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Exportar para ter dólares

Angola precisa de mais dólares fora do petróleo. Mas quem exporta café, peixe ou granito recebe menos kwanzas por cada dólar do que ele vale, e os custos sobem todos os anos. As regras ajudam ou travam?

Em resumo

Fora do petróleo e dos diamantes, Angola exporta muito pouco: cerca de 2% de tudo o que vende ao mundo. Para estes exportadores, o problema não são as regras mais faladas do mercado cambial, que se aplicam ao petróleo e aos diamantes. O problema é outro: o dólar que vendem ao banco vale quase o mesmo há dois anos, enquanto os custos em kwanzas sobem com a inflação. Exportar ficou menos rentável precisamente quando o país mais precisava de mais exportações.

ANÁLISE ANGOLAEXPERT


O problema de fundo: o país precisa de dólares, e quem os traz ganha menos

Nos episódios anteriores vimos que o petróleo traz a maior parte dos dólares a Angola, mas que só uma pequena parte chega aos bancos. A solução mais falada é exportar outras coisas: café, peixe, granito, banana. Cada dólar que um exportador traz e vende ao banco é um dólar a mais para quem está na fila para importar.

Mas exportar é um negócio. O exportador recebe em dólares, paga quase tudo em kwanzas: salários, combustível, transporte, rendas. O que lhe interessa é quantos kwanzas recebe por cada dólar. E é aí que as regras do mercado cambial entram.

Gráfico de barras comparando vendas de dólares por bancos angolanos em 2024 e 2025, com variações percentuais.
Fora do petróleo e dos diamantes, Angola exporta pouco

Fora do petróleo e dos diamantes, Angola exporta pouco


Em 2025, Angola exportou cerca de 30,6 mil milhões de dólares em bens. O petróleo e o gás foram cerca de 92%. Os diamantes, cerca de 6%. Tudo o resto, café, peixe, granito, cimento, garrafas, sabão, cerca de 2%: aproximadamente 650 milhões de dólares no ano inteiro [1].

Há setores a crescer. O café exportado rendeu cerca de 10,2 milhões de euros em 2025, mais 51,8% do que no ano anterior, com 3 288 toneladas vendidas sobretudo para Portugal, Polónia e Itália [7]. Mas o valor é pequeno. O granito exportado rendeu cerca de 31 milhões de dólares nos primeiros nove meses de 2024 [8]. Para comparação, o país importa cerca de dois mil milhões de dólares por mês.

Esta é a primeira lição: as exportações fora do petróleo podem crescer muito depressa em percentagem e continuar a ser demasiado pequenas para mudar a fila dos dólares no curto prazo.


As regras mais rígidas são para o petróleo e os diamantes


Duas regras do mercado cambial são muitas vezes citadas como travões às exportações.

A primeira: quando os bancos compram dólares às petrolíferas e às empresas de diamantes, são obrigados a revender 30% desses dólares a outros bancos, à taxa média de compra do banco central [2]. O objetivo declarado é dar mais movimento ao mercado.

A segunda: na plataforma Bloomberg, onde se fazem as grandes vendas de divisas, há limites ao preço que os bancos podem oferecer às empresas do setor extrativo: petróleo, diamantes e gás [1].

Na prática, estas empresas vendem os dólares perto da taxa oficial de 912 kwanzas, enquanto no mercado paralelo o dólar vale entre 20% e 24% mais [4]. Recebem, portanto, cerca de 81% a 83% do que o dólar vale no paralelo.

Isto trava as exportações de diamantes? Provavelmente pouco. A produção de diamantes depende sobretudo das minas e dos preços internacionais. A nova mina do Luele quase duplicou os quilates exportados [11], apesar destas regras. E as empresas de diamantes só trocam por kwanzas a parte de que precisam para pagar custos locais: cerca de 62% do valor exportado em 2025 [1][5]. O efeito principal das regras não é exportar menos, é que cada dólar convertido rende menos kwanzas ao exportador.


Para o café, o peixe e o granito, o problema é outro


Os pequenos exportadores não estão abrangidos por estas duas regras. Vendem os dólares ao seu banco, no atendimento normal. Mas também aí o preço tem um teto informal. Segundo o FMI, os bancos evitam pagar mais do que cerca de 6% a 12% acima da taxa de referência, em parte porque a lei pune a "especulação" cambial como crime [1]. Na prática, um exportador de café recebe entre cerca de 967 e 1 021 kwanzas por dólar, abaixo dos 1 094 a 1 131 do mercado paralelo.

Há uma vantagem: o exportador pode manter os dólares numa conta em moeda estrangeira e usá-los para pagar diretamente o que compra lá fora [3]. Um exportador que importa máquinas, embalagens ou adubos não precisa de entrar na fila do banco. Exportar dá-lhe, literalmente, os seus próprios dólares.

Mas o maior problema não é a regra. É o tempo.


O dólar ficou parado, os custos não


Desde o fim de 2024, a taxa oficial está praticamente fixa em 912 kwanzas por dólar [4]. Em 2025, os preços em Angola subiram 15,7% [1]. O FMI chama a isto valorização real do kwanza: a moeda fica mais forte em termos reais porque o seu valor face ao dólar não acompanha a subida dos preços cá dentro [1].

Para um exportador, isto significa o seguinte. Imagine-se, como exemplo, um produtor de café que vende 100 mil dólares por ano e tinha custos de 80 milhões de kwanzas em 2024. Em 2024 e em 2025, os mesmos 100 mil dólares rendem-lhe os mesmos 91,2 milhões de kwanzas à taxa oficial. Mas se os custos subirem ao ritmo da inflação, passam para cerca de 92,6 milhões em 2025. O lucro de 11,2 milhões transforma-se num prejuízo de 1,4 milhões, sem que nada tenha mudado no café nem no cliente estrangeiro.

O exemplo é simplificado, mas mostra o mecanismo. Quando o câmbio fica parado e os custos sobem, quem vende em dólares e paga em kwanzas fica espremido. E são precisamente os exportadores com mais custos locais, agricultura, pesca, pedreiras, que mais o sentem.

O granito já mostra sinais disto. O setor queixa-se de custos de produção elevados face a Itália, Espanha, Polónia e China, e de falta de crédito [8].


O que isto tem a ver com os portos


No episódio sobre os portos vimos que Namibe e Lobito vivem sobretudo de exportações. No Namibe, as rochas ornamentais vindas sobretudo da Huíla representam cerca de metade da carga [9][8]. Um granito menos rentável significa menos navios no Namibe.

Por isso, a política cambial é também política portuária. Se os portos fora de Luanda só ganham carga quando há exportações, tudo o que reduz a rentabilidade de exportar reduz também o retorno desses portos.


O que isto significa: o câmbio parado pesa mais do que as regras


A resposta à pergunta deste artigo tem duas partes.

As regras mais rígidas, a revenda obrigatória de 30% e os limites de preço na Bloomberg, aplicam-se ao petróleo e aos diamantes. Reduzem quanto essas empresas recebem por cada dólar, mas dificilmente mudam quanto exportam, porque isso depende das minas e dos poços.

Para os pequenos exportadores, o travão maior é a combinação de um câmbio parado com inflação alta. Cada ano em que a taxa oficial fica fixa e os preços sobem, exportar café, peixe ou granito rende menos em kwanzas. É o contrário do incentivo de que o país precisa.

Para quem investe ou financia exportações fora do petróleo, isto tem consequências práticas:

  • Um projeto de exportação tem de ser avaliado com a taxa que o exportador recebe, não com a do paralelo. A diferença pode ser de 10% a 20%.
  • Os setores com mais custos em kwanzas são os mais expostos. Um exportador que importa muitos insumos sofre menos, porque usa os próprios dólares.
  • Um ajustamento do câmbio ajudaria os exportadores, ao contrário do que acontece com os importadores. Quem tem receitas em dólares e custos em kwanzas ganha quando o dólar fica mais caro.

O indicador a acompanhar: as exportações de "tudo o resto", fora do petróleo e dos diamantes, nas contas do FMI. Passaram de cerca de 614 milhões de dólares em 2024 para cerca de 648 milhões em 2025, mais 5,5% [1]. Se continuarem a crescer devagar enquanto o câmbio estiver parado, a tese deste artigo confirma-se. Se acelerarem depois de um eventual ajustamento cambial, também.

Fontes

  1. Fundo Monetário Internacional — Angola: 2026 Article IV Consultation, Country Report n.º 26/94 (maio 2026).
  2. Forbes África Lusófona — Bancos obrigados a repassar ao mercado interbancário 30% das divisas que compram (diretiva do BNA de 13 de setembro de 2024).
  3. Banco Nacional de Angola — Aviso n.º 4/17, de 28 de junho (operações cambiais de exportação).
  4. Banco de Fomento Angola — Relatório de Conjuntura, 3.º trimestre de 2026.
  5. Expansão — Bancos ficaram com mais 1 186,2 milhões USD do que em 2024.
  6. Expansão — A conta externa angolana: dependência petrolífera persistente e diversificação adiada (opinião).
  7. Forbes África Lusófona — Café angolano dispara 51,8% nas exportações (dados do INCA).
  8. Expansão — Paralisação da construção civil afunda setor das rochas ornamentais.
  9. O País — Entrevista ao administrador do Porto do Namibe (2025).
  10. Banco de Fomento Angola — Nota sobre exportações (2024).
  11. Ver Angola / INE — Anuário de Estatísticas do Comércio Externo 2025.

Última verificação: 3 de outubro de 2026. Onde as fontes divergem, a divergência é apresentada no texto e não resolvida artificialmente. As taxas recebidas pelos exportadores são estimativas da AngolaExpert com base no FMI e no BFA. O exemplo do produtor de café é ilustrativo.

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