Quanto custa a cesta básica em Luanda?
Quanto custa a cesta básica em Luanda?
Quanto Custa Viver em Angola — Episódio 3
Em Agosto de 2026, a inflação em Angola foi de 8,78%. É o valor mais baixo em muitos anos, e a segunda vez consecutiva que fica abaixo dos 10% desde que o Instituto Nacional de Estatística começou a compilar a série, em 2015.
Mas há um segundo número no mesmo comunicado que conta a história verdadeira. Dos 8,78 pontos percentuais de inflação, a classe "Alimentação e bebidas não alcoólicas" contribuiu sozinha com 6,01. Quase dois terços de toda a subida de preços do país veio daquilo que se põe na mesa.
O que é a cesta básica, afinal
A expressão é usada de duas maneiras diferentes, e convém separá-las.
No sentido estatístico, o cabaz do IPCN é uma lista de bens e serviços que o INE acompanha todos os meses para medir a inflação. Inclui comida, mas também transporte, renda, saúde, educação e tudo o resto. Os pesos de cada classe saíram do Inquérito sobre Despesas e Receitas, realizado junto de 12.448 agregados familiares em todas as províncias.
No sentido corrente — o que as pessoas usam no mercado — a cesta básica é outra coisa: o conjunto de alimentos essenciais que uma família precisa de comprar para comer durante um mês. Arroz, feijão, óleo, açúcar, fuba de milho e de bombó, massa alimentar, farinha de trigo, sal, peixe seco, coxa de frango.
Este episódio trata sobretudo do segundo sentido, mas usa o primeiro para o medir.
Uma armadilha: inflação a descer não é preços a descer
Esta confusão é quase universal, e vale a pena desfazê-la com cuidado, porque muda completamente a leitura das notícias económicas.
Quando o INE anuncia que a inflação desceu de 16,56% para 8,78%, muita gente entende que os preços baixaram. Não baixaram. Continuam a subir — apenas a metade da velocidade a que subiam antes.
Uma comparação simples: um carro que abranda dos 100 para os 50 quilómetros por hora continua a afastar-se de casa. Está mais lento, mas não está a voltar para trás.
Aplicado ao mercado: se um saco de arroz custava 10.000 kwanzas e a inflação alimentar for de 10%, passa a custar 11.000. Se no ano seguinte a inflação descer para 5%, o saco não volta aos 10.000 — vai para 11.550. A desaceleração é boa notícia para quem compra, mas não devolve nada do que já subiu.
É por isso que tantas famílias dizem não sentir melhoria nenhuma quando a inflação desce. Não estão enganadas. O nível dos preços continua no ponto mais alto de sempre; o que mudou foi apenas o ritmo a que continua a subir.
O peso da comida no orçamento
Há uma razão estrutural para a alimentação dominar a inflação angolana, e não é o facto de os alimentos subirem mais depressa do que tudo o resto. Não sobem.
Em Junho de 2026, a classe "Alimentação e bebidas não alcoólicas" subiu 10,73% em termos homólogos. Nesse mesmo mês, os transportes subiram 15,40% e a educação 13,40%. A comida não foi sequer a classe que mais encareceu.
E, ainda assim, foi a que mais fez subir o índice: 6,53 pontos percentuais em Junho, 6,01 em Agosto, muito à frente de todas as outras.
A explicação está no peso. Os alimentos ocupam uma fatia enorme do orçamento das famílias angolanas — bastante maior do que os transportes, que valem 6,50 pontos na actual estrutura de ponderação. Uma subida moderada num item que pesa muito desloca o índice mais do que uma subida forte num item que pesa pouco.
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Daí a conclusão prática: em Angola, a inflação é, na sua maior parte, uma questão alimentar. Quando o preço da comida estabiliza, a inflação desce. Quando dispara, nenhuma outra classe a consegue compensar.
Os preços no mercado
Aqui é preciso um aviso de método. Não existe uma série oficial que publique o preço do quilo de arroz mercado a mercado. O que existe são levantamentos feitos pela imprensa angolana nos armazéns e mercados de Luanda — Asa Branca, no Cazenga, Congoleses, no Rangel, São Paulo, no Sambizanga. São úteis e são o melhor indicador disponível, mas não são estatística oficial, e os valores variam conforme a marca, a origem e o ponto de venda.
Feita a ressalva, os levantamentos recentes apontam para uma travagem clara.
No final de 2025, um saco de arroz de 25 quilos custava cerca de 22.499 kwanzas, contra os aproximadamente 21.000 de Novembro. A caixa de massa alimentar passou de 4.500 para 5.399. A caixa de óleo vegetal subiu de 21.999 para 22.410. A embalagem de dez pacotes de um quilo de açúcar foi de 9.100 para 9.989. O pacote de um quilo de farinha de trigo subiu de 580 para 669 kwanzas.
No final de Março de 2026, o cenário era outro. Os levantamentos descrevem estabilidade relativa em óleo vegetal, arroz, massa alimentar, feijão e açúcar. O quilo de farinha de trigo estava nos 599 kwanzas — abaixo dos 669 do final do ano anterior. Cebola, batata rena e açúcar registaram descidas face a Fevereiro.
Não é uma queda generalizada, e um trimestre não faz tendência. Mas é coerente com aquilo que o IPCN mostra desde então: a pressão sobre os preços alimentares afrouxou de forma sustentada ao longo de 2026.
O que significa para o seu bolso
Quanto custa alimentar uma família durante um mês?
A referência mais completa que existe é um levantamento do Expansão feito em Março de 2024 no mercado informal do Asa Branca. Montou um cabaz de dezasseis produtos — arroz, feijão, carne, trigo, leite, batata, sal, açúcar, massa, óleo, peixe, coxa de frango, fuba de bombó e de milho, tomate e cebola, mais sabão — dimensionado para o consumo mensal de uma família de seis pessoas. O total ficou em cerca de 289.100 kwanzas. O mesmo cabaz montado num supermercado da rede Maxi não descia abaixo dos 408.000 kwanzas.
Esses valores são de Março de 2024 e não podem ser lidos como preços de hoje: dois anos de inflação passaram por cima deles. Servem para fixar duas ideias que se mantêm válidas.
A primeira é a diferença entre o mercado informal e o supermercado. O mesmo cabaz custava cerca de 40% mais na grande superfície. Para quem tem de contar cada kwanza, essa diferença não é um detalhe — é a razão pela qual os mercados de bairro continuam a ser o centro da alimentação em Luanda.
A segunda é a distância entre o custo de comer e o rendimento disponível. O Salário Mínimo Nacional está fixado em 100.000 kwanzas para as grandes empresas e em 50.000 kwanzas para as micro-empresas e startups. Mesmo com o salário mínimo mais alto, um cabaz familiar completo consome vários salários — e é por isso que, na prática, a maioria dos agregados divide despesas entre vários membros, compra em quantidades pequenas e diárias, e recorre ao mercado informal.
Para saber quanto custa hoje esse cabaz seria preciso repetir o levantamento. Enquanto ninguém o fizer, qualquer número apresentado como actual é uma estimativa.
O que observar a seguir
A próxima Folha de Informação Rápida do IPCN, publicada mensalmente pelo INE, dirá se a inflação se mantém abaixo dos 10% por um terceiro mês consecutivo.
Mas o número a procurar não é o título. É a contribuição da classe "Alimentação e bebidas não alcoólicas". Enquanto continuar acima dos 6 pontos percentuais, a inflação angolana é sobretudo o preço da comida, e qualquer descida do índice geral dependerá quase inteiramente do que acontecer nos mercados.
Fontes e notas
Índice de Preços no Consumidor Nacional, estrutura de ponderação e Inquérito sobre Despesas e Receitas: Instituto Nacional de Estatística (INE). Levantamentos de preços nos mercados de Luanda: imprensa angolana, entre outros ANGOP, Expansão, Novo Jornal e O País. Salário Mínimo Nacional: Decreto Presidencial n.º 152/24, de 17 de Julho.
Os preços de mercado citados resultam de levantamentos jornalísticos e não de uma série estatística oficial; variam conforme a marca, a origem e o ponto de venda. O cabaz familiar de Março de 2024 é apresentado como referência histórica, não como preço actual. Os valores do mês corrente são preliminares e podem ser revistos pelo INE.
