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Quem traz os dólares para Angola

O petróleo continua a ser o maior vendedor de dólares aos bancos. Mas quem mais cresce são empresas e particulares fora do petróleo, e é deles que depende o futuro da fila.

ANÁLISE ANGOLAEXPERT


Em resumo


Os bancos angolanos compraram cerca de 12 mil milhões de dólares em 2025. Quatro em cada dez vieram das petrolíferas, mas isso é só uma pequena parte do que o petróleo vende ao mundo. O vendedor que mais cresceu foram os "clientes diversos": empresas e particulares fora do petróleo, que já trazem quase três em cada dez dólares. Mesmo assim, o total só paga cerca de metade do que o país importa por mês.

O problema de fundo

Quando uma empresa angolana precisa de pagar a um fornecedor no estrangeiro, vai ao banco e pede dólares. O banco não fabrica dólares. Tem de os comprar a alguém que os tenha. Esse "alguém" é o tema deste artigo.

O mercado cambial é, no fundo, isto: o lugar onde os bancos compram dólares a quem os recebe e os vendem a quem precisa deles. O preço oficial está parado em cerca de 912 kwanzas por dólar desde o fim de 2024. Se os dólares que chegam não bastam para todos os pedidos, forma-se uma fila. Num episódio anterior vimos quanto custa estar nessa fila. Aqui olhamos para o outro lado: quem a abastece.

Há cinco grandes vendedores. Em 2025, os bancos compraram-lhes cerca de 12,0 mil milhões de dólares, mais 11% do que em 2024 [1].

Há cinco grandes vendedores  

Gráfico de barras comparando vendas de dólares por bancos angolanos em 2024 e 2025, com variações percentuais.

O petróleo: o maior vendedor, mas só uma fatia

As petrolíferas venderam aos bancos cerca de 5,1 mil milhões de dólares em 2025, mais 15% do que no ano anterior. São cerca de 42% de todos os dólares que entraram no mercado [1].

Parece muito. Mas compare-se com o que o petróleo vende ao mundo. Em 2025, Angola exportou cerca de 28,1 mil milhões de dólares em petróleo bruto, gás e derivados [6]. Os dólares que as petrolíferas venderam aos bancos equivalem a cerca de 18% desse valor.

A razão está na lei e na forma como o negócio funciona. A lei que regula as divisas do setor petrolífero obriga as empresas a fazer as operações através de bancos angolanos e a vender ao Banco Nacional de Angola (BNA) os dólares necessários para pagar impostos. Mas permite que os investidores estrangeiros mantenham lucros e dividendos em contas no exterior [7]. Uma petrolífera só precisa de vender ao mercado os dólares de que precisa para pagar despesas em kwanzas: salários, fornecedores locais, impostos. O resto paga equipamentos e serviços no estrangeiro, reembolsa investimentos e remunera os acionistas.

Há também uma tendência de fundo. A produção de petróleo desceu de 1,10 para 1,03 milhões de barris por dia entre 2024 e 2025, num declínio que dura há uma década [6]. No primeiro trimestre de 2026, as petrolíferas venderam aos bancos menos 80 milhões de dólares do que um ano antes [2].


O Estado: o segundo vendedor do petróleo

O Tesouro Nacional vendeu cerca de 1,8 mil milhões de dólares aos bancos em 2025, menos 7% do que em 2024, cerca de 15% do mercado [1]. Estes dólares também vêm em grande parte do petróleo, através dos impostos que o Estado cobra ao setor. Segundo o BFA, a capacidade do Tesouro para vender divisas reflete as receitas petrolíferas e o acesso a financiamento externo [3].

No primeiro trimestre de 2026, as fontes divergem quanto ao valor: 467 milhões de dólares segundo o Expansão [2], 532 milhões segundo o BFA [4]. Ambas apontam para um ritmo de vendas superior ao de 2025.

Somando petrolíferas e Tesouro, chegaram aos bancos cerca de 6,9 mil milhões de dólares ligados ao petróleo, perto de um quarto do valor exportado pelo setor.


O banco central deixou de ser a rede de segurança

O BNA, que no passado era um dos principais fornecedores, vendeu apenas 489 milhões de dólares em 2025, menos 49% do que em 2024. Representou cerca de 4% do mercado [1]. No primeiro trimestre de 2026, vendeu 68 milhões [2].

Isto tem duas leituras. A positiva: o banco central está a proteger as reservas internacionais, que se mantiveram em cerca de 15,9 mil milhões de dólares no fim de 2025 [6]. A menos confortável: sem o BNA como amortecedor, a oferta de dólares depende quase toda de quem os ganha no dia a dia.


Os diamantes vendem menos, mas deixam mais dólares no país

As empresas diamantíferas venderam cerca de 1,1 mil milhões de dólares aos bancos em 2025, cerca de 9% do mercado [1]. As exportações de diamantes renderam cerca de 1,8 mil milhões nesse ano [6]. Ou seja, cerca de 62% do valor exportado voltou ao mercado angolano, uma proporção muito superior à do petróleo.

O crescimento recente tem uma explicação concreta: a mina do Luele, que começou a produzir no terceiro trimestre de 2024 e quase duplicou os quilates exportados [8].


Quem mais cresce está fora do petróleo: empresas e investidores

O vendedor mais interessante é o menos conhecido. Os bancos chamam "clientes diversos" às empresas e particulares fora do petróleo que lhes vendem dólares ao balcão. Pense-se, por exemplo, numa empresa que exporta granito pelo Namibe: recebe dólares do cliente estrangeiro e vende parte ao banco para pagar salários em kwanzas. Ou num investidor estrangeiro que traz dólares para construir uma fábrica.

Em 2025, estes clientes venderam cerca de 3,3 mil milhões de dólares aos bancos, mais 40% do que em 2024. Já representam cerca de 28% do mercado [1]. No primeiro trimestre de 2026, venderam 852 milhões, mais 173 milhões do que um ano antes [2]. O BFA nota que, em certos momentos, os bancos já compram mais dólares ao balcão do que às próprias petrolíferas [3].

O BFA aponta duas razões para este crescimento: mais produção nacional para exportação e, sobretudo, a recuperação do investimento estrangeiro fora do petróleo. Em 2025, o investimento direto estrangeiro quebrou um ciclo de nove anos de saldos negativos [3].


Mesmo com mais dólares, só chega para metade das importações

Somando todos os vendedores, os bancos receberam cerca de mil milhões de dólares por mês em 2025 e no início de 2026 [1][2]. As importações de bens e serviços custam ao país cerca de dois mil milhões por mês [6][2]. A oferta cobre, portanto, cerca de metade da fatura.

Há uma ressalva. Nem todas as importações passam pelo mercado cambial: uma parte dos serviços comprados pelo setor petrolífero é paga diretamente no estrangeiro, com dólares que nunca chegam aos bancos. A falta real é menor do que a comparação direta sugere. Mas existe: a fila de pedidos por satisfazer rondava 1,2 mil milhões de dólares no início de 2026 [2] e 1,7 mil milhões a meio do ano [3].

Também aqui as fontes não coincidem quanto ao ritmo de 2025. O Expansão, com dados do ano inteiro, mostra um aumento de 11% [1]. O BFA, com dados até outubro, apontava uma queda de cerca de 6,9% [5]. A diferença pode resultar dos períodos e das categorias usadas. O que ambas confirmam é a mudança na composição: menos BNA, mais clientes ao balcão.


O que isto significa

A conclusão deste artigo é simples. O petróleo continua a trazer a maior parte dos dólares, mas é uma fonte limitada pela lei, pela forma como o setor funciona e pela produção em declínio. A fonte que mais cresce é a economia fora do petróleo. Em 2024, diamantes e clientes ao balcão somavam cerca de 31% dos dólares vendidos aos bancos. Em 2025, cerca de 37%. No primeiro trimestre de 2026, cerca de 38% [1][2].

Para quem investe ou empresta a empresas angolanas, isto tem três consequências práticas:

  • O acesso a dólares continua a depender do preço do petróleo, através das petrolíferas e do Tesouro. Uma queda do Brent reduz a oferta com poucos meses de atraso.
  • A oferta fora do petróleo é a variável que pode mudar o quadro, mas depende de investimento estrangeiro, que é sensível a sinais de política, incluindo a forma como o câmbio vier a ser ajustado.
  • O banco central deixou de ser um amortecedor ativo. Em caso de choque, a fila tende a crescer mais depressa do que no passado.

O indicador a acompanhar: a parte dos dólares vendidos aos bancos que vem de fora do petróleo (diamantes e clientes ao balcão). Passou de cerca de 31% em 2024 para cerca de 38% no início de 2026. Se ultrapassar metade, a disponibilidade de divisas para as empresas fica muito menos refém do barril. Se recuar, a economia volta a depender de quanto o petróleo vale em cada trimestre.


"Clientes ao balcão"

são as empresas e pessoas, fora do petróleo e dos diamantes, que vendem dólares diretamente ao seu banco. "Balcão" quer dizer o atendimento normal do banco, por oposição às grandes operações com as petrolíferas, o Tesouro ou o BNA.

Nas estatísticas, aparecem com nomes diferentes: o BNA e o BFA chamam-lhes "Clientes Diversos", e o Expansão chama-lhes "transações fora da Bloomberg" (a plataforma onde se fazem as grandes vendas de divisas aos bancos).

Na prática, são casos como estes:

  • Uma empresa que exporta granito, café ou peixe recebe dólares do cliente estrangeiro e vende parte ao banco para pagar salários e fornecedores em kwanzas.
  • Um investidor estrangeiro traz dólares para construir uma fábrica ou um hotel e troca-os por kwanzas para pagar as obras.
  • Uma empresa com receitas em dólares, por exemplo de serviços prestados a clientes no estrangeiro, vende-os ao banco.

O BFA aponta as exportações fora do petróleo e o investimento estrangeiro como as principais razões do crescimento destas vendas. Outros casos (por exemplo, particulares que vendem dólares que receberam) também entram nesta categoria, mas as fontes não dizem quanto pesa cada um.

Fontes

  1. Expansão — Bancos ficaram com mais 1 186,2 milhões USD do que em 2024 (vendas de divisas por fonte, 2025).
  2. Expansão — Bancos ficaram com média de 1 000 milhões USD por mês no I trimestre (2026).
  3. Banco de Fomento Angola — Relatório de Conjuntura, 3.º trimestre de 2026.
  4. Banco de Fomento Angola — Relatório de Conjuntura, 2.º trimestre de 2026.
  5. Banco de Fomento Angola — Relatório de Conjuntura, 4.º trimestre de 2025.
  6. Fundo Monetário Internacional — Angola: 2026 Article IV Consultation, Country Report n.º 26/94 (maio 2026).
  7. Lei n.º 2/12, de 13 de janeiro — Regime Cambial Aplicável ao Sector Petrolífero.
  8. Ver Angola / INE — Anuário de Estatísticas do Comércio Externo 2025 (maio 2026).

Última verificação: 2 de outubro de 2026. Onde as fontes divergem, a divergência é apresentada no texto e não resolvida artificialmente. As proporções e somas são cálculos da AngolaExpert com base nas fontes indicadas.

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