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Porque é que a botija de gás não subiu? 






Porque é que a botija de gás não subiu?

Quanto Custa Viver em Angola — Episódio 16

No episódio 2 desta série contámos uma história de aumentos. O gasóleo passou de 135 para 420 kwanzas por litro em dois anos, a tarifa do candongueiro saltou de 150 para 300, e a classe "Transportes" lidou a inflação mês após mês.

Mas na mesma lista de preços dos combustíveis, publicada pelo mesmo regulador, há dois produtos que não se mexeram.

O gás de petróleo liquefeito mantém-se nos 100 kwanzas por quilo. O petróleo iluminante, nos 70 kwanzas por litro. Ambos inalterados enquanto o gasóleo triplicava.

Uma botija de 12 quilos — o formato mais consumido pelas famílias angolanas — custa, portanto, 1.200 kwanzas.

Este episódio explica porquê.

O Estado paga 6.800 kwanzas por cada botija

O preço que paga na botija não é o custo de a produzir, transportar e encher.

Segundo cálculos feitos a partir de dados do Ministério das Finanças sobre a subsidiação aos combustíveis, o Estado subsidiou o consumo doméstico de gás em cerca de 85%. Sem esse apoio, a mesma botija de 12 quilos custaria aproximadamente 8.000 kwanzas.

[IMAGE: ep16-botija.png]

Ou seja: por cada botija que uma família compra por 1.200 kwanzas, há cerca de 6.800 kwanzas pagos por outra via.

A escala é considerável. Em 2023 foram comercializadas mais de 410 mil toneladas métricas de gás butano, num valor total próximo dos 198,4 mil milhões de kwanzas — dos quais cerca de 169 mil milhões corresponderam a subsidiação estatal do consumo das famílias. O petróleo iluminante, usado sobretudo para iluminação em zonas sem electricidade, foi subsidiado em cerca de 88%.

Preço e custo não são a mesma coisa

Esta distinção é simples de enunciar e fácil de esquecer.

Preço é o que sai da sua carteira. Custo é o que o produto consome em recursos para chegar até si. Quando os dois divergem, alguém está a cobrir a diferença.

Num produto subsidiado, essa diferença não desaparece — muda de bolso. É paga pelo Orçamento Geral do Estado, ou seja, por receitas que teriam outros destinos possíveis.

Isto não é uma crítica ao subsídio. É a informação de que um leitor precisa para ler correctamente qualquer notícia sobre combustíveis: quando se diz que "o preço do gás não subiu", o que se está a dizer é que a decisão de não transferir o custo para as famílias se manteve. O custo continuou a existir.

E explica também a assimetria que abre este episódio. O gasóleo viu o seu subsídio retirado por degraus sucessivos; o gás doméstico não. São duas escolhas diferentes sobre dois produtos com utilizadores diferentes — um move camiões e candongueiros, o outro cozinha o jantar.

Só 0,6% das botijas degradadas foram substituídas

Aqui está a parte menos confortável, e já a encontrámos antes nesta série.

Em Abril de 2026, na Reunião de Balanço do Segmento dos Derivados do Petróleo realizada na sede do Instituto Regulador dos Derivados do Petróleo, a Sonagás apresentou os números da substituição das botijas em estado de degradação.

Tinham sido substituídas 6.000 botijas em todo o território nacional. Está prevista a aquisição de cerca de um milhão, com uma meta inicial de 100 mil unidades a colocar no mercado durante o ano.

Seis mil em um milhão é 0,6% do necessário. Empresas do sector alegam asfixia financeira e custos operacionais insustentáveis.

Compare-se com o episódio 6, sobre a água e a electricidade. O regulador do sector explicou então que as tarifas baixas, combinadas com ineficiências de cobrança, fragilizam a sustentabilidade financeira das empresas, que ficam sem autonomia para investir e expandir a rede.

É o mesmo mecanismo, num sector diferente: o preço acessível ao consumidor e a fragilidade do operador são duas faces da mesma moeda. Uma botija barata numa cozinha não vale nada se a botija estiver degradada e não houver quem a substitua.

Quando falta gás, o preço tabelado deixa de valer

Há uma diferença entre o preço tabelado e o preço que se paga quando falta produto.

Luanda conhece bem o padrão: períodos de escassez em que o gás desaparece dos revendedores autorizados e reaparece no mercado paralelo a múltiplos do valor oficial. Historicamente, esse fenómeno concentrava-se em Dezembro, altura de maior procura, e levava muitas famílias a manter botijas vazias em casa para as encherem em Outubro, antecipando-se às filas e à especulação.

O mecanismo repete-se de forma previsível: basta um rumor de ruptura — e as redes sociais são hoje um veículo eficiente para o propagar — para que a procura dispare, o produto se esgote nos pontos autorizados e os revendedores informais imponham o seu preço.

É a mesma estrutura que esta série encontrou no episódio 11 a propósito dos dados móveis e no episódio 6 a propósito da água: quando o canal formal falha, o canal informal cobra o que quiser, e quem não tem reserva paga mais. Quem consegue manter uma botija cheia em casa atravessa a escassez ao preço tabelado. Quem compra ao dia, não.

Uma botija custa 1,2% do salário mínimo

Façamos a conta com o Salário Mínimo Nacional de 100.000 kwanzas.

Uma botija de 1.200 kwanzas representa 1,2% do salário mínimo. Mesmo para quem recebe os 50.000 kwanzas aplicáveis às micro-empresas, são 2,4%. Consoante o agregado e a frequência com que se cozinha, uma botija pode durar várias semanas.

Ao lado do que esta série já apurou — transporte entre 13% e 26% do salário mínimo, electricidade monofásica a 13,5%, renda em Luanda podendo ultrapassar 180% — cozinhar a gás é das despesas essenciais mais acessíveis em Angola. Precisamente porque é subsidiada.

Duas ressalvas, contudo, e ambas importam.

A primeira: a botija em si. Uma garrafa nova é um investimento inicial que não toda a gente consegue fazer de uma vez, e é exactamente esse o padrão que encontrámos repetidamente — comprar barato exige capital para comprar em volume.

A segunda: o fogão. Cozinhar a gás exige equipamento. Quem não o tem usa carvão ou lenha, que se compram em quantidades pequenas, sem tabela de preços, sem regulador, e sem qualquer subsídio.

Ninguém conta quem cozinha a carvão

Oitava vez, e o contorno é já familiar.

Os preços do gás e do petróleo iluminante são públicos, regulados e verificáveis. Os valores do subsídio foram apurados a partir de dados do Ministério das Finanças.

Do outro lado, nada. Não existe informação pública sistemática sobre quantas famílias angolanas cozinham a gás, a carvão ou a lenha, nem sobre o preço do carvão por saco ou por quilo. Sem isso, é impossível dizer que fracção da população beneficia efectivamente do subsídio ao gás — e que fracção compra o seu combustível de cozinha num mercado onde nenhum apoio chega.

É provavelmente a lacuna mais consequente desta série inteira. Um subsídio que representa dezenas de milhares de milhões de kwanzas por ano beneficia um universo de famílias que ninguém conta.

O que observar a seguir

O ritmo de substituição das botijas. A meta é de 100 mil unidades durante o ano, contra 6.000 substituídas até Abril. É o indicador mais concreto da saúde do sector — e uma botija degradada é, antes de mais, um problema de segurança dentro de casa.

A lista de preços do IRDP. Enquanto o GLP se mantiver nos 100 kwanzas por quilo e o petróleo iluminante nos 70, a decisão sobre o subsídio permanece inalterada. Qualquer movimento nesses dois números é uma mudança de política com efeito imediato em milhões de cozinhas.

Os meses de Novembro e Dezembro. É quando historicamente a procura aumenta e o mercado paralelo aparece. Se tem botija, encha-a antes.


Fontes e notas

Preços do gás de petróleo liquefeito e do petróleo iluminante: Instituto Regulador dos Derivados do Petróleo (IRDP). Percentagem de subsidiação, volume comercializado em 2023, valor total e custo estimado sem subsídio: cálculos do Expansão a partir de dados do Ministério das Finanças sobre a subsidiação aos combustíveis. Substituição de botijas degradadas e metas de aquisição: Sonagás, Reunião de Balanço do Segmento dos Derivados do Petróleo, Abril de 2026. Episódios de escassez e mercado paralelo: imprensa angolana e verificações de facto publicadas. Salário Mínimo Nacional: Decreto Presidencial n.º 152/24, de 17 de Julho.

O custo estimado de 8.000 kwanzas por botija sem subsídio refere-se a 2023 e resulta de um cálculo, não de um preço praticado. O preço ao consumidor de 1.200 kwanzas corresponde à aplicação da tabela oficial de 100 kwanzas por quilo a uma botija de 12 quilos. Não existe informação pública sistemática sobre a repartição das famílias por tipo de combustível de cozinha nem sobre os preços do carvão e da lenha.

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