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O Outro Lado da Ilha de Mussulo




O Mussulo Para Lá dos Resorts: Comunidade, Pesca e Ambiente

O Mussulo que os turistas não costumam ver


À primeira vista, o Mussulo é só águas cristalinas, resorts luxuosos, iates e fins de semana de festa. Mas por trás desta fachada de férias existe outra face, que poucos visitantes chegam a conhecer — e que vale muito a pena descobrir. É a face de uma comunidade vibrante e resiliente, que vive aqui todos os dias do ano e que enfrenta, com enorme dignidade, desafios logísticos e carências de serviços básicos.

Conhecer este lado do Mussulo torna qualquer visita mais rica e mais humana. Porque a península não é apenas um destino sazonal: é uma área vasta e permanentemente habitada. Segundo o censo de 2024, o Mussulo é lar de cerca de 15.283 residentes — milhares de pessoas, distribuídas por famílias e comunidades tradicionais que aqui nasceram e cresceram. Para elas, a lagoa e o mar não são cenário de lazer, mas a principal fonte de vida, assente sobretudo na pesca artesanal e no pequeno comércio.

Este guia convida-o a olhar para além da praia e a viajar com consciência.


Os guardiões da tradição: os Axiluandas

Muito antes de a península se tornar um polo turístico, as areias do Mussulo já eram o lar de comunidades nativas, com destaque para os Axiluandas. A identidade e a cultura deste povo estão enraizadas neste ecossistema costeiro desde tempos pré-coloniais. Verdadeiros guardiões da tradição, mantiveram vivas práticas centenárias como a pesca artesanal e a produção de sal — atividades que ainda hoje moldam a essência cultural do território.

Mas o encanto paradisíaco do Mussulo contrasta de forma marcante com as duras condições de vida destas comunidades, historicamente carentes de infraestruturas essenciais. O maior desafio diário é a falta de água potável canalizada: para terem acesso a ela, muitos moradores atravessam a baía de barco regularmente, apenas para comprar água em bidões na outra margem — água que depois têm de tratar de forma rudimentar para a tornar segura.

A este isolamento somam-se limitações no acesso à educação e à saúde. A oferta escolar é restrita, encerrando muitas vezes na 10.ª classe, o que obriga os jovens que querem prosseguir os estudos a deslocarem-se diariamente ou a mudarem-se para Luanda. Na saúde, a península conta apenas com pequenos centros para primeiros socorros; qualquer urgência mais séria exige a transferência do doente para os hospitais do continente. São realidades que importa conhecer — e respeitar — quando se visita o Mussulo.


A pesca: o coração económico (e cultural) da comunidade

No Mussulo, a pesca artesanal é muito mais do que uma profissão: é uma herança transmitida de pais para filhos e o principal — muitas vezes o único — meio de sustento de milhares de residentes. É das águas da baía e do oceano que a comunidade retira o seu dia a dia, mantendo vivas práticas culturais ancestrais.

E há aqui uma história que merece ser contada: o papel fundamental das mulheres. Se a faina no mar cabe sobretudo aos homens, é em terra que está grande parte da força motriz desta economia. A nível nacional, as mulheres representam cerca de 47% dos profissionais da pesca artesanal. Nas comunidades do Mussulo, são elas que asseguram o processamento do pescado — limpeza, salga e seca, muitas vezes em tarimbas de madeira — e que lideram toda a cadeia de venda. São, sem exagero, a espinha dorsal do setor e o pilar do bem-estar das suas famílias.

Infelizmente, este modo de vida enfrenta hoje grande vulnerabilidade. Os pescadores mais antigos recordam, com mágoa, que as águas outrora abundantes do Mussulo já não oferecem as mesmas garantias. O declínio dos recursos marinhos — agravado pela sobrepesca, pela pesca ilegal e pela degradação dos habitats — obriga-os a procurar pescado cada vez mais longe, com mais custos e menos certezas. É um lembrete silencioso da fragilidade deste paraíso.


Sinais de esperança: regulação e cooperativas

A boa notícia é que estão a surgir respostas importantes. Perante o declínio dos recursos, a Administração Municipal do Mussulo, com outras entidades, tem promovido campanhas de educação ambiental junto das comunidades costeiras. O objetivo é combater práticas de pesca ilegais e destrutivas — como o arrastão de praia, as redes de malha fina ou, em casos extremos, o uso de explosivos e plantas venenosas — que destroem os habitats e os berçários naturais da restinga.

A par disso, a verdadeira transformação passa pela organização dos pescadores em cooperativas, um esforço apoiado pelo Instituto de Desenvolvimento da Pesca Artesanal (IPA). Ao formalizarem-se, os pescadores ganham acesso a microcrédito e a financiamentos, e passam a contar com embarcações mais seguras, redes adequadas, motores e infraestruturas partilhadas de conservação de frio. Mais do que números, estas cooperativas substituem a precariedade pela inovação — dignificando e garantindo o futuro de um modo de vida centenário.


Um motor de futuro: a nova fábrica de atum

Olhando em frente, o Mussulo dá passos firmes rumo à modernização. Um marco recente é o lançamento de uma nova fábrica de processamento de atum (integrada com um aviário), no bairro do Tapu, desenhada com capacidade para processar cerca de 5.000 peixes por dia.

Mais do que um avanço tecnológico, este projeto é um motor de esperança. Permitirá, pela primeira vez em grande escala, agregar valor ao pescado local — com destaque para o atum engarrafado — e traduz-se em benefícios concretos para a comunidade: estima-se a criação de 60 a 70 empregos diretos e mais de 200 indiretos. Enquadrada nas políticas de combate à pobreza, será fundamental para dinamizar a economia das famílias e reforçar a segurança alimentar de toda a população do Mussulo.


Um paraíso frágil: os desafios ambientais

Por fim, há uma realidade que todo o visitante consciente deve conhecer. A baía do Mussulo é reconhecida como Zona Marinha de Importância Ecológica ou Biológica (EBSA), pela sua rica biodiversidade — mas é também um ecossistema frágil, sob crescente pressão.

A construção desordenada é uma das maiores ameaças: resorts, restaurantes e moradias erguidos sem respeitar os limites naturais ocupam a orla, destroem a proteção dunar e aceleram a erosão, ao ponto de já se temer o desabamento de encostas junto ao embarcadouro. A poluição é outro desafio visível: plásticos de uso único, descargas urbanas e águas residuais não tratadas chegam à lagoa pelas linhas de drenagem de Luanda — e, na Reserva do Ilhéu dos Pássaros, o lixo trazido pelas marés chega a impedir o acesso das aves às zonas de alimentação e nidificação.

Particularmente preocupante é a destruição dos mangais, esses berçários vitais de que dependem cerca de 80% das espécies marinhas com valor comercial. Têm sido abatidos para dar lugar a construções, lenha e carvão, e vastas áreas transformadas em depósitos de entulho e esgotos. A biodiversidade sofre também com a sobrepesca, com a captura acidental de tartarugas nas redes, com a recolha de ovos dos seus ninhos e com a poluição sonora dos barcos a motor, que afugenta as aves migratórias.

A tudo isto soma-se a vulnerabilidade climática. Sendo um cordão de areia, a península é naturalmente propensa à erosão e ao avanço do mar; com a subida do nível médio das águas, cresce o risco de galgamento oceânico e de rutura da restinga, sobretudo quando o transporte natural de sedimentos é interrompido por intervenções humanas.


Visitar com consciência

O Mussulo está, em muitos aspetos, num ponto de viragem. A sua transformação num destino turístico de excelência só fará sentido se for acompanhada de um ordenamento cuidado e de uma verdadeira proteção ambiental — e o visitante faz parte dessa equação.

Pequenos gestos contam: não deixar lixo nas praias nem nos mangais, respeitar a distância das aves e das tartarugas, escolher operadores e alojamentos comprometidos com a sustentabilidade, e apoiar a economia local — comprando o peixe, o sal e os produtos das comunidades que aqui vivem. Viajar com consciência não tira nada à sua experiência; pelo contrário, torna-a mais profunda e mais verdadeira.

Conhecer o Mussulo para lá dos resorts é descobrir a sua alma: uma comunidade resiliente, uma cultura viva e um ecossistema precioso que merece ser protegido. Venha pelas praias — mas leve consigo também esta história. Será, certamente, a recordação mais valiosa de todas.