A Nova Cidade do Kilamba em Luanda
Kilamba: a cidade-fantasma que se tornou um sonho de classe média
Por Angola Unfiltered
Há projetos urbanos que se tornam famosos pelo sucesso. O Kilamba ficou famoso, primeiro, pelo fracasso. Durante anos, esta cidade nova erguida a cerca de 30 a 40 quilómetros a sul do centro de Luanda foi descrita, em jornais de meio mundo, como a maior "cidade-fantasma" de África: prédios coloridos pintados de amarelo, azul, verde e rosa, avenidas largas, escolas prontas a funcionar — e quase ninguém a viver lá. Mais de uma década depois, o Kilamba é outra coisa completamente diferente. E essa transformação é uma das histórias mais interessantes da Luanda contemporânea.
Um projeto à escala chinesa
A Nova Cidade do Kilamba — também grafada Quilamba — nasceu como peça central da promessa do então Presidente José Eduardo dos Santos de construir um milhão de casas em Angola. As obras começaram em 2008, financiadas no quadro do modelo "petróleo por infraestruturas" que marcou a relação entre Angola e a China naquela década. A construção foi entregue à CITIC, uma empresa estatal chinesa, e o custo total rondou os 3,5 mil milhões de dólares.
A primeira fase, concluída em 2011, entregou cerca de 750 edifícios com cinco a treze andares, 20 mil apartamentos, 17 escolas, 24 creches e 240 lojas, numa área de 8,8 km². Foi pensada para acolher meio milhão de habitantes. Para se ter ideia da escala: era, à data, um dos maiores empreendimentos habitacionais alguma vez construídos pela China fora do seu território.
A fase do "ghost town"
Quando o Kilamba abriu, havia um problema embaraçoso: ninguém podia comprar lá um apartamento. Os preços iniciais rondavam os 125 mil dólares por unidade — uma fortuna num país onde o PIB per capita era de apenas alguns milhares de dólares. Os prédios coloridos ficaram vazios, as ruas desertas, e o mundo escreveu sobre a cidade-fantasma construída pelos chineses no meio do mato angolano.
A viragem aconteceu em fevereiro de 2013, quando o Governo aprovou nova legislação para subsidiar a habitação. O preço dos apartamentos caiu quase 50%, e o que era inacessível tornou-se, de repente, possível para a classe média angolana. Os angolanos correram em massa. Houve filas à porta dos balcões de venda durante dias. Em 2014, os primeiros moradores começaram a receber as chaves. Em 2015, o Kilamba já tinha 80 mil habitantes. Hoje ultrapassa os 130 mil — e há quem o considere o mais bem-sucedido projeto de cidade nova alguma vez construído em África, modelo para outros doze projetos semelhantes pelo continente. Na recente reforma administrativa, foi mesmo elevado ao estatuto de município.
O que torna o Kilamba diferente
Para quem regressa da diáspora depois de muitos anos, o choque é grande. Muitos angolanos ficam genuinamente maravilhados, porque infraestruturas gigantescas como o Kilamba ou o Sequele simplesmente não existiam quando deixaram o país. Hoje, o Kilamba é amplamente reconhecido por oferecer uma excelente infraestrutura: segurança, escolas, recolha de lixo regular — algo que noutras zonas em desenvolvimento, como a Zona Verde, está longe de ser garantido. Estas condições de comodidade e urbanização motivaram muitas famílias com maior poder aquisitivo a estabelecerem ali residência.
A localização ajuda. A centralidade conta com várias vias de acesso, sendo uma delas feita através de um viaduto, e fica nas imediações do majestoso Estádio 11 de Novembro — uma região em constante valorização e expansão. À volta do estádio e da centralidade tem nascido uma nova zona urbana, com edifícios novos e empresas a estabelecerem-se neste polo de crescimento. Há também infraestruturas hoteleiras de referência, como o Hotel Vitória Garden, muito procurado inclusive para gravações de videoclipes.
O Xiami e o coração do lazer
No capítulo do comércio e entretenimento, o grande polo de atração do Kilamba é o Xiami Shopping. Este enorme espaço comercial é o verdadeiro coração do lazer dos moradores e fica particularmente lotado aos fins de semana. É lá que a população se desloca em massa para fazer compras, ver filmes nas salas de cinema, comer na praça de alimentação ou simplesmente passear pelas lojas. O Xiami garante que os residentes não precisem de atravessar Luanda para encontrar bens, serviços e momentos de descontração — algo raro na periferia da capital.
A outra cara do Kilamba
Mas seria desonesto pintar só o lado bonito. À volta do núcleo planeado, cresceram vários bairros informais a partir de antigas zonas agrícolas — Bitas, Progresso, Cinco Fios, Povoado Kimbele, Vila Flor —, e estes enfrentam os problemas familiares de qualquer periferia luandense: saneamento, água, eletricidade, serviços públicos a meio gás.
Mesmo dentro da centralidade, os moradores relatam problemas: pontos de irrigação usados de forma abusiva por jardineiros que fazem venda ilegal de água, assaltos a apartamentos e a viaturas, e semáforos que praticamente nunca funcionam. A falta de estradas que liguem o Kilamba ao resto de Luanda provoca engarrafamentos pesados nas horas de ponta. E o equipamento médico no local continua limitado — para tratamentos sérios, a maioria dos residentes ainda tem de descer ao centro.
Por que o Kilamba importa
O Kilamba não é apenas um conjunto de prédios coloridos no meio do mato. É, no fundo, um espelho de várias coisas ao mesmo tempo: das ambições políticas do pós-guerra, da relação Angola-China, da emergência (ainda frágil, mas real) de uma classe média angolana, e da forma como Luanda está a tentar — desordenadamente — descentralizar-se.
Para o visitante curioso, vale a pena ir lá um dia. Conduzir pelas avenidas largas, ver a escala dos prédios coloridos, parar para um café perto do Xiami, perceber que o silêncio relativo das ruas (quando comparado com a Baixa ou com o Cazenga) é, em si mesmo, uma forma de luxo em Luanda. Visite durante o dia, leve a câmara — as fachadas amarelas, rosa e azuis dão imagens fortíssimas —, e, se tiver tempo, combine com uma passagem pelo Zango ou por Talatona para ver de uma só vez as várias respostas que Luanda tem dado ao seu próprio crescimento.
O Kilamba começou como uma cidade vazia que o mundo gostou de gozar. Tornou-se uma cidade real. E essa é, talvez, a história mais angolana de todas: levar tempo, parecer impossível, e acabar a acontecer.
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