O Mercado do Catinton em Luanda
Mercado do Catinton: o entreposto agrícola que Luanda esqueceu de tratar bem
Por Angola Unfiltered
O Catinton — também grafado Catintom, e às vezes Cantinton em documentos oficiais — é um dos mercados mais movimentados da capital e um dos seus grandes pontos de chegada de produtos agrícolas do interior. Mas é também um exemplo perfeito daquilo que acontece quando um mercado essencial fica encurralado entre limitações urbanísticas, propriedade privada complicada e décadas de improviso.
Onde fica e como nasceu
O Mercado do Catinton fica na Praça do Catinton, no Distrito Urbano da Maianga, dentro do município de Luanda. Está mesmo junto à zona do antigo Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro — facto que, como vamos ver, condiciona toda a sua arquitetura. É uma localização atípica para um grande mercado grossista de produtos do campo: enquanto o Mercado do 30 está deliberadamente fora do núcleo urbano, em Viana, o Catinton fica em pleno tecido central da capital.
A zona onde hoje se ergue o mercado nem sempre teve este nome. Antigamente era conhecida como "camba camba", uma área de quintas e plantações de mangueiras. O nome atual, segundo a tradição local, vem do Rio Catinton, que passa próximo. O espaço foi também conhecido em tempos como Praça dos Materiais, porque se vendia ali sobretudo material de construção — algo que ainda hoje é visível em algumas bancas periféricas. O mercado agrícola, na sua forma atual, foi formalmente criado há cerca de duas décadas, ganhando relevância especial após o encerramento do lendário Roque Santeiro em 2011.
A engrenagem invisível da comida
O Catinton é, juntamente com o Mercado do 30, um dos dois grandes entrepostos por onde entra a comida em Luanda. Segundo a Rádio Nacional de Angola, recebe diariamente milhares de toneladas de produtos vindos do interior — sobretudo de Malanje, Uíge, Kwanza-Sul, Huambo, Benguela e Huíla. Cebola, cenoura, batata, mandioca, jindungo, gimboa, quiabo, banana, mamão, ginguba, peixe seco — tudo descarrega aqui de camião antes de se dispersar pela cidade.
Por outras palavras, os camiões saem das províncias produtoras, descarregam num destes dois pontos, e a partir daí os retalhistas e as zungueiras abastecem-se para depois revender em dezenas de mercados de bairro — Congolenses, Avô Mabunda, Prenda, Asa Branca, Kikolo, Kwanzas. O Catinton é o ponto onde a margem do retalho ainda não foi aplicada.
E há aqui um detalhe importante que merece ser sublinhado, porque circula confusão. Há quem diga que os vendedores do Catinton vão primeiro comprar ao Mercado do 30 e por isso praticam preços altos. A realidade é mais matizada: o Catinton é, ele próprio, um ponto de chegada direta dos camiões do interior, ao mesmo nível do 30. Para certos produtos e certos vendedores, a cadeia funciona assim. Para outros, sim, há revenda entre mercados. Mas o Catinton não é simplesmente uma loja a jusante do 30 — é uma porta de entrada própria.
A propriedade que poucos sabem
Aqui entra um dos detalhes mais inesperados deste mercado. O Catinton não é, no sentido estrito, um mercado público. A presidente da Comissão Administrativa da Cidade de Luanda, Maria Nelumba, já o esclareceu em entrevista: o Mercado do Catinton é privado, propriedade do Clube 1.º de Agosto, e a única alteração possível no local é aumentar um pouco a altura — mas não muito, devido à proximidade do antigo Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro.
Pois é. O entreposto agrícola mais central de Luanda pertence ao histórico clube desportivo militar, ligado às Forças Armadas Angolanas. Isto explica algumas particularidades de gestão e a relativa estabilidade dos vendedores ali instalados ao longo dos anos. Em 2021, o Governo Provincial de Luanda estudava a ampliação tanto do Catinton como do Mercado dos Congolenses, ambos com cerca de mil e quinhentos vendedores e ambos a necessitar de obras de melhoria e organização. Mas a proximidade do antigo aeroporto impõe limites de altura ao edificado, o que tem dificultado as soluções tradicionais de modernização: ali, não se pode resolver o problema do espaço crescendo para cima.
As eternas promessas de reabilitação
Como acontece com quase todos os grandes mercados informais de Luanda, o Catinton arrasta há anos um conjunto de problemas estruturais que as autoridades prometem resolver — e vão adiando. Em 2014, a administração do Distrito Urbano da Maianga anunciou a construção de um novo espaço com capacidade para três mil lugares, em mil metros quadrados, no âmbito do programa de combate à fome e à pobreza. Em 2023, foi lançada a primeira pedra para um edifício de apoio à formalização da atividade económica, integrado no PREI (Programa de Reconversão da Economia Informal). Pelo meio, houve várias ações de sensibilização — em 2023, por exemplo, os vendedores foram informados pelos serviços da Provedora de Justiça sobre os seus direitos e liberdades fundamentais.
Tudo isto soa muito bonito no papel. Na prática, quem visita o Catinton continua a encontrar os mesmos problemas que estavam lá há dez anos: becos, pó, falta de energia em vários sectores, problemas de drenagem na época das chuvas, e uma reputação de insegurança nas ruas adjacentes.
O retrato de um dia
Uma reportagem do Novo Jornal de 2014 — que continua, infelizmente, válida em grande medida — captou bem a coreografia diária do mercado. Apesar das dificuldades de saneamento e segurança, escreviam, o Catinton e o Mercado do 30 assumem-se como líderes na comercialização de produtos agrícolas nacionais. E descreveu o ritmo de uma vendedora típica, Mariana de Jesus, que depois de um dia perdido por causa da chuva tinha de "madrugar" para receber os clientes que "não me deixam descansar". Quando o repórter chegou, já só lhe restavam alguns sacos de cebola e cenoura — "a batata foi comprada logo que cheguei", contava.
Esta frase — "comprada logo que cheguei" — é a chave para entender o Catinton. Para quem vai cedo, há produto fresco, abundante e barato. Para quem chega depois do meio-dia, encontra o que sobrou, a preços já mais altos, e com menos margem de escolha.
Quem ali compra (e quem ali devia comprar)
Convivem no Catinton três grupos. Os retalhistas e zungueiras, que chegam de madrugada para comprar caixas e sacos inteiros que depois revendem em mercados de bairro. Os restaurantes, quiosques e cozinheiras de comida típica, que se abastecem diretamente para evitar a margem do retalho. E as famílias que valorizam o preço acima do conforto — funcionários públicos, donas de casa, pequenos empreendedores — que enchem o porta-bagagens do carro ou apanham um táxi de regresso ao bairro.
Importa esclarecer outra confusão que circula: há quem afirme que o Catinton pratica "preços disparados". Para quem está habituado aos preços do bairro, o Catinton parece muitas vezes barato. Quando ele aparece como "caro", normalmente é numa comparação direta com o Mercado do 30 — e isso é verdade para alguns produtos, sobretudo os que efectivamente passam pelo 30 antes de chegar à Maianga. Mas, em termos absolutos, o Catinton continua a ser muito mais económico do que os supermercados, mais barato que os mercados de retalho de bairro, e indispensável para qualquer família que cozinhe diariamente para muita gente.
Como visitar (se valer mesmo a pena)
Se decidir visitar, vá cedo — entre as 5h00 e as 9h00 da manhã. É quando a oferta é maior, os produtos estão mais frescos, e os preços ainda não subiram com o avançar do dia. Vá acompanhado por quem conheça o terreno: o mercado é caótico e desorienta facilmente. Leve dinheiro vivo em notas pequenas, evite exibir telemóveis caros, e peça sempre licença antes de fotografar — muitas vendedoras não gostam de ser fotografadas sem aviso.
A engrenagem que ninguém vê
Numa cidade onde toda a gente conhece os shoppings, os hotéis e as marginas, há lugares como o Catinton que carregam o peso real da vida quotidiana sem nunca serem celebrados. Aqui chega a cebola que vai ao funje, a banana que vai à merenda das crianças, o peixe seco que tempera a calulu, o jindungo que ninguém dispensa. O Catinton é a engrenagem invisível por trás de muitas refeições luandenses — e, ao mesmo tempo, um exemplo claro do quanto Angola precisa de tratar melhor os espaços que verdadeiramente alimentam o país.
Visitar o Catinton não é exatamente fazer turismo. É ver de perto a Luanda que trabalha desde antes do nascer do sol — e que ainda assim, há vinte anos, espera que alguém cumpra a promessa de a reabilitar.