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Zango- a nova centralidade em Luanda

Por Angola Unfiltered

Há lugares em Luanda que mudam tão depressa que quem volta passados dez anos quase não os reconhece. O Zango é um desses lugares. Onde antes havia areal, mato e algumas casas dispersas, ergue-se hoje um distrito imenso, com centenas de milhares de habitantes, prédios em todas as direções, uma vida noturna que rivaliza com a da Baixa e uma identidade própria que nenhum plano oficial conseguiu desenhar. O Zango não foi planeado para ser o que é hoje — e talvez seja precisamente por isso que se tornou interessante.

Prédio residencial alto com varandas, janelas e roupas, carros estacionados na frente e árvores ao lado no  Zango 0 em Luanda
Predios no Zango 0 em Luanda

O nascimento de um distrito

O Zango fica no sudeste da província de Luanda, dentro do município de Viana, a uma distância que varia entre 20 e 45 quilómetros do centro consoante a zona — Zango Zero, I, II, III, IV ou V. Não nasceu como projeto urbanístico de luxo, mas como solução de emergência. Foi projetado em 2002, ainda com o cheiro a pólvora da guerra civil no ar, para acolher populações retiradas de zonas de risco do centro de Luanda: Boavista, Chicala, Ilha de Luanda, Samba e outros musseques vulneráveis a deslizamentos e cheias. O objetivo era simples e urgente — tirar milhares de famílias de áreas perigosas e dar-lhes uma casa nova, mais longe da costa, mas com chão firme.

Daí surgiram os primeiros núcleos: Zango I, II, III e IV, bairros de reassentamento com casas térreas e infraestruturas básicas. O ritmo de construção acelerou entre 2008 e 2015, com mãos chinesas, brasileiras e angolanas a erguerem milhares de habitações. E as famílias reassentadas foram apenas o ponto de partida: rapidamente chegaram migrantes do interior, jovens casais à procura de habitação acessível e empreendedores informais a montar negócio em cada esquina.

A era das centralidades

A partir de meados da década de 2010, o Zango passou a integrar a estratégia governamental das "centralidades" — grandes urbanizações planeadas, construídas de raiz para descongestionar a Baixa de Luanda.

A Centralidade Vida Pacífica (Zango Zero) ergueu-se em cerca de 22 hectares, com 2.464 fogos distribuídos por 22 edifícios, pensada para 16.700 pessoas. Mas o grande salto veio com a Centralidade do Zango 5, também conhecida como Zango 8000. Inaugurada em dezembro de 2019 pelo Presidente João Lourenço, ocupa 416 hectares divididos em 32 setores urbanos, com 7.964 residências entre vivendas isoladas, geminadas e apartamentos de dois e três pisos. Foi concebida para 48 mil habitantes — uma pequena cidade dentro do Zango.

Os números mostram a pressão habitacional que pesa sobre Luanda: para apenas 2.390 residências disponíveis no Zango 5, concorreram 157.431 candidatos no sorteio público. E o esforço financeiro pedido às famílias continua elevado. Uma vivenda T3 isolada custou 11,6 milhões de kwanzas em pronto pagamento; um apartamento T3, 8,3 milhões. Em propriedade resolúvel, a prestação mensal de um T3 ficou nos 34.832 kwanzas — num país onde o salário mínimo nacional rondava, à data, os 87.080 kwanzas. Mesmo subsidiada, a casa continua a ser um luxo para a maioria.

Os contrastes do quotidiano

Visto do ar, o Zango parece um mosaico de blocos novos e arruamentos largos. Vivido por dentro, conta-se de outra forma. As próprias agências oficiais descrevem o distrito como uma zona de "contrastes e assimetrias": as centralidades modernas convivem com bairros de autoconstrução ainda sem infraestruturas básicas. Há comunidades que estão no Zango desde a sua fundação e que continuam a aguardar água canalizada e eletricidade estável. O saneamento é deficiente em vários bairros, e a mobilidade é um problema crónico — o transporte público regular é escasso, e a ligação ao centro depende em grande parte de candongueiros e mototáxis. Os próprios moradores chegam a organizar-se para fazer a recolha do lixo que ninguém vem fazer.

E ainda assim, o Zango pulsa. Pulsa com uma energia que não cabe nos relatórios oficiais.

Do Patebraço à Rua da Dira: o renascimento noturno

Por volta de 2006 a 2008, a grande referência de lazer do distrito era o icónico Patebraço, junto à paragem do Zango 2. Era o principal ponto de convívio noturno da zona, com um ambiente tão eletrizante que se conta que alguns pais de família chegavam a gastar ali o salário inteiro, atraídos pelas chamadas "mangas de 10" ou "14inhas" — gíria popular para as raparigas que frequentavam o espaço. Os tempos eram outros, e o Patebraço era o coração da noite na periferia.

Com a urbanização acelerada, o Patebraço caiu no esquecimento. A agitação noturna mudou de morada, mas não desapareceu — pelo contrário, multiplicou-se. Hoje, as grandes referências da vida noturna do Zango são estabelecimentos como a Ferrari, a Sagres e, indiscutivelmente, a Rua da Dira, no Zango 3.

A Rua da Dira consagrou-se como o epicentro da diversão noturna do distrito — uma rua que praticamente não dorme e regista movimento de segunda a segunda. O seu expoente máximo é a famosa "Segunda dos Kunangas". O termo kunanga, em Angola, é tradicionalmente usado para descrever pessoas desempregadas ou que passam o dia sem ocupação. O evento subverteu o conceito: criou um dia oficial para relaxar, curar a ressaca do fim de semana e fingir que a semana ainda não começou. Apesar do nome autodepreciativo, atrai milhares de jovens, trabalhadores e gente de todos os estratos sociais à procura de boa música e descontração.

E há a comida. Ao longo da Rua da Dira, o comércio informal e a gastronomia de rua fervilham toda a noite: o famoso sarabulho (com destaque para o da Tia Maria), o pincho, o franguitê, o cabritê. Comida que se come em pé, com guardanapo de papel e cerveja gelada na mão.

Por que o Zango importa

O Zango é, em muitos aspetos, um laboratório da Luanda do século XXI. Aqui veem-se três Angolas coexistir no mesmo território: a do planeamento estatal e das centralidades, a da autoconstrução que continua a empurrar musseques para as franjas, e a da classe média emergente, jovem, que encontrou neste distrito uma alternativa real à carestia do centro.

Mais do que isso, o Zango prova uma coisa importante: a periferia luandense já não é apenas um lugar para onde se vai dormir. É um lugar onde se vive, se trabalha, se festeja e se cria identidade. Do reassentamento à Rua da Dira, do Patebraço à Segunda dos Kunangas, o Zango construiu-se como pôde — e tornou-se inconfundivelmente seu. Que é, no fundo, a coisa mais luandense que pode acontecer a um bairro.