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A Via Expressa em Luanda

Via Expressa: a estrada que costura a Luanda do século XXI


Por Angola Unfiltered

Se houvesse uma única estrada para contar a Luanda contemporânea, seria esta. A Via Expressa atravessa praticamente tudo aquilo que este blog tem vindo a explorar nos últimos meses — as centralidades, o polo industrial de Viana, a Cidade da China, o Mercado do 30, a ligação ao novo aeroporto, as zonas de expansão imobiliária. É uma estrada que poucos visitantes conhecem pelo nome, mas que toda a gente acaba por usar. E é, em silêncio, a espinha dorsal da capital angolana.

Mapa de Luanda com rotas destacadas em vermelho, pontos de referência e indicação Via Expressa.
Via Expressa em Luanda

O que é, oficialmente

O nome completo é Via Expressa Fidel Castro — e também aparece nos documentos como Estrada Complementar n.º 100-1 (EC-100-1) ou Via Expressa Cabolombo-Viana-Cacuaco. Tem 54,4 quilómetros de extensão e forma um arco rodoviário a leste da cidade de Luanda, construído ao longo da segunda metade do século XX. O Governo Provincial usa, por vezes, a cifra de 67 quilómetros, contando as ramificações e os ramais; a via principal, em si, tem cerca de 54 km.

Tem três faixas em cada sentido, num total de seis, e atravessa os municípios de Belas, Viana e Cacuaco — uma província com cerca de sete milhões de habitantes. Não é uma estrada do centro. Pelo contrário: foi pensada como bypass, como anel que contorna o núcleo colonial denso de Luanda. As suas pontas estão em Cacuaco a norte e em Talatona/Belas a sul, e em certos troços serve mesmo para definir limites entre municípios. Se a considerarmos como prolongamento da EN-100, é a coisa mais próxima de uma circular metropolitana que Luanda tem.

De onde vem o nome

Até 2016, a estrada era simplesmente "a Via Expressa", e ainda hoje muita gente lhe chama assim. A 25 de novembro de 2016 morreu Fidel Castro, e poucos dias depois o Governo angolano renomeou a via em sua honra: Avenida Comandante Fidel Castro, em "homenagem e reconhecimento" do papel do líder cubano na independência angolana. 

Para onde leva

A Via Expressa conecta diversos pontos cruciais e periféricos da cidade: Cacuaco, Zango, Calumbo, Kilamba, Benfica, Ramiros. Os moradores de zonas em expansão como a Zona Verde (Benfica) beneficiam de múltiplas saídas e acessos diretos, e é por isso que valorizar um terreno "à primeira linha da Via Expressa" se tornou um chavão dos anúncios imobiliários da capital.

Faz, na prática, o arco que liga toda a Luanda nova. Começa em Cacuaco a norte, passa nas proximidades do Sequele, atravessa o coração industrial de Viana (com o Kikuxi, a Refriango e o Polo Industrial colados a ela), corre rente às centralidades do Zango e do Vida Pacífica, passa à porta da Cidade da China e desemboca em Talatona/Belas, ao lado do Kilamba. Junte-se a isto o novo corredor para o Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto, que liga o Zango 5 ao AIAAN e desagua na Via Expressa, e percebe-se a centralidade absoluta desta estrada na geografia económica da capital.

A nova fronteira provincial

No final de 2025, a Via Expressa subiu de estatuto. Ao abrigo da nova divisão político-administrativa do país — que separou Icolo e Bengo de Luanda —, esta avenida foi escolhida como fronteira natural entre as duas províncias. O coordenador da comissão técnica, Dionísio da Fonseca, explicou que usar limites intermunicipais para delimitar províncias não seria adequado — basta lembrar que algumas dessas linhas têm apenas cinco metros de largura, como a rua que parte o Mercado do Kikolo entre Cazenga e Cacuaco. Optou-se, então, pela Estrada Nacional 100 e pela Via Expressa Fidel Castro.

Resultado: na margem direita, a antiga Vila Sede de Viana e parte do Kikuxi (incluindo a estação de tratamento de água e a sede do distrito), o Distrito Urbano da Estalagem, a zona dos Mulenvos em Cacuaco, o Distrito Urbano do Kikolo e a Vila Sede de Cacuaco continuam em Luanda. A Via Expressa passou, assim, de "principal autoestrada" a "limite oficial da província da capital". Uma promoção rara para uma infraestrutura que nasceu apenas para desafogar o trânsito.

O caos diário

Apesar de toda a importância estratégica, a característica mais marcante da Via Expressa é o trânsito. A via está praticamente sempre lotada — "de segunda a segunda", como dizem os luandenses. Os engarrafamentos acontecem mesmo em feriados e fins de semana, quando os funcionários públicos e muitas empresas estão paradas, e nem sempre se consegue explicar de onde vêm tantos carros.

A causa profunda é a mesma que afeta todas as grandes vias da cidade: a forte centralização de empregos e serviços na Baixa de Luanda. Todos os dias, uma massa enorme de trabalhadores sai das zonas periféricas (Zango, Cacuaco, Viana, Vida Pacífica) à mesma hora, em direção ao centro, criando um estrangulamento permanente. Especialistas e cidadãos repetem há anos a mesma receita: a descentralização real de serviços para Talatona, Benfica, Zango e Cacuaco seria a única forma de aliviar a Via Expressa.

Entretanto, os automobilistas adaptam-se. Muitos dos que viajam entre Viana (zona da Vila Chinesa) e o Kilamba procuram rotas alternativas, incluindo estradas de terra batida nas imediações do Kikuxi, na tentativa de fugir aos longos minutos parados nas filas.

Outro perigo: a noite

A segurança na Via Expressa também tem sido motivo de preocupação. O troço Cacuaco–Viana tem sido várias vezes apontado como zona de risco noturno, com casos reportados de assaltos a motoristas e, sobretudo, de falsos táxis. Um relato de 2018 descrevia uma jovem abordada por volta das 21h por homens armados num Toyota Starlet branco que se fazia passar por táxi. Os luandenses sabem isto e adaptam-se: evitam conduzir sozinhos à noite, não pegam táxis sem marcação na via e tentam apanhar a Via Expressa antes de cair o sol.

Como se chama

Numa conversa qualquer em Luanda, podes ouvir cinco nomes para a mesma estrada: "Via Expressa", "Avenida Fidel Castro", "Fidel de Castro" (um deslize comum), "a Cabolombo-Viana-Cacuaco" (mais formal) ou simplesmente "a Expressa". É tudo a mesma coisa. Para o GPS, o nome oficial funciona; para a conversa do dia a dia, basta "Via Expressa" — toda a gente percebe.

Como usá-la

Algumas dicas práticas. A Via Expressa é, em regra, a forma mais rápida de atravessar a grande Luanda. Sem ela, ir de Cacuaco a Talatona pode demorar duas horas pelo centro. Evita as horas de ponta — 7h30 às 10h e 16h às 19h —, porque o que devia ser uma viagem de 30 minutos pode estender-se até às duas horas. Atenção aos retornos: a via tem três faixas em cada sentido e 18 retornos em vez de nós completos, o que significa que, se passares a saída, vais ter de seguir em frente e voltar mais à frente. Usa Yango, Bolt, Google Maps ou Waze — qualquer destas apps reconhece a via. E conduz com atenção: ultrapassagens e indisciplina ao volante são frequentes, e à noite o cuidado tem de redobrar.

O retrato em movimento

Para o visitante, talvez o melhor de tudo seja percorrer a Via Expressa de carro num fim de tarde — não na hora de ponta, atenção, mas suficientemente próximo dela. Vai-se passando por condomínios de luxo, zonas industriais, musseques de chapa, prédios coloridos das centralidades, contentores empilhados, fábricas, restaurantes de churrasco à beira da estrada, vendedores ambulantes nos retornos, camiões que vêm de Malanje. É, num único olhar, o resumo visual da Luanda do século XXI: a planeada, a improvisada, a industrial, a colonial, a chinesa, a popular.

A Via Expressa não é só uma autoestrada. É uma linha que costura o presente da capital. E, cada vez mais, é também uma fronteira — entre municípios, entre províncias e, talvez, entre dois tempos da cidade.