Estrada de Catete em Luanda
Estrada de Catete: a estrada por onde Luanda foge para o interior

Por Angola Unfiltered
Se a Estrada da Samba é a janela de Luanda para o Atlântico, a Estrada de Catete é a porta de saída para o resto de Angola. É por aqui que se vai a Malanje. É por aqui que chegam os camiões com a mandioca, o tomate e o jindungo que enchem os mercados da capital. É por aqui que se chega ao novo aeroporto. E é por aqui que, há mais de cem anos, Luanda se liga ao interior do país. Nenhuma outra estrada da cidade carrega tanta carga económica, histórica e simbólica numa só linha.
O que é, oficialmente
A Estrada de Catete — também conhecida como EN-230 (Estrada Nacional 230) e, no troço inicial, como Avenida Deolinda Rodrigues — começa em pleno coração urbano de Luanda, na zona do Largo do 1.º de Maio, e segue para leste-sudeste até à vila histórica de Catete, na província de Ícolo e Bengo, a cerca de 55 a 60 quilómetros do centro da capital. Daí vem o nome: a estrada que vai para Catete.
O nome também tem peso político. Catete é a terra natal de António Agostinho Neto, primeiro presidente de Angola, figura central do movimento independentista. Para qualquer angolano, ouvir "Estrada de Catete" não é apenas referir-se a uma via — é referir-se ao caminho que liga a capital ao berço da nação moderna.
Uma estrada com história
Historicamente, a Estrada de Catete foi o caminho original — de terra batida — que ligava a cidade colonial de Luanda ao interior do país. Era por aqui que entrava e saía praticamente tudo: pessoas, mercadorias, soldados, missionários, comerciantes. O município de Viana, hoje o mais populoso da província, foi oficialmente fundado em dezembro de 1963 precisamente como povoação ao longo desta estrada histórica.
Existe um hábito muito luandense ligado a esta via: o de identificar locais pela distância em quilómetros a partir do início da estrada. É por isso que muitos pontos de referência no eixo Catete são conhecidos apenas pelo seu marco quilométrico — o "30", o "44", o "25". É uma forma de cartografia popular que sobreviveu à urbanização e que continua a fazer parte do vocabulário diário.
O coração industrial e comercial de Angola
Hoje, a Estrada de Catete é a coluna vertebral da atividade industrial e informal do país. Concentra-se aqui uma quantidade de infraestrutura económica que poucos eixos rodoviários em África conseguem rivalizar.
Polo de Desenvolvimento Industrial de Viana (PDIV). Localizado no quilómetro 25 da estrada, é a maior concentração industrial de Angola. Alberga centenas de fábricas, desde produtoras de bebidas (com a Refriango como ícone) a siderurgias, fábricas de plásticos, de embalagens, de cimento, de tintas, de fertilizantes, de têxteis.
Mercado do 30. Como o nome indica, fica no quilómetro 30. É hoje o maior mercado informal de Luanda, o entreposto grossista por onde passa boa parte da comida que abastece a cidade. Cresceu fortemente ao longo desta estrada para absorver o fluxo de vendedores depois do encerramento do lendário Roque Santeiro.
As "lojas dos chineses" e a Cidade da China. Durante anos, pequenos retalhistas chineses estiveram espalhados ao longo da Estrada de Catete, em armazéns improvisados. Mais tarde, esse comércio foi-se consolidando no enorme complexo da Cidade da China, em Viana — também acessível por esta via.
O novo Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto. A nova porta de Angola para o mundo, situada em Bom Jesus (Icolo e Bengo), é também acessível por este corredor — em conjunto com a nova autoestrada de ligação e o ramal ferroviário a partir do Bungo.
Ao longo do percurso, vê-se ainda armazéns de logística, fábricas, estações de serviço, oficinas, restaurantes de churrasco, vendedores ambulantes nas bermas. É uma estrada que nunca dorme — a economia angolana, na sua versão mais palpável, está toda exposta entre o quilómetro zero e Catete.
O trânsito de sempre
Como acontece com quase todas as grandes artérias de Luanda, a Estrada de Catete é refém do seu próprio sucesso. Quem viaja por aqui tem de estar preparado para engarrafamentos severos e persistentes, sobretudo na zona do desvio do Zango, onde camiões pesados, viaturas particulares e mototáxis disputam cada metro de asfalto.
A causa é a mesma de sempre: a forte centralização de empregos e serviços na Baixa de Luanda obriga centenas de milhares de pessoas a entrar na cidade pelas mesmas vias, à mesma hora. A Estrada de Catete absorve uma parte enorme desse fluxo — somando ainda os camiões pesados que vão e vêm das fábricas, dos armazéns e do interior do país. As estradas alternativas existem (a Via Expressa, sobretudo), mas raramente chegam para tudo.
Nos últimos anos, a estrada tem sido objeto de obras de reabilitação significativas. Foram alargadas faixas (até aos 12 metros em vários troços), instalada iluminação nova, construídas pontes e melhorada a sinalização. Tem ajudado a reduzir acidentes, mas o tráfego pesado continua a exigir cuidado redobrado.
Para o visitante: muito mais do que uma estrada de trânsito
Para o viajante curioso, a Estrada de Catete não é uma via turística no sentido clássico — não tem monumentos a cada esquina nem mirantes pitorescos. Mas é uma das melhores formas de ver, num só percurso, a realidade económica de Angola.
A vila histórica de Catete. Seguindo a estrada até ao fim, chega-se à terra natal de Agostinho Neto. Visitar Catete é entrar em contacto com o berço do movimento de independência — há monumentos, a casa-museu e uma atmosfera diferente da agitação da capital.
O Mercado do 30. Para quem queira ver a fundo a engrenagem da economia informal angolana, é paragem obrigatória. Vai de manhã, com guia local, sem objetos de valor à mostra.
O caminho para o interior. A Estrada de Catete é o início da viagem por terra para Malanje — onde estão as imponentes Quedas de Kalandula, uma das maiores cataratas de África, e as Pedras Negras de Pungo Andongo, paisagens espetaculares que justificam qualquer viagem mais longa.
A Ponte do 25 ("Ponte Amarela"). Alguns viajantes param para fotografar esta ponte, sobretudo ao fim da tarde, com a luz a apanhar a estrutura amarela.
Conselhos práticos
Evita as horas de ponta. Para conseguires viajar sem ficar parado horas, sai antes das 6h30 ou depois das 10h. À tarde, planeia o regresso ao centro antes das 16h ou depois das 19h30.
Aposta em viatura própria ou alugada. Para deslocações ao Mercado do 30, à Cidade da China ou ao novo aeroporto, depender de candongueiros torna a experiência longa e desconfortável. Yango ou Bolt funcionam bem para trajetos mais curtos; para idas mais longas (Catete, Muxima, Malanje), o ideal é alugar carro com motorista ou juntar-se a um tour organizado.
Combustível e paragens. Há várias estações de serviço e pequenos restaurantes ao longo da estrada, sobretudo até Viana. Para lá disso, as paragens são mais raras.
Atenção à condução alheia. Ultrapassagens arriscadas, mototáxis a entrarem subitamente no trânsito e peões a atravessarem em locais inesperados são frequentes. Conduz com atenção redobrada.
Evita conduzir à noite. Como em qualquer eixo metropolitano luandense, à noite a segurança baixa. Mantém os vidros fechados sobretudo nas zonas mais movimentadas à saída da cidade.
Considera o comboio. Há uma alternativa pouco explorada: o Caminho de Ferro de Luanda (CFL), que tem serviços regulares de comboio a partir dos Musseques em direção a Catete. Para o visitante aventureiro, é uma forma diferente e mais relaxada de percorrer parte deste eixo.
A estrada que liga Angola a si mesma
A Estrada de Catete não é apenas uma autoestrada. É o cordão umbilical que liga a Luanda do litoral à Angola do interior. É por aqui que entra a comida, sai a indústria, passam os comboios, chegam os aviões. É por aqui que se chega ao berço do primeiro presidente do país. É por aqui que se vai para Kalandula, para Pungo Andongo, para a sua casa de origem se vieres do interior.
Para o visitante atento, percorrer a Estrada de Catete é fazer um curso intensivo, numa única tarde, sobre como Angola funciona — e sobre o quanto ainda lhe falta para funcionar bem. É ruidosa, é poeirenta, é exaustiva. E é, talvez por isso mesmo, uma das estradas mais luandenses que existem.