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Zaire: o PIB per capita mais alto de Angola e o desafio do emprego no petróleo e gás

A província do Soyo gera quase 18% de toda a riqueza produzida em Angola, com apenas 1,9% da população. A pergunta útil não é quanto o Zaire produz, mas quantos empregos e quanta actividade local essa produção sustenta, e em que fase dos projectos.

Em resumo

O Zaire tem o PIB per capita mais alto de Angola: cerca de 31 000 dólares em 2024, nove vezes o de Luanda. A razão é o petróleo e o gás do Soyo, que valem quase 18% do PIB nacional numa província com apenas 1,9% da população. Mas esse dinheiro não fica lá: os lucros vão para os accionistas das petrolíferas e os impostos para o Tesouro, em Luanda. No dia-a-dia, o Zaire está só um pouco acima da média do país em electricidade e água, e no interior rural seis em cada dez casas não têm casa de banho. As fábricas de gás criam milhares de empregos durante a construção, mas poucos permanentes.

ANÁLISE ANGOLAEXPERT


O problema de fundo

Em Março de 2026, o Instituto Nacional de Estatística (INE) publicou pela primeira vez o PIB de cada província. O PIB (Produto Interno Bruto) é o valor de tudo o que uma economia produz num ano. Dividido pelo número de habitantes, dá o PIB per capita, um número muito usado para comparar o nível de riqueza entre países ou regiões.

Com base nesses dados, o Expansão calculou para o Zaire um PIB per capita de 31 014 dólares em 2024, o mais elevado de Angola [3]. Em valor total, a província produziu 21,2 mil milhões de dólares, só atrás de Luanda (37,1 mil milhões), num total nacional de cerca de 119,6 mil milhões [3]. Isto equivale a cerca de 17,7% de toda a produção do país, numa província com 682 658 habitantes, 1,9% da população [1][2].

A razão é o petróleo e o gás. Em 2023, a Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANPG), a entidade pública que gere as concessões petrolíferas em nome do Estado, atribuía ao Zaire cerca de 905 mil barris de petróleo por dia, em 17 blocos (áreas de exploração) no mar e 12 em terra [4]. O Soyo acolhe ainda a Angola LNG, a fábrica que transforma gás natural em líquido para poder ser exportado por navio, e a base de apoio logístico Kwanda [4].

Mapa de Angola com províncias destacadas, incluindo Cabinda e Zaire em destaque com círculo vermelho.
Provincia do Zaire

Em termos simples

Imagine uma fábrica muito grande e muito automatizada numa vila pequena. Tudo o que a fábrica produz entra nas contas da vila, porque é ali que é produzido. Se dividirmos esse valor pelos habitantes, a vila parece riquíssima. Mas a fábrica funciona com poucas pessoas, e o número de famílias da vila não mudou.

É isto que acontece no Zaire. As estatísticas fazem o que devem: registam a produção no lugar onde ela acontece, que é a regra normal das contas regionais [3]. Só que o petróleo e o gás são uma indústria intensiva em capital, ou seja, que exige muito dinheiro em equipamento e relativamente poucos trabalhadores. Por isso, o PIB per capita do Zaire diz muito sobre a produção petrolífera e pouco sobre o dia-a-dia de quem lá vive.

Porque importa: quem quer abrir um negócio, investir ou planear serviços no Zaire precisa de olhar para outros números, como quantas famílias existem e que acesso têm a electricidade e água.


O que mostram as famílias

O Censo 2024 permite essa leitura. E mostra uma província acima da média nacional em vários indicadores. Têm electricidade 70,6% das famílias do Zaire, contra 48,6% no país, e 65,5% têm acesso a água adequada para beber, contra 56,0% [1][2]. Sabem ler e escrever 84,6% dos adultos, contra 72,6% no país [2][3]. A maioria da população (76%) vive em zonas urbanas [2].

Como no resto de Angola, a diferença entre cidade e campo é grande. Nas zonas rurais do Zaire, só 33,0% das famílias têm electricidade e 35,2% têm água adequada [2]. Cerca de metade das famílias da província (48,5%) cozinha com lenha ou carvão, perto da média nacional de 45,8%, e esse valor sobe para 80,5% no campo [1][2]. Uma em cada seis famílias recebe algum apoio social, sobretudo do programa Kwenda, a mesma proporção que no país [2][3].

Porque importa: o mercado real do Zaire é formado por 172 899 famílias, com uma média de 3,9 pessoas cada [2]. É um mercado de dimensão provincial, com um nível de vida um pouco acima da média angolana, e não o mercado de um país rico.


Construção versus operação: onde estão os empregos

Este é o ponto central. Construir uma casa exige muitos trabalhadores durante meses; depois de pronta, a casa precisa apenas de manutenção. Com uma fábrica de gás passa-se o mesmo, em grande escala.

O caso mais recente mostra bem a diferença. A nova unidade de processamento de gás do Soyo, do chamado Novo Consórcio de Gás, custou 2,6 mil milhões de dólares, processa 400 milhões de pés cúbicos de gás por dia e foi inaugurada em Novembro de 2025 [10]. Em 2020, a petrolífera Eni previa pelo menos 3000 postos de trabalho durante a construção, mas apenas cerca de uma centena de empregos permanentes depois de a fábrica começar a funcionar [11]. No pico da obra, a ANPG contou cerca de 4000 trabalhadores, 78% deles angolanos [12]. Na inauguração, o Presidente da República destacou que mais de 70% das mais de 25 milhões de horas de trabalho tinham sido feitas por angolanos, na sua maioria jovens [14]. A operadora Azule Energy estima agora cerca de 2270 empregos por ano, directos e indirectos, até 2043 [13]. Os empregos indirectos são os criados noutras empresas, por exemplo em fornecedores, transporte e restauração.

Estes números medem coisas diferentes (o pico da obra, os postos permanentes e uma estimativa de emprego indirecto) e não devem ser somados. Mas o padrão é claro: muitos empregos durante a construção, muito menos depois.

A Angola LNG segue a mesma lógica. A fábrica pode produzir até 5,2 milhões de toneladas de gás liquefeito por ano [5]. O investimento total é indicado em 12 mil milhões de dólares pela própria empresa [6], e em mais de 11 mil milhões apenas para a fábrica, segundo uma declaração de 2018 [7]. Depois da construção, boa parte do emprego local vem dos contratos de manutenção. Num desses contratos, de três anos, a empresa EnerMech empregava 87 pessoas, 86% delas angolanas [18].

Porque importa, em três pontos:

  • Quem vende serviços no Soyo (casas para arrendar, restaurantes, transporte, logística) depende do calendário das obras, mais do que do preço do petróleo. Quando uma grande obra termina, a procura local cai, mesmo que o petróleo esteja caro.
  • A formação técnica vale mais a longo prazo do que o emprego de obra, porque os postos permanentes de operação e manutenção exigem qualificações específicas.
  • O ritmo dos projectos é o que mantém a economia local activa. Se um projecto novo começa quando outro acaba, o emprego mantém-se; se há um intervalo longo, o emprego cai.

Como os recursos chegam à província

Em Angola, as receitas do petróleo (impostos e a parte que cabe ao Estado nas concessões) são recebidas pelo Estado central. Chegam às províncias através do Orçamento Geral do Estado (OGE), o plano anual de receitas e despesas do país. O OGE de 2026 prevê receitas petrolíferas de 7,50 biliões de kwanzas, dos quais 5,15 biliões provêm da ANPG [16].

Durante alguns anos existiu também uma regra específica para as províncias produtoras. As leis do OGE de 2015, 2016 e 2017 reservavam ao Governo Provincial e às Administrações Municipais do Zaire uma parte das receitas fiscais do petróleo produzido na província: 11,66 mil milhões de kwanzas em 2015, 9,53 mil milhões em 2016 e 12,72 mil milhões em 2017 [15]. Cabinda tinha uma regra semelhante [15]. Para esta análise, não foi possível confirmar se esta regra se mantém nos orçamentos mais recentes.

A província beneficia ainda de programas nacionais executados localmente. Em 2023, o Programa Integrado de Desenvolvimento Local e Combate à Pobreza aplicou no Zaire 1,44 mil milhões de kwanzas, em 105 projectos, que abrangeram 158 333 pessoas [17].

Porque importa: uma empresa que trabalha para o governo provincial depende sobretudo de o dinheiro do OGE chegar a tempo (o chamado risco de contraparte, ou seja, o risco de quem paga não pagar ou pagar com atraso). Esse risco tem mais a ver com as finanças do Estado do que com a actividade petrolífera no Soyo.


Muita produção em poucas instalações

Uma parte importante da produção registada no Zaire depende de poucas instalações. A Angola LNG tem uma única linha de produção de gás liquefeito (um "trem", no jargão do sector) e não divulga com que percentagem da sua capacidade está a funcionar [8]. Em 2023, cancelou vários carregamentos de navios por problemas técnicos [8][9]. A lei revista fez da Angola LNG o destino do gás natural que venha a ser descoberto no país [9], o que reforça o papel do Soyo na estratégia nacional de gás.

Porque importa: se a fábrica parar durante algum tempo, ou se os campos de petróleo mais antigos produzirem menos, o PIB do Zaire pode cair fortemente num só ano. O efeito sobre o emprego e o consumo das famílias da província será bem menor. É mais uma razão para não ler a economia do Zaire apenas pelo PIB.


Onde podem surgir empregos duradouros

O gás pode criar mais emprego local quando é usado na própria economia, em vez de só ser exportado. A Angola LNG foi concebida para fornecer também gás ao mercado interno, cerca de 125 milhões de pés cúbicos por dia, segundo a administração [7]. Na inauguração de Novembro de 2025, o Presidente da República referiu a construção prevista de uma fábrica de fertilizantes no Soyo, que usaria gás da nova unidade [14]. Indústrias como esta, que transformam o gás noutros produtos (a chamada indústria a jusante), costumam gerar mais emprego permanente do que o simples processamento para exportação. À data desta análise, não foi encontrada confirmação pública de que a decisão final de investimento, o momento em que os investidores se comprometem a financiar a obra, já tenha sido tomada.

O que isto significa

O PIB per capita do Zaire é um retrato correcto da produção petrolífera, mas não descreve a vida económica da província. O mercado local é formado por cerca de 173 mil famílias, com condições de vida acima da média nacional e com a diferença entre cidade e campo que existe em todo o país. O emprego criado pelo petróleo e gás concentra-se nas obras e diminui muito quando as fábricas entram em funcionamento.

Para quem investe, ficam três regras simples. Para medir o mercado, contar as famílias e o seu acesso a serviços, e não usar o PIB. Para prever a procura no Soyo, olhar para o calendário das obras (ciclo de investimento). Para avaliar contratos públicos na província, olhar para a execução do OGE.

A grande questão para os próximos anos é se a nova fase do gás no Zaire trará indústrias que usem o gás localmente e criem emprego permanente em número significativo. Há quatro sinais a acompanhar: a decisão final sobre a fábrica de fertilizantes do Soyo; o calendário dos próximos projectos de petróleo e gás na província; a evolução das actividades não petrolíferas na próxima edição do PIB provincial do INE; e a eventual divulgação de quanto da capacidade da Angola LNG está a ser usada.

Fontes

  1. INE Angola, Relatório Síntese dos Resultados Definitivos do RGPH 2024 (2025).
  2. INE Angola, Resultados Definitivos do RGPH 2024 – Província do Zaire (2026).
  3. Expansão, "Zaire é a província mais rica do País e Cunene a mais pobre", 7 de Março de 2026 (cálculos com base no FIR PIB Provincial 2015–2024 do INE).
  4. Ver Angola / Angop, produção de 905 mil barris por dia no Zaire segundo a ANPG, Março de 2023.
  5. Oil & Gas Journal, "Bechtel to build Angola's first LNG plant", Fevereiro de 2008.
  6. Angola LNG, Relatório ESG 2021 (versão portuguesa).
  7. Ver Angola, "Angola LNG: gás natural angolano rendeu 1500 milhões em 2017", Junho de 2018.
  8. Ecofin Agency, "Angola's Soyo LNG Plant Faces Reliability Test as Gas Role Expands", Setembro de 2025.
  9. Expansão, "Avaria paralisa venda de carregamentos de LNG", 2023.
  10. Angop via AllAfrica, entrada em operação do Novo Consórcio de Gás no Soyo, Dezembro de 2025.
  11. Ver Angola / Angop, "Eni no Soyo para construir fábrica de processamento de gás natural", Fevereiro de 2020.
  12. O País, obra do centro de tratamento de gás do Soyo segundo a ANPG.
  13. Ver Angola, "Fábrica de gás no Soyo vai criar cerca de 2270 empregos anuais…", Novembro de 2025.
  14. Ver Angola, inauguração da fábrica de gás não associado no Soyo pelo Presidente da República, Novembro de 2025.
  15. Leis do OGE: Lei n.º 23/14 (OGE 2015), Lei n.º 28/15 (OGE 2016) e Lei n.º 22/16 (OGE 2017), artigo 8.º (via lex.ao).
  16. Ver Angola, proposta do OGE 2026: receitas petrolíferas e não petrolíferas, Novembro de 2025.
  17. Angop, Programa Integrado de Desenvolvimento Local e Combate à Pobreza no Zaire, balanço de 2023, Janeiro de 2024.
  18. EnerMech, contratos com a Angola LNG, Maio de 2023.

Última verificação: 5 de Outubro de 2026. Onde as fontes divergem, isso é indicado no texto em vez de resolvido artificialmente. A análise reflecte a informação disponível nessa data.

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