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Benguela - O Perfil e a Identidade da Cidade

Benguela: O Perfil e a Alma da Cidade das Acácias Rubras


Conhecida e celebrada pelo seu belo epíteto de "Cidade das Acácias Rubras", Benguela é muito mais do que um destino de praias maravilhosas. É a vibrante capital da província e um polo administrativo de grande importância — o verdadeiro cérebro educacional e o grande motor comercial de toda a região centro-sul de Angola. Quem a visita descobre depressa que aqui a paisagem é apenas o começo da história.

A "mãe das cidades"

Os benguelenses têm um enorme orgulho em chamar-lhe a "mãe das cidades" — e com razão. Fundada em 1617, a cidade serviu como o principal porto e ponto de partida para a exploração em direção ao interior de Angola. Foi a partir da consolidação de Benguela no litoral que se abriram as grandes rotas comerciais e se impulsionou o nascimento de outras cidades vitais do interior, como o Huambo. Em certo sentido, muito do país cresceu a partir daqui.


A atmosfera

Caminhar por Benguela é viver um cenário de contrastes fascinantes. Por um lado, o visitante é abraçado pela calma e pelo charme colonial: edifícios com séculos de história, largas ruas ladeadas de árvores e praças espaçosas que convidam ao descanso. Por outro, a cidade respira uma energia cosmopolita e dinâmica, alimentada pelo crescimento moderno, pelos fervilhantes mercados locais e pela vivacidade de milhares de jovens universitários, atraídos por instituições de forte peso académico, como a Universidade Katyavala Bwila. É esta mistura de sossego e pulsar jovem que dá a Benguela o seu carácter inconfundível.


Uma viagem no tempo: história e raízes

Benguela orgulha-se de ser a segunda cidade mais antiga de Angola. A sua fundação oficial deu-se a 17 de maio de 1617, quando a expedição liderada pelo governador português Manuel Cerveira Pereira atracou num local então conhecido como Baía das Vacas (ou Baía de Santo António). Foi aí que se ergueu o Forte de São Filipe de Benguela, núcleo em torno do qual nasceu e se fixou a povoação que se tornaria, de imediato, a capital da região.

Compreender as raízes da cidade exige, porém, abordar com sobriedade a sua época mais sombria. Durante séculos, Benguela funcionou como um dos maiores portos de tráfico de pessoas escravizadas de toda a costa ocidental africana. Estima-se que centenas de milhares de cativos tenham sido forçados a embarcar nesta baía com destino às Américas, sobretudo para o Brasil e para Cuba. Esta dolorosa era marcou profundamente a demografia local e a herança cultural partilhada nos dois lados do Atlântico — uma memória que importa recordar com respeito.

A trajetória da cidade esteve longe de ser pacífica. A 21 de dezembro de 1641, Benguela foi ocupada por forças da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais, que aqui mantiveram domínio até 1648. Décadas depois, em 1705, uma esquadra francesa bombardeou e saqueou a cidade, deixando-a quase totalmente destruída. Apesar destes golpes dramáticos, Benguela sempre revelou uma notável capacidade de reconstrução e sobrevivência — uma resiliência que faz parte do seu ADN.


Benguela hoje: gente, juventude e vida urbana

A cidade tem uma dimensão impressionante. Segundo os dados definitivos do Censo de 2024, o município de Benguela conta com cerca de 380 000 habitantes (mais precisamente 380 048), inserido numa província que ultrapassa os 2,5 milhões de residentes. A população tem raízes profundas na etnia umbundu (ou ovimbundu), maioritária na região. Mas, graças à sua posição costeira estratégica e a séculos de trocas, migrações e influências, Benguela é hoje uma cidade cosmopolita, miscigenada e diversa, que acolhe em harmonia povos de todas as origens.

Para além das praias e do comércio, Benguela destaca-se como um verdadeiro polo académico de excelência. É casa da Universidade Katyavala Bwila, do Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED) e do Instituto Superior Politécnico Jean Piaget. Esta concentração de ensino superior atrai estudantes de todo o país e enche as ruas de uma energia marcadamente jovem, dinâmica e intelectual.


O motor económico

Seria um erro pensar que Benguela vive apenas do turismo balnear. Na verdade, a cidade desempenha um papel económico estratégico, intimamente ligado ao imponente Corredor do Lobito. Enquanto o vizinho Lobito lida com o peso da logística portuária e ferroviária, Benguela assume-se como o grande cérebro administrativo e de serviços deste corredor, sustentando-se numa forte administração pública, no ensino superior e num robusto comércio grossista e retalhista. É, de facto, um centro distribuidor crucial para boa parte das províncias do centro e sul do país.

A riqueza da região vai, porém, muito além dos serviços. Há uma forte herança na agroindústria, com o processamento de cana-de-açúcar, café, milho e sisal, a que se juntam fábricas de sabão, cerâmica e ferramentas. E não se pode esquecer o poder do oceano: a pesca — artesanal, semi-industrial e industrial —, aliada às fábricas de processamento de peixe e à produção de sal, é um dos pilares mais tradicionais e rentáveis da economia local.

Mas nenhuma visita compreende o pulsar de Benguela sem sentir a força da economia informal, que em Angola representa mais de 90% dos empregos. O comércio de rua e o trabalho incansável das zungueiras (vendedoras ambulantes) são o verdadeiro motor do dinamismo diário. Para viver esta energia autêntica de perto, é imperativo conhecer o icónico Mercado Municipal da Fruta e Hortaliça — um espaço vibrante, cheio de cor, conversa e sorrisos, onde o comércio de frescos sustenta a alma e o estômago da cidade.


Onde a magia acontece: cultura e quotidiano

Benguela assume-se, com todo o mérito, como a grande capital cultural do centro de Angola. É uma terra que respira tradição artística e musical, onde ecoam ritmos de alma angolana como o semba, a rebita e a kizomba. A esta herança sonora junta-se uma gastronomia riquíssima, marcada pela fusão dos sabores do interior com o peixe e o marisco fresco do Atlântico — reflexo de séculos de encontros entre povos e continentes.

Para viver a essência da província no seu auge, guarde na agenda o dia 17 de Maio. É nesta data que se celebram as famosas Festas da Cidade, assinalando o aniversário da fundação de Benguela. A cidade enche-se então de emoção, com feiras, gastronomia, música ao vivo e um profundo orgulho cívico. Outro momento imperdível de cor e ritmo nas ruas é a efusiva celebração do Carnaval, uma das festividades de maior relevo da província.

A verdadeira magia, porém, sente-se no quotidiano. As ruas pulsam ao ritmo do vaivém ágil das motorizadas — os famosos kupapatas — que desbravam o trânsito e fazem a economia girar. Mas o que mais marca quem chega é o calor humano do povo benguelense, incrivelmente simpático e acolhedor. E, quando o dia termina, todos os caminhos vão dar ao mar: a icónica Praia Morena funciona como o grande "quintal social" da cidade. É ali que, ao pôr do sol, famílias e jovens se reúnem para caminhar, fazer desporto, conversar e conviver — criando uma atmosfera de encanto que fica para sempre na memória de quem visita.

Uma cidade que se sente

Benguela é, ao mesmo tempo, história e futuro, sossego e energia, mar e cultura. É uma cidade que não se limita a ser vista — sente-se, no calor da sua gente, no ritmo das suas festas e na luz dourada do seu pôr do sol. Venha descobrir a mãe das cidades e deixe-se conquistar pela alma da Cidade das Acácias Rubras.