-me de quando a minha mãe nos mandava ao mercado comprar o jantar. Grandes tempos." Outro reconhece, com mais franqueza ainda, que se trata de um mercado que "já foi um dos mais podres de Luanda" — uma forma direta de admitir que o Asa Branca melhorou ao longo do tempo, embora continue a ser um mercado informal com todos os problemas típicos: saneamento, organização, ausência de TPAs (terminais Multicaixa), insegurança nas ruas adjacentes.
O Asa Branca é, neste sentido, um mercado com história familiar. Uma geração inteira de cazenguenses cresceu a fazer recados ao Asa Branca — comprar o peixe, o azeite, a fubá, o caderno da escola, o uniforme. Cada banca tem clientes habituais de várias décadas.
Onde se encaixa no mapa comercial de Luanda
Para fechar o esquema que temos vindo a construir aqui no Angola Unfiltered: o Asa Branca não é um mercado grossista como o do 30 ou o Catinton — é um mercado retalhista de bairro. Os comerciantes e zungueiras que ali vendem não recebem normalmente a mercadoria direta dos camponeses. Vão ao Mercado do 30, em Viana, ou ao Catinton, na Maianga, comprar a grosso, e depois revendem a retalho no Asa Branca. Por isso, em vários produtos alimentares, os preços do Asa Branca são mais altos do que os do 30 ou do Catinton — porque há uma margem de revenda pelo meio.
Onde o Asa Branca é imbatível é precisamente nas categorias em que se especializou: roupa em segunda mão, material escolar, eletrónica básica, e a conveniência de ter ali, no mesmo espaço, a conservatória, o cartório e a polícia.
Como visitar
Vai de manhã — mais fresco, mais oferta, mais fácil de circular. Estaciona perto, se conseguires (o estacionamento é apertado, segundo os próprios moradores), ou vai de táxi/mototáxi. Leva dinheiro vivo: os TPAs são escassos, e há comerciantes que têm de sair da banca à procura de um terminal Multicaixa para te aceitar o cartão. Se vais à procura de roupa em segunda mão, este é dos melhores pontos do Cazenga. E vai acompanhado por alguém que conheça o terreno — o mercado é grande, labiríntico, e a partir do meio-dia o calor torna tudo mais cansativo.
O Asa Branca não é um mercado feito para turistas. É um mercado feito para o Cazenga. E é precisamente por isso que vale a pena conhecê-lo: para perceber como funciona, na prática, a vida quotidiana dos centenas de milhares de luandenses que habitam o município mais denso do país.