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Gasóleo ou rede: a nova conta da indústria pesada em Angola
O fim dos subsídios ao gasóleo tornou a electricidade da rede muitas vezes mais barata do que gerar energia no local. A vantagem só existe, porém, onde a rede chega e se mantém ligada.
ANÁLISE ANGOLAEXPERT
O problema de fundo: energia barata, mas não em todo o lado
Durante anos, a indústria angolana fora das grandes cidades funcionou a gasóleo. Pedreiras, minas e fábricas instalavam geradores próprios, porque a rede eléctrica não chegava ou falhava, e porque o combustível subsidiado era barato.
Duas mudanças alteraram esta conta. A primeira foi a expansão da produção hidroeléctrica: segundo a PRODEL, a empresa pública de produção de electricidade, cerca de 91% da electricidade do país já vem de fontes renováveis, sobretudo barragens [7]. A segunda foi a retirada gradual dos subsídios aos combustíveis, iniciada em 2023 [1].
Desde 2024, o gasóleo subiu mais de 200%; a electricidade, 11,5%
Até Abril de 2024, o litro de gasóleo custava 135 Kz. Desde então subiu para 200 Kz, 300 Kz em Março de 2025, 400 Kz em Julho de 2025 [1][2] e 420 Kz em Junho de 2026 [3]. É um aumento de mais de 200% em pouco mais de dois anos.
No mesmo período, a electricidade subiu muito menos. O regulador aprovou para 2025 um aumento de 11,5%, com uma tarifa média de 12,8 Kz/kWh [4]. Para empresas, o preço rondava os 9,6 Kz/kWh em Junho de 2025 [5].
Um kWh a gasóleo custa 7 a 17 vezes mais do que um kWh da rede
Um gerador a gasóleo consome normalmente entre 0,2 e 0,4 litros por kWh produzido [6]. Ao preço de 420 Kz por litro, só o combustível custa entre 84 e 168 Kz por kWh, sem contar a compra, a manutenção e o transporte do gasóleo.
Comparado com uma tarifa de rede entre 9,6 e 12,8 Kz/kWh [4][5], gerar no local custa, só em combustível, entre cerca de 7 e 17 vezes mais. Em 2024, com o gasóleo a 135 Kz, essa diferença era de cerca de 2 a 5 vezes. Estes rácios são cálculos nossos a partir das fontes citadas e não incluem custos de ligação à rede, que não são públicos.
Um ressalvo: não foi possível confirmar se os grandes consumidores industriais pagam o preço de bomba ou um preço de gasóleo diferente. Se pagarem menos, a diferença é menor, mas continua grande.
Uma pedreira já mudou; as minas do leste ainda não podem
Alguns operadores já fizeram a conta. Uma empresa de britagem com pedreiras em Luanda e no Lobito substituiu equipamento móvel a gasóleo por centrais totalmente eléctricas, com o custo como principal motivo [8].
No extremo oposto está a mineração no leste. Em 2020, a Catoca, a maior empresa diamantífera do país, comprou 37,8 milhões de litros de combustível, num valor de 5,1 mil milhões de Kz, e lançou um concurso para uma central híbrida própria [9]. Aos preços de 2026, o mesmo volume custaria cerca de 15,9 mil milhões de Kz, mais do que o triplo.
A rede ainda não chega ao leste
A diferença entre os dois casos é geográfica. A produção hidroeléctrica concentra-se no rio Kwanza e alimenta sobretudo o eixo Luanda–Benguela. A Lunda Sul continua dependente de uma central térmica em Saurimo, que não satisfaz a procura [10].
A linha de 400 kV entre Xa-Muteba e Saurimo, com 335 km e um custo de cerca de 328 milhões de USD, devia ficar concluída em 2025 [11]. Em 2026, o governo ainda a apresentava como solução por concluir [10]. Até lá, as minas do leste não têm alternativa ao gasóleo, por mais caro que fique.
Mesmo onde há rede, há falhas
Estar ligado não garante fornecimento contínuo. Em Abril de 2026, a sabotagem de linhas, agravada pela chuva, derrubou cinco torres de alta tensão e deixou mais de 45 000 famílias de Luanda sem electricidade [12]. Em Março do mesmo ano, a PRODEL admitiu preparar planos técnicos para responder às interrupções de fornecimento [13].
Para uma indústria que não pode parar, isto significa manter geradores de reserva. A poupança vem do consumo diário, não da eliminação do investimento em geradores.
A electricidade vai ficar mais cara
O tarifário de 2025–2028 foi aprovado para garantir o equilíbrio financeiro das empresas do sector [4]. E o sector tem dívidas internas: em 2023, os montantes que outras empresas eléctricas deviam à PRODEL aumentaram 53 mil milhões de Kz [14]. Ambos os sinais apontam para novos aumentos de tarifas.
Ainda assim, mesmo uma duplicação das tarifas deixaria a rede várias vezes mais barata do que o gasóleo aos preços de 2026.
O que isto significa: a localização passou a ser o principal factor de custo energético
Para quem investe em indústria pesada em Angola, a pergunta deixou de ser "quanto custa a energia" e passou a ser "onde fica o projecto".
Perto da rede, a mudança paga-se. Em projectos ligados à rede no eixo Luanda–Kwanza–Benguela, substituir equipamento a gasóleo por equipamento eléctrico corta o custo energético a uma fração. É uma decisão de investimento com retorno rápido, desde que se mantenha capacidade de reserva.
Longe da rede, o gasóleo é um risco crescente. No leste e noutras zonas sem ligação, o custo energético subiu mais de três vezes desde 2024 e continua exposto a novos ajustes. Soluções híbridas ou solares próprias passam a ser parte do caso de investimento, não um extra.
A diferença vai estreitar, mas não desaparecer. As tarifas vão subir, mas partem de um nível tão baixo que a vantagem da rede deverá manter-se durante anos.
Os indicadores a acompanhar são três: a conclusão da linha Xa-Muteba–Saurimo, que decide o futuro energético da mineração no leste; o próximo passo do tarifário do IRSEA; e o preço do gasóleo depois de o Governo dar por concluída a retirada dos subsídios.
Fontes
- Expansão, "Preço do gasóleo aumentou hoje para 300 kwanzas", Março de 2025.
- Expansão, "Gasóleo subiu e passa a custar 400 kwanzas a partir de hoje", Julho de 2025.
- Angola24Horas, "Governo aumenta preço do gasóleo para 420 kwanzas por litro a partir deste sábado", Junho de 2026.
- AngoRussia, "IRSEA aprova novas tarifas de electricidade e água para o período 2025-2028", Maio de 2025.
- GlobalPetrolPrices, preços da electricidade em Angola, Junho de 2025 (dados do IRSEA e MINEA).
- Depco Power Systems, "Diesel Generator Efficiency & Fuel Consumption".
- Jornal 24 Horas, "PRODEL-EP: Angola produz 91% da sua energia a partir de fontes renováveis", Maio de 2025.
- Quarrying Africa, "Consulmet Equipment's first Angolan aggregate plant", 2023.
- Expansão, "Catoca procura resolver problemas eléctricos com nova Central Eléctrica na Lunda Sul", Agosto de 2021.
- Economia & Mercado, "Governador da Lunda Sul e ministro abordam problemática no fornecimento de electricidade", 2026.
- Power Technology, "Xa-Muteba – Saurimo Line, Angola".
- Observador, "Empresa angolana condena sabotagem e garante reposição de energia em Luanda", Abril de 2026.
- RNA, "Angola e Brasil assinam memorando para modernização dos sistemas eléctricos", Março de 2026.
- Ministério das Finanças, Relatório Agregado do Sector Empresarial Público 2023.
Última verificação: 1 de Outubro de 2026. Os rácios de custo são cálculos próprios a partir das fontes citadas. Onde as fontes divergem, isso é indicado no texto. A análise reflecte a informação disponível nesta data.

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