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Sector Eléctrico Angolano: Reformar e Investir ao Mesmo Tempo
O problema de fundo

A electricidade angolana passa por três empresas públicas separadas desde 2014: a PRODEL produz, a RNT transporta em alta tensão e a ENDE distribui até ao consumidor final [1]. Esta cadeia — PRODEL vende à RNT, a RNT entrega à ENDE, a ENDE cobra ao cliente — só funciona se o dinheiro circular em todas as direcções. Durante anos, não circulou.
A causa raiz é conhecida: o preço da electricidade cobrado ao consumidor não cobre o custo real de a produzir e distribuir, e o Estado tem vindo a compensar essa diferença através de subsídios, que consumiam cerca de 0,9% do PIB em 2018 [2]. A ENDE, no fim da cadeia, sofre com perdas técnicas e comerciais elevadas — electricidade produzida e transportada, mas nunca facturada ou paga — e por isso atrasa os pagamentos à RNT, que por sua vez atrasa os pagamentos à PRODEL. Em 2023, um responsável do sector chegou a descrever as três empresas como financeiramente falidas [3], e a dívida acumulada da ENDE à RNT ultrapassava os 400 mil milhões de kwanzas [4]. Sem uma tarifa que reflicta os custos reais, dificilmente have há investimento privado significativo no sector [3].
É este ciclo — perdas, dívida entre empresas, dependência de subsídios e de capitalizações do Tesouro — que qualquer reforma do sector eléctrico angolano tem de resolver. A questão em debate não é se este problema existe, mas qual a ordem certa para o resolver: sanear primeiro as finanças e só depois expandir a rede, ou fazer as duas coisas ao mesmo tempo. É essa escolha que Angola já fez, na prática, nos últimos dois anos.

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O sector eléctrico angolano já escolheu: reformar e investir ao mesmo tempo
A ideia de que Angola deve primeiro sanear as finanças da PRODEL, da ENDE e da RNT para só depois investir em novas redes é uma sequência clássica da literatura sobre reforma de serviços públicos: sem disciplina comercial na base, qualquer investimento em infra-estrutura corre o risco de ser financeiramente insustentável. É uma lógica sólida. Mas os dados mais recentes do sector mostram que não é essa a aposta do Governo angolano — e essa diferença é o que vale a pena discutir.
O ponto de partida era mesmo grave
Há um ano, técnicos do sector descreviam as três empresas — PRODEL (produção), RNT (transporte) e ENDE (distribuição) — como financeiramente insolventes [1]. Um cálculo da Expansão sobre as contas de 2023 apontava uma dívida da ENDE à RNT superior a 400 mil milhões de kwanzas [2]. Em resposta, o Governo emitiu, no início de 2025, Obrigações do Tesouro no valor de 66 mil milhões de kwanzas — 22 mil milhões para cada empresa — especificamente para as recapitalizar [2][3].
A reforma comercial já está em curso — e a dar resultados
A ENDE fechou 2025 com lucro de 7,71 mil milhões de kwanzas, reduziu as perdas totais de 21,5% para 18,5% e aumentou a recuperação de dívida em 183%, o equivalente a 6.401 GWh de energia que antes não se convertia em receita. A cobertura do sistema pré-pago subiu para 42,69% e o EBITDA atingiu 5,49 mil milhões de kwanzas [4]. São exactamente os indicadores — facturação, perdas, cobrança — que qualquer plano de estabilização comercial teria como objectivo de "primeira fase".
Ao mesmo tempo, a Lei n.º 6/25, de 23 de Julho, alterou a Lei Geral da Electricidade para abrir a comercialização de energia a operadores privados, mediante licença e supervisão do regulador [5]. O ministro da Energia e Águas, João Baptista Borges, confirmou que o modelo entra em vigor a partir de 2026, com um Comité de Reforma do Sector Eléctrico — que já teve pelo menos duas reuniões, em Janeiro e Abril de 2026 — a desenhar os detalhes [5][6][7]. Nesse modelo, os privados recebem os activos da rede de distribuição, os sistemas de contagem e cobrança, e passam a fazer novas ligações, reparações e facturação, pagando à ENDE uma taxa pela utilização da infra-estrutura [5]. A tarifa mantém-se única em todo o país, com diferenças de custo regionais absorvidas por subsidiação cruzada [5].
A expansão da rede não esperou pela reforma comercial
Nada disto suspendeu a expansão da rede. Em Setembro de 2026, o Ministério da Energia e Águas apresentava a capacidade instalada do país em cerca de 6.400 MW, com cerca de 70% de origem renovável, e destacava avanços na interligação eléctrica entre regiões [8]. A RNT continua a executar o seu plano de expansão da rede de alta e muito alta tensão para o Sul [9]. Ou seja: a recapitalização das três empresas, a abertura da comercialização a privados e o investimento em infra-estrutura estão a decorrer em paralelo, não em sequência.
O que isto significa
A pergunta que vale a pena colocar não é se Angola deveria sanear antes de investir — isso já não está em cima da mesa. É se este modelo paralelo consegue evitar o risco clássico de qualquer reforma feita em simultâneo: a de que o investimento em infra-estrutura absorva recursos e atenção de gestão que a reforma comercial ainda precisa para se consolidar. Os números da ENDE em 2025 são um sinal positivo, mas são de uma só empresa e de um só ano; a PRODEL e a RNT, a montante e a jusante da ENDE, não têm ainda resultados públicos comparáveis. A dívida entre elas, avaliada em mais de 400 mil milhões de kwanzas em 2023 [2], é o indicador a seguir: se continuar a cair à medida que a comercialização privada se expandir a partir de 2026, o modelo paralelo terá sido validado. Se persistir, o argumento a favor de travar novos investimentos até a cadeia de pagamentos estar resolvida ganha força.
Fontes:
- Expansão — Aprovado o diploma que vai liberalizar o sector eléctrico (Janeiro 2025): https://expansao.co.ao/angola/detalhe/aprovado-o-diploma-que-vai-liberalizar-o-sector-electrico-e-o-transporte-da-electricidade-63616.html
- Expansão — 66 mil milhões Kz em obrigações para recapitalizar empresas do sector eléctrico (Fevereiro 2025): https://expansao.co.ao/empresas/detalhe/66-mil-milhoes-kz-em-obrigacoes-para-recapitalizar-empresas-do-sector-electrico-64034.html
- Novo Jornal — Angola vai emitir Obrigações do Tesouro para capitalizar ENDE, PRODEL e RNT (Fevereiro 2025): https://novojornal.co.ao/economia/detalhe/angola-vai-emitir-obrigacoes-do-tesouro-ate-ao-limite-de-66-mil-milhoes-de-kwanzas-para-capitalizar-ende-prodel-e-rnt-63971.html
- Economia e Finanças — ENDE fecha 2025 com lucro de 7,71 mil milhões de kwanzas: https://www.economiaefinancas.ao/noticias/168/mercado/625150/ende-fecha-2025-com-lucro-de-771-mil-milh%C3%B5es-de-kwanzas
- Angola24Horas — Angola quer privados na comercialização de energia já em 2026 (Dezembro 2025): https://angola24horas.com/sociedade/item/33302-angola-quer-privados-na-comercializacao-de-energia-ja-em-2026
- RNA — Vem aí um novo modelo tarifário, comercial e de mercado (Janeiro 2026): https://rna.ao/rna.ao/2026/01/20/vem-ai-um-novo-modelo-tarifario-comercial-e-de-mercado-no-sector-electrico-nacional/
- MINEA — Ministro da Energia e Águas preside à segunda reunião do Comité de Reforma do Sector Eléctrico (Abril 2026): https://minea.gov.ao/web/noticias/ministro-da-energia-e-aguas-preside-a-segunda-reuniao-do-comite-de-reforma-do-sector-electrico
- MINEA — Ministério da Energia e Águas destaca reforma do sector eléctrico (Setembro 2026): https://minea.gov.ao/
- RNT-EP — Operação do Sistema: https://www.rnt.co.ao/operacao-do-sistema/
Última verificação: 27 de Setembro de 2026.

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