pt

Cidade da China em Luanda

Cidade da China: a Chinatown que Luanda construiu sem querer


Por Angola Unfiltered

O nome engana. Quando se ouve falar pela primeira vez na "Cidade da China", em Luanda, parece que se vai chegar a um bairro chinês — um pedaço de Xangai pousado em Viana, com lanternas vermelhas, restaurantes em néon e becos cheios de gente a falar mandarim. Não é isso. A Cidade da China é, na verdade, um gigantesco complexo comercial grossista e retalhista, construído e gerido por empresários chineses, que se tornou — quase sem ninguém ter planeado — a Chinatown não-oficial da capital angolana. E, mais do que isso, tornou-se uma das peças mais visíveis e palpáveis da relação económica entre Angola e a China.

Onde fica e como se chega

O complexo fica no município de Viana, dentro do Polo Industrial de Viana, mesmo junto à Via Expressa — a autoestrada que liga Cacuaco, a norte, a Benfica, a sul, contornando o centro caótico de Luanda. Está ao lado da entrada do Zango e a cerca de 20 minutos do novo Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto.

A localização não é casual. É estratégica. Está acessível a partir de quase todos os pontos sem ter de atravessar o trânsito infernal da Baixa, e fica colada às maiores zonas dormitório do país: Zango, Vida Pacífica e, mais a norte, Sequele. Em termos de mercado, está onde o povo vive.

Origem e escala

A Cidade da China foi inaugurada em junho de 2017 e é considerada o maior mercado de produtos diversos de Luanda. São 16 pavilhões (as chamadas naves), com mais de 400 lojas, e uma zona residencial com 29 edifícios. O complexo é detido e operado pelo African Sunrise Investment Group, controlado pelo empresário chinês Jack Huang, que gere também o mais pequeno Kikolo Shopping em Cacuaco e está por trás do novo projeto Outlets Shopping Mall, no mesmo corredor da Via Expressa.

Foi desenvolvido por um grupo de empresários chineses com o objetivo declarado de contribuir para a diversificação do mercado angolano. Antes de avançarem, estes investidores passaram tempo a estudar onde poderia surgir uma "Chinatown" em Luanda, optando por um investimento imobiliário num complexo comercial que, ao mesmo tempo, ajudasse a mover parte do comércio informal para o lado formal da economia. E essa é, no fundo, a história política por trás do projeto. O pequeno comércio chinês, que durante anos esteve disperso por dezenas de "lojas dos chineses" espalhadas por bairros e ao longo da estrada de Catete, foi consolidado num único espaço com licenças em ordem, serviços, segurança e infraestrutura.

O que se vende lá

Muito mais do que aquilo que o imaginário popular sugere quando se fala em "produto chinês barato". A oferta vai de materiais de construção civil e decoração, artigos para festas, eletrodomésticos, acessórios de automóvel, vestuário e calçado, até espaços reservados a logística e a exposições. As categorias mais procuradas incluem:

Materiais de construção e acabamentos. Azulejos, portas, fechaduras, tinta, canalização, sanitários. Um comerciante entrevistado pela imprensa chinesa resumiu bem o modelo: "a madeira é de Angola, mas a tinta, as fechaduras e a cola vêm da China". É a Cidade da China em microcosmos.

Eletrónica e eletrodomésticos. Frigoríficos, ares condicionados, televisores, ventoinhas, pequenos equipamentos de cozinha.

Ferragens e ferramentas. De geradores a pregos, passando por peças de bicicleta.

Vestuário e calçado. Tanto importações novas como o famoso fardo — as fardas de roupa em segunda mão que abastecem boa parte do mercado têxtil informal de Luanda.

Peças e acessórios para automóvel, brinquedos, plásticos, decoração, artigos de festa. Tudo em lotes grossistas, depois revendidos nos mercados mais pequenos da cidade.

Restaurantes e comida. Há ainda uma autêntica cena de restauração chinesa dentro do complexo. Wang Li, de 54 anos, está em Angola há sete e gere um restaurante frequentado tanto por famílias angolanas como chinesas, servindo comida chinesa ao lado de pratos angolanos. É um detalhe que mostra como o espaço deixou de ser apenas um armazém para se tornar um lugar com vida.

A clientela também não é só angolana e chinesa. O complexo acolhe sobretudo comerciantes estrangeiros — chineses, mas também namibianos, mauritanos, cameroneses e egípcios —, muitos dos quais compram a granel para revender nos seus países ou no interior de Angola.

Quem é que ali compra

Na prática, há três grandes grupos. Primeiro, os grossistas e revendedores: pequenos lojistas dos bairros de Luanda, comerciantes dos mercados como o do 30 e o dos Kwanzas, e ainda comerciantes vindos de outras províncias que enchem contentores e regressam ao Huambo, a Benguela ou cruzam a fronteira. É aqui que se encontram os preços mais baixos. Segundo, famílias a fazerem grandes compras: quem está a mobilar ou a remodelar um apartamento — sobretudo os moradores das centralidades como o Kilamba, o Sequele ou o Zango — faz peregrinação ao sábado para comprar azulejos, candeeiros e equipamentos a granel, em vez de pagar as margens infladas do retalho do centro. Terceiro, clientes ocasionais: cada vez mais mulheres e famílias que vão pela variedade e pelo conforto dos restaurantes.

Expansão contínua

A Cidade da China não tem parado de crescer, mesmo nos anos difíceis da economia angolana. Em julho de 2022, o grupo African Sunrise lançou um novo centro de exposições dentro do complexo, com um investimento previsto de cinco mil milhões de kwanzas (cerca de 11 milhões de euros). O edifício, de três pisos e 24 mil metros quadrados, com supermercados, lojas e uma sala de exposições, prometia criar 300 empregos diretos e mais de mil indiretos.

Em paralelo, o mesmo grupo está por trás do Outlets Shopping Mall, também na Via Expressa: um projeto avaliado em mais de 30 milhões de dólares, distribuído por 100 mil metros quadrados em três zonas, incluindo um edifício comercial "de alto padrão" com mais de 150 lojas, e ainda um bloco com bancos, restaurantes e eletrodomésticos. O conjunto Cidade da China + Kikolo Shopping + Outlets vai-se afirmando como o verdadeiro centro de gravidade do comércio sino-angolano em Luanda.

Sobre a tal "qualidade superior"

Aqui é importante ser honesto: a Cidade da China vende muito, mas não vende tudo bem. Se o teu objetivo for mobília e decoração de elevada qualidade, a recomendação que circula entre quem compra com frequência é trocar a Cidade da China pela loja Aponto Tomar, na zona do desvio do Zango. É lá que se encontra acabamento superior, peças de design e materiais com garantia mais robusta. A Cidade da China é imbatível em quantidade, variedade e preço — mas o "topo de gama" não é, definitivamente, o seu forte.

Conselhos práticos

Vai de manhã, idealmente ao sábado se quiseres apanhar o ambiente em pleno, mas chega cedo — à tarde fica quente, lotado, lento. Leva dinheiro vivo e Multicaixa Express, porque nem todas as lojas aceitam cartão. Negoceia. Os preços expostos nas lojas mais pequenas dos pavilhões são quase sempre um ponto de partida, especialmente se levares mais do que uma unidade. Verifica tudo antes de pagar, porque as devoluções são difíceis — a maior parte dos produtos vem da China e poucas lojas aceitam trocas. Guarda sempre o número da nave e o número da loja: "loja 12 da nave 7" diz-te muito mais do que "aquela loja com a porta vermelha". E sapatos confortáveis — sim, é à séria. Em meia hora vais ter feito mais quilómetros do que numa visita ao Carrefour.

O que a Cidade da China nos diz sobre Angola

Se o Mercado do 30 é o sítio de onde vem a comida que a cidade come, a Cidade da China é o sítio de onde vem grande parte do mobiliário, dos azulejos, dos eletrodomésticos, dos brinquedos e das ferragens que enchem as casas dos luandenses. É, em silêncio, a peça mais visível da relação económica sino-angolana — aquela que qualquer visitante pode atravessar a pé, sem precisar de relatórios oficiais.

Andar pela Cidade da China é ver, na prática, como Angola consome, como se equipa, como se veste e como se constrói. E é perceber que, num país onde a indústria local ainda é frágil, esta enorme nave em Viana é, há quase uma década, um dos principais armazéns invisíveis da vida quotidiana.