
.
Café do Cuanza Norte: porque é que o regresso está a ser tão lento
Há cinquenta anos, Angola estava entre os maiores exportadores de café do mundo, e o Cuanza Norte era um dos seus centros históricos. Hoje a produção está a crescer, mas a partir de uma base muito pequena. Os preços altos ajudam, mas não substituem árvores novas, mão-de-obra e qualidade.
Em resumo
Em 1973, Angola colheu cerca de 240 mil toneladas de café e estava entre os maiores exportadores do mundo; o Cuanza Norte era um dos centros dessa produção. Hoje o país produz cerca de 10 500 toneladas, menos de 5% desse volume. A recuperação é lenta porque as árvores são velhas e as novas demoram anos a produzir, falta dinheiro e mão-de-obra para a colheita, e a maior parte do café exportado é de qualidade intermédia. Os preços mais altos desde 2024 estão a trazer produtores de volta, mas o regresso a grandes volumes é um projecto de uma década.
ANÁLISE ANGOLAEXPERT

O problema de fundo
O café foi um dos pilares da economia angolana antes da independência. Na última grande colheita, em 1973, o país produziu cerca de 240 mil toneladas, numa área de cerca de 500 mil hectares [1][2]. As estimativas variam entre fontes, mas todas colocam Angola entre os quatro maiores exportadores mundiais [3]. Quase todo o café era robusta, a espécie mais resistente e de sabor mais forte, usada sobretudo em misturas e café solúvel. Na região de Ndalatando, no Cuanza Norte, cultiva-se ainda um tipo local conhecido como café Cazengo [4].
Esse sistema assentava em cerca de 2500 grandes fazendas comerciais, ao lado de cerca de 250 mil pequenos produtores [5], e em condições de trabalho que hoje não seriam aceitáveis nem reproduzíveis [2]. Com a independência e a guerra, as fazendas foram abandonadas, e o conhecimento técnico, as fábricas de descasque e as estradas de acesso perderam-se no espaço de uma geração.
Hoje, a área de café ronda os 55 mil hectares [6]. Na campanha mais recente, a produção chegou a 10 500 toneladas, mais 38% do que no ano anterior, e as exportações atingiram 3288 toneladas, no valor de cerca de 12 milhões de dólares, sobretudo para Portugal, a Polónia e a Itália [7]. As fontes oficiais atribuem estes números a anos diferentes (2024 ou 2025) [6][7]. Em qualquer caso, a produção actual equivale a menos de 5% da de 1973. O Cuanza Norte continua entre as três maiores províncias produtoras, ao lado do Uíge e do Cuanza Sul [8].
Em termos simples
O café não é como o milho, que se semeia e colhe no mesmo ano. É uma árvore. Uma planta nova só começa a dar uma colheita razoável ao fim de três ou quatro anos, e uma árvore velha produz cada vez menos. Recuperar uma plantação é, por isso, como reconstruir uma poupança: exige anos de investimento antes de dar retorno.
Além disso, o café tem de ser colhido à mão, seco com cuidado e descascado com bom equipamento. Se a colheita for feita antes do tempo, ou se a secagem for mal feita, o grão perde qualidade e vale menos no mercado internacional, mesmo quando os preços estão altos.
O problema central
A produção de café no Cuanza Norte está a crescer, mas devagar e a partir de uma base muito pequena, porque as árvores, a mão-de-obra, o financiamento e a capacidade de transformação que sustentavam o sector deixaram de existir e estão a ser reconstruídos aos poucos.
Há quatro causas principais.
Primeira causa: árvores velhas e pouco produtivas
Grande parte das plantações activas no Cuanza Norte são antigas. Em 1973, Angola colhia cerca de 400 quilos de café por hectare [9]. Dividindo a produção actual pela área plantada, obtêm-se hoje cerca de 190 quilos por hectare [6][7].
A solução é replantar, mas isso leva tempo. O Instituto Nacional do Café (INCA) calcula que seriam precisas 40 milhões de mudas por ano para renovar 20 mil hectares anuais [10]. A capacidade está a aumentar: um novo centro de produção de mudas no Quilombo, no Cazengo, tem capacidade para três milhões de plantas por ano [11], e o Cuanza Norte deveria receber um milhão de mudas em 2025 [8]. Ainda assim, mesmo com mudas suficientes, as plantas novas precisam de adubo, poda e limpeza para produzir. A própria direcção do INCA reconhece que distribuir mudas não basta [12].
Porque importa: mesmo que tudo corra bem, o aumento significativo da produção depende de plantações que ainda vão demorar anos a amadurecer.
Segunda causa: falta de mão-de-obra e de dinheiro para a colheita
Hoje, cerca de 80% do café angolano vem de explorações familiares [12]. Em muitas delas, a colheita depende de trabalhadores sazonais que é preciso pagar, e as famílias nem sempre têm dinheiro para isso antes de venderem o café. Muitos jovens trocaram as zonas rurais por Luanda, e o INCA defende incentivos para os atrair de volta à agricultura [10].
Na prática, são muitas vezes os próprios compradores que fazem o papel de banco, financiando a produção em troca da colheita [12]. A empresa Angonabeiro, por exemplo, adiantou cerca de 1,5 milhões de dólares aos produtores numa campanha [13]. O Estado também criou mecanismos de crédito: uma garantia soberana cobre 75% do risco de uma linha de crédito do Banco de Fomento Angola para as campanhas de café [14].
Porque importa: quando o dinheiro para a colheita chega tarde ou depende de um único comprador, parte do café fica por colher e o produtor tem pouca margem para negociar o preço.
Terceira causa: qualidade e transformação limitadas
O café angolano sai do país quase sempre em grão verde, isto é, seco e descascado mas não torrado. E sai sobretudo em qualidades intermédias: segundo o INCA, 76% das exportações são classificadas como "segunda qualidade" [7]. O director do instituto aponta práticas como a colheita do café ainda verde como uma das razões [6].
A torrefacção local, que acrescenta valor ao produto, ainda é pequena. A Café Cazengo, uma das marcas mais conhecidas da recuperação, trabalha com mais de 500 pequenos produtores e tem capacidade para torrar cerca de 60 toneladas por ano [15]. É um projecto de marca e qualidade, não de grande volume.
Porque importa: com grão de qualidade intermédia, o país recebe menos por cada quilo exportado. Melhorar a secagem, o descasque e a classificação pode aumentar o rendimento mais depressa do que plantar novas áreas.
Quarta causa: um modelo de produção que mudou
O sector de 1973 baseava-se em grandes fazendas com fábricas próprias. O de hoje assenta em pequenas explorações dispersas, muitas com poucos hectares. Este modelo pode funcionar, mas exige organização: cooperativas, pontos de recolha, estações de secagem e descasque partilhadas, e estradas que permitam escoar o café da serra [12].
Há também investimento empresarial a regressar. Em 2021, por exemplo, uma fazenda no município do Lucala anunciou a plantação de 300 hectares de café [16]. Ainda assim, os projectos deste tipo continuam a ser excepções.
Porque importa: o crescimento do sector depende menos de grandes fazendas e mais de ligar milhares de pequenos produtores ao mercado de forma organizada.
O que está a mudar
Os preços são o factor que mais mudou. No Cuanza Norte, o preço pago ao produtor duplicou em 2024, de 500 para 1000 kwanzas por quilo, e isso levou vários agricultores a recuperar plantações abandonadas [17]. As exportações também passaram a valer mais por quilo: cerca de 2,3 dólares em 2024 e cerca de 3,6 dólares no ano seguinte, calculando a partir dos valores e volumes oficiais [7][18].
Há também mais apoio institucional. O projecto Mukafé, financiado pela União Europeia através da Agência Francesa de Desenvolvimento, apoia desde 2023 a cadeia de valor do café robusta no Cuanza Norte, no Cuanza Sul e no Uíge, com foco na qualidade e nos pequenos produtores [19][20]. Os objectivos oficiais para 2026-2027 apontam para 14 mil toneladas de produção e 5 mil toneladas de exportações [7].
O que isto significa
O café do Cuanza Norte não vai regressar aos volumes dos anos 1970 a curto prazo. As metas oficiais mostram isso mesmo. O que está a acontecer é uma recuperação gradual, apoiada em preços mais altos, crédito, mudas e programas de qualidade.
Para quem investe, isto sugere duas leituras. A curto prazo, o maior potencial está na qualidade e na marca, em lotes pequenos e rastreáveis (com origem conhecida), como o café Cazengo, que podem ser vendidos com prémio. A médio e longo prazo, um aumento significativo de volume exige replantação em grande escala, organização dos pequenos produtores, estações de processamento e estradas, um horizonte de uma década, e não de uma campanha.
Há quatro sinais a acompanhar: a percentagem das exportações classificada como primeira qualidade; o número de mudas efectivamente plantadas face às necessidades estimadas pelo INCA; a produtividade por hectare; e a manutenção dos preços internacionais, de que depende o interesse renovado dos produtores.
Fontes
- Expansão, "Produção de café em Angola vale só 3% da última grande safra dos anos 70", Dezembro de 2024.
- Expansão, "Angola aprova Acordo Internacional do Café e quer aumentar a produção", Março de 2025.
- Ver Angola, "UE financia projecto de desenvolvimento da cultura do café com 8,8 milhões", Julho de 2023 (dados do INCA sobre 1973-1974).
- INCA, apresentação na UNCTAD, Novembro de 2019.
- AFP via The Namibian, "Angola works to revive coffee plantations", 2009.
- Ver Angola, "País não desiste da exportação de café", Março de 2026.
- Ver Angola, "Angola arrecadou 12 milhões de dólares com exportação de café em 2025", Fevereiro de 2026.
- Angop, "Angola expects to harvest over 8,000 tons of coffee this year", 28 de Fevereiro de 2025.
- Essential Business, "Angola's hidden gold – Coffee", Agosto de 2020.
- Agroportal / Lusa, financiamento da UE ao café em Angola, Julho de 2023.
- O País, centro de produção de mudas de café no Quilombo (Cazengo).
- Expansão, entrevista com o director do INCA, Dezembro de 2024 (ver fonte 1).
- Forbes África Lusófona, apoio da Angonabeiro aos produtores de café, 2026.
- Expansão, "Aprovada garantia soberana para campanha do café", 2024.
- Sprudge, "Café Cazengo and the Resurgence of Coffee in Angola".
- Ver Angola, "Agricultores portugueses preparam cultivo de café em Angola", Setembro de 2021.
- Angop, "Rise in coffee prices stimulates production in Cuanza-Norte", 1 de Novembro de 2024.
- RTP África, produção agrícola da campanha 2023-2024 e exportações de café, 2024.
- Agência Francesa de Desenvolvimento, projecto de melhoria da cadeia de valor do café angolano.
- Forbes África Lusófona, financiamento da UE e da AFD ao projecto Mukafé, 2026.
Última verificação: 5 de Outubro de 2026. Onde as fontes divergem, isso é indicado no texto em vez de resolvido artificialmente. A análise reflecte a informação disponível nessa data.

.