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Bairro Miramar em Luanda

Miramar: O Miradouro de Luanda entre a Tradição, a Diplomacia e a Modernidade

O Significado do Nome: Um Legítimo Miradouro do Mar


O nome Miramar não é uma mera escolha ao acaso; ele traduz, de forma literal e poética, a essência geográfica e a alma visual deste território luandense. Na sua génese, o termo designa um verdadeiro "miradouro do mar". Esta alcunha deve-se à espetacular e privilegiada elevação natural sobre a qual o bairro se assenta, oferecendo uma das mais deslumbrantes vistas panorâmicas sobre o litoral da capital angolana.

Quem se posiciona nos seus pontos mais altos é presenteado com uma perspetiva monumental que abarca, com extraordinária nitidez, os contornos da Baía de Luanda, a extensa e vibrante Ilha do Cabo, a icónica língua de areia do Mussulo, o dinâmico Porto de Luanda, a histórica zona da Boavista e o tecido urbano do Sambizanga. Dali também se vislumbram, imponentes, as seculares Fortalezas de São Miguel e de São Pedro da Barra, que outrora vigiavam a costa.

Este posicionamento elevado confere-lhe um dos momentos quotidianos mais celebrados pelos moradores e visitantes: o espetáculo do pôr-do-sol. A partir do topo do Miramar, em particular nas imediações do moderno hotel InterContinental ou do outrora majestoso cinema ao ar livre, é possível contemplar o Sol a mergulhar diretamente no horizonte do oceano Atlântico. Trata-se de uma experiência visual memorável que, ao longo das décadas, alimentou a imaginação de poetas, boémios e residentes.

Adicionalmente, a geografia do Miramar beneficia de uma barreira natural única: a sua densa arborização funciona como uma cortina de proteção contra os ventos fortes vindos diretamente do mar, criando um microclima local extremamente agradável. Este fator, elogiado pelos seus habitantes históricos, dota o bairro de um ar fresco e oxigenado, diferenciando-o das zonas mais sufocantes e áridas da baixa da cidade.


Posicionamento Geográfico: O Reduto Selecto, Arejado e Seguro de Luanda

Situado estrategicamente no coração da província de Luanda — geograficamente associado tanto ao distrito urbano das Ingombotas como ao município do Sambizanga —, o Miramar estabelece fronteiras diretas com algumas das mais emblemáticas circunscrições da capital, tais como o Cruzeiro, a Ingombota, a Boavista, o São Paulo, o Bairro Operário e o próprio Sambizanga. Esta localização central, mas fisicamente resguardada pelas suas encostas, permitiu ao bairro desenvolver uma identidade urbana muito própria, caracterizada pela calmaria e pelo prestígio.

Desde a sua génese e consolidação, iniciada na década de 1930, o Miramar demarcou-se das zonas periféricas e dos musseques em expansão. Desenvolvido em grande parte sob a égide da arquitetura modernista, o bairro consolidou-se como um símbolo inequívoco de alto padrão, exclusividade e sofisticação. É amplamente considerado um dos bairros mais premium da capital, atraindo uma demografia composta por diplomatas, executivos seniores de grandes companhias internacionais (como as petrolíferas e diamantíferas) e famílias de elevado orçamento.

Mais do que o seu traçado urbano elegante e as suas vivendas senhoriais de grandes lotes, o Miramar destaca-se como um dos refúgios mais seguros de toda a cidade de Luanda. A sua tranquilidade residencial é protegida por uma atmosfera de policiamento rigoroso e segurança de nível máximo. Este estatuto de segurança é diretamente influenciado pela sua caraterística geopolítica de ser a "capital das embaixadas".

O Miramar concentra uma densidade ímpar de representações diplomáticas acreditadas em Angola, incluindo as imponentes chancelarias dos Estados Unidos da América, da República Federativa do Brasil, da Rússia e da China. A necessidade de salvaguardar estas delegações internacionais e as residências oficiais dos embaixadores traduz-se numa forte e constante presença de forças da polícia nacional e de equipas de segurança privada altamente especializadas, que patrulham ativamente as ruas e travessas do bairro 24 horas por dia.

Assim, o Miramar conjuga, de forma harmoniosa, a sobriedade do poder diplomático e político, o isolamento seguro que as elites procuram, e o pulsar histórico e natural de uma Luanda que continua a mirar o infinito azul do oceano Atlântico lá do alto das suas barrocas.

 Das Barrocas à Elite: A Evolução Histórica (Anos 30 a 1975)


Os Primórdios Selvagens: Do Capim Alto à Herança dos Burity

Antes de se tornar no sinónimo de sofisticação e diplomacia que hoje conhecemos, o território do Miramar era um cenário bravio e indomado. O bairro nasceu nos primórdios da década de 1930, erguendo-se sobre as encostas de uma pequena montanha caracterizada pela sua terra vermelha e por um capim alto e verdejante. Naquela época, a urbanização de Luanda estava longe de alcançar esta zona alta; a circunscrição era um espaço isolado e desértico, onde não existia qualquer edificação para lá da antiga lagoa do Kinaxixi.

Este isolamento fazia com que a encosta fosse regularmente frequentada por animais selvagens que ali procuravam as suas presas. Paralelamente, o Miramar exercia um fascínio quase magnético sobre os garotos das zonas adjacentes. Atraídos pela natureza intocada, os rapazes subiam as barrocas para brincar livremente, apanhar piteiras e outras frutas silvestres, e caçar pássaros utilizando visgo.

A história fundacional do bairro cruza-se de forma profunda com a evolução social de Luanda. Segundo importantes narrativas sobre a sua génese, o Miramar surgiu originalmente como uma extensão do Bairro Operário. Esta vasta área de terra era propriedade da influente e histórica família Burity, marcando uma ligação umbilical entre a comunidade trabalhadora que se fixava mais abaixo e o topo da colina que começava a ser loteado.


A Era de Ouro do Modernismo Colonial

Com o avançar das décadas e a expansão económica de Luanda, a colina selvagem deu lugar a um planeamento urbano de excelência. Ao contrário de outras zonas periféricas que cresceram de forma espontânea ou desordenada, o Miramar desenvolveu-se de forma estruturada, alinhando-se com bairros de prestígio como o Alvalade, a Vila Alice, a Vila Clotilde e o Saneamento, áreas que historicamente nunca foram consideradas musseques.

A sua consolidação urbana foi desenhada em estreita observância aos preceitos da arquitetura modernista. Surgiram vivendas unifamiliares de traço limpo, grandes vãos envidraçados adaptados ao clima tropical, quintais amplos e jardins bem cuidados. Durante as décadas de 1950 e 1960, este urbanismo de vanguarda atraiu uma demografia muito específica: o Miramar foi habitado maioritariamente por personalidades influentes e de relevo social provenientes de Portugal, que ali encontravam um reduto de calmaria com uma vista inigualável sobre a baía colonial.


A Rutura de 1975 e o Novo Simbolismo Político

A proclamação da Independência Nacional de Angola, em 1975, operou uma transformação radical na demografia e no simbolismo do Miramar. Com a saída massiva da população colonial portuguesa, as imponentes moradias do bairro não ficaram vazias por muito tempo. À semelhança do que ocorreu no bairro Alvalade, o Miramar ganhou de imediato um forte simbolismo político e militar.

O bairro passou a acolher a nova elite governamental, partidária e militar do Estado angolano independente. Figuras históricas e nacionalistas de primeira linha fixaram ali as suas residências. Entre os moradores célebres do pós-independência destacam-se o nacionalista Lopo do Nascimento e os prestigiados comandantes Iko Carreira, Pedro Maria Tonha "Pedalé", Dimuka, Mona, Guinape, o nacionalista tio Loth, e o comandante Eduardo Ernesto Gomes "Bakalof". A presença destas lideranças consolidou o Miramar como o verdadeiro centro nevrálgico do poder político e militar na jovem República.


A Cooperativa "Alegria pelo Trabalho" e a Classe Média

Apesar de ser conotado como um reduto de grandes vivendas e elites políticas, o Miramar dos anos 70 também se abriu a uma classe média de funcionários públicos através de um projeto de habitação coletiva que mudou a linha de horizonte do bairro. Nas imediações do histórico cemitério do Alto das Cruzes, foram erguidos mais de cinco prédios de grande porte.

Estes imponentes edifícios foram edificados pela Cooperativa Alegria pelo Trabalho (com fortes ligações ao Namibe) e por promotores particulares. Os confortáveis e modernos apartamentos destas torres habitacionais foram destinados a albergar quadros médios do funcionalismo público angolano e famílias da pequena burguesia local. Rapidamente, estes prédios tornaram-se verdadeiros cartões de visita arquitetónicos do bairro, provando que o Miramar, na transição para a modernidade pós-colonial, era um tecido urbano dinâmico onde coexistiam o poder diplomático, a alta liderança do país e a força motriz do seu funcionalismo público.

A "Capital das Embaixadas" e o Reduto de Segurança


O Coração Diplomático: Uma Geopolítica no Alto da Colina

O Miramar consolidou-se no tecido urbano de Luanda como o verdadeiro centro de gravidade da diplomacia internacional em Angola. O bairro é amplamente conhecido por concentrar a maior parte das representações diplomáticas acreditadas no país. Morar ou estabelecer um escritório no Miramar significa partilhar o quotidiano com delegações de superpotências globais e missões diplomáticas de grande relevo estratégico.

Entre as representações mais imponentes e conhecidas da circunscrição estão as chancelarias e residências oficiais dos Estados Unidos da América, da República Federativa do Brasil, da Federação da Rússia e da República Popular da China. Caminhando pelas ruas e travessas do bairro, depara-se ainda com as representações da França, do Japão, do Gabão, do Vietnã, da Suécia e da Dinamarca. Esta extraordinária densidade de delegações estrangeiras moldou profundamente o perfil socioeconómico e a imagem pública do Miramar, tornando-o sinónimo de prestígio internacional.

A presença destas instituições também carrega uma fascinante sobreposição de camadas históricas. Um dos factos mais singulares do bairro, partilhado por moradores de longa data, refere que o terreno atualmente ocupado pela Embaixada dos Estados Unidos da América assenta sobre o que foi, entre 1624 e 1654 (período da ocupação de Luanda pelos holandeses), o Cemitério dos Holandeses. Assim, a moderna geopolítica do século XXI ergue-se diretamente sobre as fundações da atribulada história colonial do século XVII.

Esta forte presença institucional reflete-se de forma direta no mercado imobiliário local. O Miramar é classificado como uma área altamente nobre e cobiçada, onde as propriedades são extremamente valorizadas e vistas como excelentes investimentos para diplomatas, empresários ou executivos seniores de grandes companhias internacionais (notavelmente dos setores petrolífero e diamantífero).


Toponímia com História: Avenidas e Travessas de Prestígio

O traçado viário do Miramar é caracterizado por uma estrutura simples e simétrica, organizada essencialmente em torno de dois grandes quarteirões e duas avenidas principais, sendo que a grande maioria das restantes vias secundárias são, na verdade, travessas.

A avenida principal do bairro é a atual Rua Ndunduma. Esta importante artéria urbana já passou por três denominações distintas ao longo do último século, as quais acompanharam as profundas mutações políticas de Angola. No período colonial, chamava-se Rua António Enes, em homenagem ao jornalista, escritor e administrador português do século XIX. Em 1975, no calor da descolonização e pouco antes da proclamação da independência, passou a designar-se Rua das FAPLA. Este nome de transição foi adotado porque foi por aquela via que uma coluna das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA) marchou em direção à decisiva Batalha de Kifangondo, que garantiu o controlo de Luanda às vésperas da independência. Posteriormente, a rua foi rebatizada como Ndunduma, prestando tributo ao soberano Ndunduma, o histórico Rei do Bié que faleceu em 1899 em Moçambique, para onde fora desterrado pelo poder colonial.

A segunda grande avenida do bairro é a Rua Houari Boumedienne, batizada em honra do antigo Presidente da Argélia (que governou entre 1932 e 1978). No entanto, no quotidiano dos luandenses, esta via é amplamente conhecida e tratada pelo seu nome informal e descritivo: a Rua das Embaixadas.

As restantes ligações urbanas que cruzam o bairro são travessas resguardadas. Na parte baixa, destaca-se a Travessa Companhia de Jesus, que se estende a partir da antiga Praça Dom João II (rebatizada após a independência como Praça da Unidade Africana). Existe também a travessa que dá acesso ao histórico Miramar de Cima (ou Zona do Frias) e a Travessa da Bela Vista, que conduz à Rua Engenheiro Armindo de Andrade. Na zona alta do Miramar, outra importante travessa acolhe as delegações da Suécia, Dinamarca e do Brasil.


Ambiente e Segurança de Elite: O Silêncio sob Olhar Vigilante

A segurança é, por direito próprio, um dos maiores atributos do Miramar. Graças ao elevado número de embaixadas e às residências oficiais de embaixadores e membros do topo do aparelho governamental e militar angolano, o bairro beneficia de um nível de segurança máxima, incomparável com a generalidade das restantes áreas da capital.

O quotidiano residencial do Miramar é vigiado por um forte contingente humano e tecnológico. As ruas contam com o patrulhamento constante de forças da Polícia Nacional, que protegem especificamente o perímetro das chancelarias diplomáticas, apoiadas por equipas e viaturas de empresas de segurança privada altamente especializadas. Esta vigilância é complementada por sistemas de videovigilância residencial e pública, ligados a centros de controlo. Por esta razão, o Miramar goza de um ambiente calmo, sossegado e de total exclusividade.

Contudo, este cenário de exclusividade e tranquilidade noturna revela alguns contrastes curiosos nas dinâmicas de rua. Embora o Miramar seja uma zona nobre e o centro diplomático do país, quem o percorre à noite depara-se com uma surpreendente falta de iluminação pública em algumas das suas vias principais e secundárias.

Este défice de iluminação noturna, assinalado com frequência por visitantes e criadores de conteúdo que documentam a vida urbana de Luanda, cria uma atmosfera de penumbra que contrasta com a iluminação monumental das novas torres executivas e do hotel InterContinental no Eixo Viário. Apesar da escuridão, a aura de segurança do bairro é tão forte que não afasta as pessoas; é comum ver, mesmo nas áreas mais sombrias, pequenos grupos de cidadãos e trabalhadores sentados nas calçadas ou nos miradouros a conversar e a relaxar tranquilamente, tirando partido da brisa fresca e oxigenada que sopra das barrocas sobre o Atlântico.

O Mítico Cine Miramar: Glória, Ruína e Polémica


A Joia da Arquitetura Tropical e a Vanguarda Tecnológica

O Cine Miramar representou um dos pontos mais altos do desenvolvimento cultural e urbano de Luanda na segunda metade do século XX. Situado estrategicamente no alto da encosta do bairro, com a Avenida Marginal "a seus pés" e uma vista desimpedida para a Ilha de Luanda e para o oceano, o cinema foi inaugurado em 1959. Trata-se de uma obra-prima concebida pela prestigiada assinatura da dupla de irmãos e arquitetos João Garcia de Castilho e Luís Garcia de Castilho.

O espaço foi idealizado sob a égide do modernismo tropical, uma corrente arquitetónica que se espalhou por Luanda no início dos anos 60 com o objetivo de desenhar edifícios de fôlego que primassem pela beleza estética e pela funcionalidade de aliviar o calor sufocante da cidade, tirando partido da luz natural, da ventilação constante e da paisagem noturna. O Cine Miramar consistia num imponente anfiteatro ao ar livre estruturado em três patamares de betão voltados para um colossal ecrã de 23 metros de comprimento. A grandiosidade da infraestrutura assentava num requintado jogo de volumes e materiais como a pedra, o azulejo e o reboco, estendendo-se por uma esplanada com capacidade para acolher confortavelmente mais de 1500 pessoas, circundada por um exuberante jardim tropical. Num pormenor de extraordinário exotismo, um dos canteiros deste jardim ostentava um exemplar vivo de Welwitschia mirabilis, a icónica e rara planta trazida diretamente do deserto do Namibe.

Como cinema de vanguarda, a preocupação com a inovação tecnológica esteve sempre na primeira linha da sua gestão, que pertencia à Sulcine, uma importante rede de salas de cinema liderada por Ribeiro Belga (que também controlava salas emblemáticas como o Avis, o Kipaca, o Kilumba e o Lis). Em outubro de 1963, para comemorar o seu quarto aniversário, o Cine Miramar estreou a nível nacional a película "Flor de Lótus" em formato Panavision e Technicolor. Na mesma ocasião, inaugurou uma máquina de projeção revolucionária para a época, a Victoria 8, capaz de rodar películas de 30 e 70 milímetros com um sistema de amplificação sonora transistorizada. Foi também neste ecrã gigante que a sociedade angolana pôde assistir à estreia de "Temática Agrícola do Andulo", considerado um dos primeiros filmes integralmente produzidos a cores em Angola.


A Experiência Memorável: Noites de Cinema e as Tardes do Cazumbi

Ir ao Cine Miramar era muito mais do que assistir a uma mera projeção cinematográfica; era um ritual sensorial e social inesquecível que marcou gerações de luandenses. A experiência memorável consistia em ver grandes sucessos de bilheteira mundiais — como "Os Dez Mandamentos", "Lawrence da Arábia", "Trinitá, Cowboy Insolente", "Meu Nome é Ninguém" ou os clássicos de "Cantinflas"sob um céu estrelado incomparável, com o cheiro da maresia a misturar-se com os perfumes das pessoas.

Os frequentadores recordam com nostalgia que, ao olhar para a esquerda enquanto o filme decorria na tela gigante, era possível contemplar as luzes dos navios mercantes ao largo e a iluminação suave da Baía e do Porto de Luanda. Nos intervalos das sessões, o público convergia para o bar e esplanada do recinto para consumir batatas fritas, tremoços, algodão-doce, gelados, refrigerantes e as célebres cervejas nacionais Cuca e Nocal bem frescas. Servia-se também ali a Coca-Cola, um produto de luxo que na época não existia na metrópole portuguesa. Os assentos não eram marcados, o que criava uma divertida corrida ao bar nos intervalos: quem demorasse muito tempo a comprar a sua bebida corria o sério risco de ver o seu lugar ocupado por outro cinéfilo.

Além da sétima arte, as tardes de domingo ganharam uma aura mítica graças ao lendário Espetáculo Cazumbi, um programa de variedades e entretenimento de enorme sucesso estreado em dezembro de 1961. Concebido e apresentado pelo produtor, redator e empresário musical Luís Montez (em alternância com o Cinema Aviz), o Cazumbi contava também com a carismática apresentação de Alice Cruz e Artur Peres.

O Cazumbi funcionou como um verdadeiro viveiro e celeiro de talentos artísticos em Angola. Pelo seu enorme palco passaram figuras de relevo internacional, como a famosa artista espanhola Marisol, que atuou na sessão de estreia do programa. Foi também ali que muitos jovens músicos locais deram os seus primeiros passos no estrelato, incluindo Elmer Olavo Guerreiro Pessoa, carinhosamente conhecido como "Mitinho", que ali se estreou como rocker, munido da sua voz e guitarra elétrica. O espetáculo dominical manteve a sua extraordinária afluência até Luís Montez se retirar da produção, na sequência do trágico falecimento de um dos seus filhos.


O Abandono, a Polémica e a Futura Embaixada da China

Com a proclamação da independência e o eclodir da guerra civil, o Cine Miramar entrou num longo processo de declínio. O outrora vibrante polo boémio e cultural foi sendo progressivamente abandonado ao longo das décadas de 1980 e 1990, até que as suas sumptuosas estruturas modernistas ficaram reduzidas a ruínas vandalizadas, dominadas pelo lixo e pelo mato.

A situação do Cine Miramar alterou-se de forma drástica com a celebração de um acordo bilateral de cooperação diplomática. Em dezembro de 2013, o Ministério das Relações Exteriores de Angola (MIREX) e a Embaixada da República Popular da China assinaram uma nota de transmissão do direito de superfície. Através deste acordo, as ruínas do antigo cinema ao ar livre e os terrenos adjacentes na encosta que desce em direção ao Bungo foram formalmente adquiridos por um grupo chinês. O objetivo declarado desta transação é a construção de raiz do novo e monumental complexo edificado da Embaixada da China em Luanda, uma vez que as instalações anteriores da missão diplomática já não respondiam às necessidades de Pequim no país.

Atualmente, o espaço do antigo cinema encontra-se vedado por tapumes metálicos, fortemente policiado pelas forças de segurança e ostenta uma bandeira chinesa de grandes dimensões hasteada no seu interior. O Instituto Angolano do Cinema confirmou oficialmente que o espaço deixou de estar sob a tutela do Estado angolano, pertencendo agora a privados.

Este desfecho gerou uma intensa onda de polémica e contestação cultural na capital angolana. Diversos intelectuais, antigos moradores e historiadores lamentam a perda definitiva de uma das maiores joias da arquitetura modernista tropical-colonial do continente africano. O caso é frequentemente comparado à traumática destruição do antigo Mercado do Kinaxixi, reacendendo o debate público sobre a importância da salvaguarda e preservação da memória física e do património arquitetónico de Luanda face à pressão do desenvolvimento imobiliário e diplomático. Moradores históricos do Miramar defendem que deveria ter existido uma intervenção proativa do Estado angolano no sentido de negociar com o governo chinês a preservação de uma vertente cultural ou memorialista no novo complexo a edificar.

Outros Ícones Coexistentes no Tecido Urbano


O Miramar não se esgota no prestígio das suas embaixadas ou na monumentalidade das suas residências e hotéis de luxo. O bairro abriga um valioso conjunto de referências desportivas, sociais, religiosas e fúnebres que ajudam a tecer a sua identidade singular no panorama da capital angolana. Estes espaços constituem autênticos marcos de memória física e cultural, partilhados por várias gerações de luandenses.


O Clube dos Caçadores: Do Reduto Seletivo ao Desporto Olímpico

Uma das maiores e mais antigas referências institucionais do Miramar é o Clube dos Caçadores. No período colonial (conhecido localmente como o tempo da "outra senhora"), este clube funcionava como um espaço de lazer extremamente exclusivo, frequentado apenas pela alta sociedade. O nível de seletividade era tão rígido que mesmo os portugueses nascidos em Angola — pejorativamente apelidados na altura de "brancos de segunda" — viam o seu acesso vedado a este prestigiado recinto de tiro aos pratos.

Situado geograficamente na encosta esquerda das barrocas do Miramar, o clube assenta sobre uma zona fortemente cimentada para conter a erosão do solo, precisamente na via dupla que desce da Marginal em direção ao Eixo Viário até à zona do Bungo. Rodeado de belos jardins e dotado de uma vista panorâmica deslumbrante, o Clube dos Caçadores permitia aos seus utilizadores contemplar com nitidez as infraestruturas económicas e urbanas da Boavista. Figuras honradas trabalharam e geriram o espaço ao longo das décadas, incluindo Magalhães Paiva, que foi morador de longa data no bairro e tesoureiro do clube.

Com a proclamação da independência, o destino do clube acompanhou a revolução social do país. O recinto passou a ser gerido pela agremiação desportiva militar 1º de Agosto. Despido do cariz elitista do passado, o espaço manteve a sua vocação desportiva e tornou-se a sede habitual do Campeonato Nacional de Tiro na especialidade de fosso olímpico, sob a égide organizativa da Federação Angolana de Tiro. Hoje em dia, o antigo Clube dos Caçadores apresenta uma esplanada requintada e instalações remodeladas com painéis envidraçados, conservando a sua mítica paisagem sobre a cidade e o mar.


As Barrocas do Miramar e a Pista de Motocross

Antes de os planos de ordenamento urbano do final dos anos 70 regularizarem e ajardinarem a encosta que se estende desde o Cine Miramar até ao Eixo Viário, as barrocas do bairro possuíam uma dinâmica desportiva vibrante. Se, por um lado, as ravinas e encostas de terra vermelha serviam ocasionalmente para depositar resíduos sólidos, por outro, constituíram o palco de uma das modalidades desportivas mais populares de Luanda: o motocross.

A mítica pista de terra vermelha das barrocas do Miramar era previamente borrifada com água por camiões cisterna da Câmara Municipal para baixar a poeira antes do início das corridas. Nos finais de semana, milhares de pessoas provenientes de bairros populares vizinhos — como o Sambizanga, o Bairro Operário, o São Paulo, o Cruzeiro, o Rangel e o Prenda — subiam a colina para vibrar com as gincanas de motorizadas.

O auge do motocross ocorreu por volta de 1973, mobilizando, segundo cronistas e jornalistas locais, "quase Luanda inteira" em torno de prémios patrocinados por influentes companhias da época. Da "malta da mota", destacaram-se corredores lendários como Mabeco, Marito, Russo da Garelli, Nandito, Zé Ideias, Stop, Carlos Magalhães, Toni Sanguito, Carlos Aniceto, Zeca Mulato, César Peixe e Zé Tó. Um dos episódios mais recordados pelos antigos frequentadores foi a exibição fenomenal do corredor Stop, que, pilotando uma motorizada de apenas 250 centímetros cúbicos, bateu pilotos belgas e congoleses que competiam com potentes motos de 500 centímetros cúbicos.

As barrocas também uniam os mundos da periferia e do asfalto. O bairro do Sambizanga tinha ali o seu grande herói na figura de Daniel Bumba "Man Henhela" (carinhosamente apelidado de "Nariz de Batata"), cuja coragem nas pistas serviu de inspiração para várias gerações de rapazes do gueto. Outros jovens corredores como Bianchi, Manecas, Lili, Jado e Marito também faziam vibrar a plateia. Terminadas as provas e o ruído dos motores, era tradição os rapazes descerem a colina em direção à Boavista para dar mergulhos na praia da Rotunda ou do Ferrovia, junto à antiga Casa de Reclusão.


Brincadeiras de Infância e a Caça ao Tesouro nas Barrocas

Para as crianças que cresceram no Miramar e nos bairros circundantes no pós-independência, as encostas de terra vermelha eram um parque de diversões natural e infinito. Uma das brincadeiras mais populares e arriscadas consistia em arremessar pneus velhos encosta abaixo, em direção à zona da Boavista. O objetivo travesso dos garotos era fazer com que os pneus rolassem até perto das cubatas locais, apenas para verem os proprietários correr atrás deles.

Outra diversão comum envolvia as "escorregas de papelão", as trotinetas e os carrinhos de rolamentos. Os rapazes utilizavam folhas de cartão para deslizar pelas descidas íngremes do Eixo Viário ou das encostas arenosas, voltando a subir a colina com os brinquedos ao ombro, sob um sol ardente.

Adicionalmente, as lixeiras temporárias instaladas nas barrocas funcionavam como um campo de exploração. Crianças dos bairros vizinhos (Marçal, Cazenga, Cacuaco, Prenda) subiam a encosta sob o pretexto de assistir ao motocross, mas passavam horas no aterro sanitário à procura de pequenos objetos, brinquedos ou artigos valiosos descartados pela elite do Miramar.


O Mítico "Comboio" do Miramar: De Campo de Futebol a Templo do Rock

A curta distância do Cine Miramar encontra-se outro local carregado de simbolismo pop e desportivo: a zona do "Comboio". No período colonial, este espaço plano era um vasto terreno pelado que funcionava como o campo de futebol dos miúdos do bairro.

Foi nesses campos pelados e secos — como o campo de terra vermelha vizinho ao Alto das Cruzes, conhecido pela sua areia densa que exigia uma resistência física invulgar aos atletas — que se formaram grandes nomes do futebol nacional. Foi no Miramar que o prestigiado treinador do 1º de Agosto, Mário Imbeloni, descobriu talentos puros como Mano Mano, Macaca, Miguel, Gomito (Jorge Gomes) e Bakalof. O campo de areia acabou por desaparecer na década de 1970 para dar lugar ao Complexo Habitacional dos Suecos.

Contudo, a grande lenda do local nasceu quando ali foram instaladas antigas carruagens de comboio de passageiros originárias da estação ferroviária do Bungo, situada mesmo no sopé da colina. Até ao final da década de 1990, essas carruagens históricas — com quase um século de idade — foram convertidas num dos mais famosos bares de rock de Luanda. Beber uma cerveja ou um refrigerante sentado no interior de um vagão de madeira restaurado, apreciando uma vista monumental sobre a baía e as luzes da cidade, tornou-se num programa obrigatório da juventude boémia luandense.

O "Comboio do Miramar" atingiu um estatuto de culto tão elevado que, entre 1995 e 2000, não havia músico ou banda em Luanda que não fizesse questão de gravar um videoclipe no local. Ter o comboio e a baía como plano de fundo era a assinatura estética de sucesso de qualquer produção audiovisual da época. Com a viragem do milénio, o bar acabou por fechar. Sem manutenção, as carruagens e a antiga quadra de basquetebol adjacente (conhecida como "Pancho", onde gerações praticaram a modalidade) degradaram-se de forma acentuada, restando hoje estruturas abandonadas que recordam com nostalgia os anos dourados da boémia do bairro.


O Cemitério do Alto das Cruzes: O Panteão Histórico da Elite

Defronte ao moderno hotel InterContinental e no limite do bairro com a Cidade Alta ergue-se o Cemitério do Alto das Cruzes, uma necrópole pública e multiconfessional gerida pelo Governo Provincial de Luanda. Construído em 1859, o Alto das Cruzes é um dos campos santos mais antigos, famosos e historicamente significativos de Angola.

Antes da sua edificação formal, o local já servia como espaço de sepultamento espontâneo, sendo caracterizado pela presença de vários cruzeiros de madeira que assinalavam as covas na terra vermelha. Com a sua inauguração em 1859, a elite colonial portuguesa, que até então era sepultada no antigo cemitério da Igreja do Carmo (na Mutamba), passou a eleger o Alto das Cruzes como a sua última morada.

O cemitério rapidamente se tornou num espaço restrito e de enorme prestígio social. No seu interior repousam importantes precursores da história e da intelectualidade angolana, como Pedro da Paixão Franco, pioneiro do jornalismo nacional, e Alfredo Troni, escritor e fundador do histórico jornal Mukuarimi na segunda metade do século XIX.

No pós-independência, o campo santo manteve a sua aura de exclusividade. O Alto das Cruzes continuou a ser reservado para funerais de Estado, figuras da elite política e militar (como o antigo Presidente da República José Eduardo dos Santos, que ali repousa em paz), jornalistas renomados, intelectuais e membros de famílias tradicionais luandenses que possuíam jazigos e talhões de família.

Pela impressionante riqueza e conservação das suas sepulturas, o cemitério é reconhecido nacionalmente como uma das maiores referências do país na área da arte tumular (lado a lado com o Cemitério de Sant'Ana). Esta relevância valeu-lhe a classificação oficial como parte do Património Histórico-Cultural de Angola através de um despacho ministerial de 26 de maio de 2000. Após mais de 160 anos de atividade e sucessivas ampliações, o cemitério do Alto das Cruzes deixou oficialmente de receber novos sepultamentos em outubro de 2023, por ter atingido o esgotamento definitivo da sua capacidade.


A Igreja de Nossa Senhora da Nazaré: Fé e História à Beira-Mar

Embora situada na base da encosta do Miramar, mesmo em frente à Avenida Marginal 4 de Fevereiro e junto à Baía de Luanda, a Igreja de Nossa Senhora da Nazaré é uma referência espiritual indissociável do bairro.

Este templo católico de arquitetura barroca e maneirista foi erguido em 1664 por iniciativa do então governador de Angola, André Vidal de Negreiros. O governador, que celebrizara o seu nome na história militar ao combater e expulsar os holandeses do Nordeste do Brasil, mandou construir a igreja como um voto de profunda gratidão a Deus por ter sobrevivido a um terrível naufrágio durante a sua atribulada viagem marítima do Brasil para assumir o governo de Angola. Uma lápide comemorativa em pedra, colocada sobre o portal de entrada de verga reta, atesta a data da fundação.

Apesar do voto pessoal de Negreiros, a igreja foi dedicada e decorada para celebrar a importante vitória portuguesa na Batalha de Ambuíla contra o Reino do Congo. No interior do templo, a capela-mor, o arco triunfal e a nave retangular encontram-se revestidos por magníficos painéis de azulejos historiados a azul e branco. Estes azulejos retratam cenas da batalha, bem como episódios da vida de Nossa Senhora e de Santa Ifigénia da Etiópia. Num detalhe de profunda carga histórica, foi nas fundações desta igreja que foi sepultada a cabeça do rei António I do Congo, que pereceu nos combates de Ambuíla.

Classificada como Monumento Nacional em 1922, a Igreja da Nazaré preserva quase intactas as suas linhas arquitetónicas originais, destacando-se a fachada sóbria com frontão triangular, um óculo, alpendres laterais com arcadas (típicos das antigas igrejas de peregrinação) e uma pequena torre sineira disposta no lado direito. Trata-se de um dos monumentos mais antigos e visitados da orla costeira de Luanda.

A Coqueluche Moderna: O Hotel InterContinental Luanda Miramar


Um Monumento de Luxo com Silhueta de Diamante

Com o despontar da década de 2020, a fisionomia urbana do Miramar ganhou uma nova e imponente referência que redefiniu a linha de horizonte do bairro e de toda a cidade. No entroncamento estratégico da zona do Eixo Viário, ergue-se o Hotel InterContinental Luanda Miramar, considerado de imediato a grande coqueluche moderna da circunscrição.

Trata-se de um investimento monumental da petrolífera estatal Sonangol, orçado em mais de setenta mil milhões de kwanzas. Esta imponente obra de engenharia foi inaugurada oficialmente no dia 11 de novembro de 2020 pelo Presidente da República, João Lourenço, numa data carregada de simbolismo em que se celebravam exatamente os 45 anos da Independência Nacional de Angola.

Concebido como o primeiro hotel oficial de cinco estrelas do país, o edifício impressiona pela sua dimensão e arrojo estético. O seu design, assinado por um prestigiado grupo sul-coreano de arquitetura, foi diretamente inspirado nos contornos graciosos de um diamante lapidado. O arranha-céus de 25 andares estende-se por uma área total de 53.153 metros quadrados e oferece 389 quartos de alto padrão. A sua fachada exterior, integralmente revestida a vidro, reflete as variações de luz da Baía de Luanda e capta de imediato a atenção de quem desce o Eixo Viário, contrastando de forma marcante com o vizinho e histórico panteão do cemitério do Alto das Cruzes.


O Novo Epicentro Gastronómico e Social de Luanda

Mais do que uma luxuosa unidade de alojamento para executivos e diplomatas, o InterContinental Luanda Miramar afirmou-se como um vibrante polo de lazer e alta gastronomia para a sociedade luandense. O hotel dispõe de um leque diversificado de espaços que combinam sofisticação e criatividade:

  • Restaurante Curadoria: Localizado no primeiro andar, apresenta um conceito culinário que combina propostas de fusão internacionais e tradicionais pratos nacionais. O espaço é muito procurado pelo seu requintado buffet de almoço executivo de segunda a sexta-feira, ideal para reuniões de negócios.
  • Le Petit Choux: O requintado café e lobby lounge situado ao nível do átrio. É o ponto de encontro ideal para reuniões rápidas e café de especialidade, destacando-se o célebre evento "Bubbly Monday at sunset", no qual os visitantes podem saudar a semana com uma taça de espumante e contemplar o pôr-do-sol entre as 17h00 e as 18h00.
  • La Boqueria: Um vibrante bar de tapas que oferece noites temáticas com sabores que vão desde raviólis artesanais a arroz de pato e mariscos frescos.
  • Peri Peri Pool Bar & Grill: Situado no quarto andar, junto à piscina exterior, convida a um ambiente mais descontraído com pizzas e pães sírios cozidos em forno a lenha, hambúrgueres gourmet e as muito apreciadas noites de Doner Kebab às quintas e sextas-feiras.

O Brunch do 24º Andar: Uma Vista Singular sobre o Atlântico

De todas as experiências proporcionadas pela unidade hoteleira, nenhuma conquistou tanta fama na capital como o prestigiado brunch de fim de semana. Realizado todos os sábados e domingos, das 12h00 às 16h00, o evento tem lugar no exclusivo Sky Lounge, situado no 24º andar do edifício.

O brunch é amplamente considerado um dos mais completos, fartos e recheados de Luanda, destacando-se pela generosa variedade de pastelaria francesa, salmão fumado, saladas frescas, mimosas de boas-vindas e pratos quentes. No entanto, o verdadeiro elemento diferenciador é a atmosfera do local. Decorado de forma simples, sóbria e elegante, o Sky Lounge oferece uma vista panorâmica absolutamente singular e desimpedida sobre a Baía de Luanda, a Ilha do Cabo e o Porto.

A enorme procura por esta experiência social de elite dita a necessidade de reserva antecipada. Os preços para desfrutar desta tarde gastronómica nas alturas variam consoante o posicionamento: 40.000 kwanzas por pessoa para quem exige uma mesa diretamente junto à janela com vista para o mar, e 35.000 kwanzas para as restantes mesas interiores. O pacote inclui água, sendo as restantes bebidas pagas à parte, e conta com uma política familiar acessível, na qual crianças até aos 4 anos estão isentas de pagamento e jovens a partir dos 12 anos pagam metade do valor.

Desta forma, o InterContinental Luanda Miramar ergue-se não apenas como um símbolo de betão e vidro do novo luxo angolano, mas como um ponto de encontro onde a elite contemporânea e os visitantes internacionais se reúnem para celebrar a vida e contemplar a mesma baía mítica que, décadas antes, era vigiada pelo Cine Miramar ao ar livre.

O Eterno Miradouro de Luanda

O Miramar é, por excelência, o espelho das grandes transformações e contrastes que moldam a identidade de Luanda. Ao percorrermos as suas ruas e encostas, viajamos por diferentes tempos e narrativas: a colina de capim bravio desbravada nos anos 1930, o esplendor e a vanguarda tropical do mítico Cine Miramar, as gincanas de motocross que uniam o asfalto e a periferia, o panteão de memórias do Alto das Cruzes, a sobriedade geopolítica das suas embaixadas protegidas e, finalmente, a modernidade imponente do hotel InterContinental.

Apesar de todas as mofas do tempo, o Miramar conserva intacto o seu maior e mais precioso património: a capacidade de nos elevar acima do bulício da baixa luandense e de nos oferecer um ar fresco, oxigenado e uma vista infinita sobre o oceano Atlântico. O Miramar continua, fiel ao seu próprio nome, a mirar o mar de Luanda.