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39 milhões de angolanos — e cada vez mais jovens


 

Quantos angolanos somos, afinal?


Quanto Custa Viver em Angola — Episódio 13

Esta série tem um problema por resolver, e é altura de o resolver.

No primeiro episódio, dedicado ao Produto Interno Bruto, chegámos a uma população de cerca de 39 milhões de pessoas — número obtido dividindo o PIB total pelo PIB por habitante publicados pelas instituições internacionais.

No quinto episódio, ao tratar do emprego, usámos dados que apontavam para cerca de 36,4 milhões.

Dois números diferentes, na mesma série, para a mesma coisa. Este episódio explica porquê — e, no caminho, entrega a prova que o episódio 7 usou sem nunca ter mostrado.

O número definitivo

A 19 de Setembro de 2024, data do momento censitário do segundo Recenseamento Geral da População e Habitação alguma vez realizado em Angola, residiam no território nacional 36.604.681 pessoas.

Desses, 17.931.985 eram homens, correspondendo a 49% da população, e 18.672.696 eram mulheres, correspondendo a 51% — um rácio de 96 homens por cada 100 mulheres. Somando as pessoas recenseadas em habitações colectivas e sem abrigo, o total chega aos 36,66 milhões.

Não é uma estimativa. É uma contagem, feita porta a porta, com resultados definitivos divulgados a 20 de Novembro de 2025, dez meses depois do fim da recolha e seis meses depois do inquérito de cobertura que a validou.

A armadilha: uma projecção não é uma contagem

Aqui está a explicação da discrepância, e é uma distinção que vale para muito mais do que demografia.

Entre 2014 e 2024, Angola não teve censo. Durante dez anos, todos os números de população que circularam — nos relatórios do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial, nas notícias, e no primeiro episódio desta série — foram projecções: cálculos que partem do último censo conhecido, o de 2014, e aplicam hipóteses sobre natalidade, mortalidade e migração para estimar quantas pessoas existiriam hoje.

Uma projecção é um instrumento legítimo e necessário. Mas é uma hipótese, não uma observação. O próprio INE o diz nas suas publicações de projecções: baseiam-se em tendências passadas e em hipóteses sobre o comportamento futuro, constituindo um marco de referência para planeamento — não uma previsão do que inevitavelmente acontecerá.

Quando o censo finalmente contou, encontrou menos pessoas do que algumas projecções internacionais supunham. A diferença ronda os dois a três milhões, consoante a fonte e o ano de referência — algo como 6% a 7%.

A regra prática: quando dois números credíveis divergem, verifique primeiro se um deles é uma contagem e o outro uma estimativa. Na dúvida, o censo manda.

Para esta série, a consequência é directa: o número correcto é 36,6 milhões, e a referência a 39 milhões no primeiro episódio deve ser lida como o que era — uma derivação a partir de dados internacionais projectados, anteriores à divulgação do censo.

A prova que faltava

O episódio 7 afirmou que o crescimento populacional absorve o crescimento económico. Nunca o demonstrou. O censo permite fazê-lo.

Em 2014, o primeiro recenseamento contou 25.789.024 habitantes. Em 2024, o segundo contou 36.604.681.

[IMAGE: ep13-populacao.png]

São 10.815.657 pessoas a mais em dez anos — um aumento de 41,9%, equivalente a um crescimento médio de 3,56% ao ano.

Agora coloque-se esse número ao lado do crescimento da economia. Em 2025, o Produto Interno Bruto real de Angola cresceu 3,13%.

Se a população cresce a 3,56% e a economia a 3,13%, o rendimento por pessoa não estagna — diminui.

Uma ressalva importante, porque este ponto é sensível. O Banco Africano de Desenvolvimento calculou para 2025 um crescimento do rendimento real por pessoa de 0,1%, ligeiramente positivo, usando um pressuposto de crescimento populacional inferior ao que resulta da comparação entre os dois censos. Além disso, o Censo 2024 usou tecnologia substancialmente melhor do que o de 2014, incluindo actualização cartográfica por sistemas de informação geográfica, pelo que parte do aumento registado pode reflectir uma cobertura mais completa e não apenas mais nascimentos.

O que se pode afirmar com segurança é o essencial: o crescimento demográfico angolano e o crescimento económico andam demasiado próximos um do outro para que o segundo se faça sentir. Seja 0,1% positivo ou ligeiramente negativo, o resultado prático é o mesmo — a economia cresce e o rendimento individual não se mexe.

A segunda armadilha: o país não está a ficar mais jovem

Angola é frequentemente descrita como um país cada vez mais jovem. Os dados do censo dizem o contrário.

A idade média da população subiu de 20,6 anos em 2014 para 23,2 anos em 2024. O país envelheceu quase três anos em dez.

Isto não contradiz o facto de Angola continuar a ser uma população muito jovem: 62% dos residentes têm menos de 25 anos. Mas "jovem" e "cada vez mais jovem" são afirmações diferentes, e apenas a primeira é verdadeira.

A distinção tem consequências práticas. Uma população que envelhece ligeiramente, mantendo uma base jovem enorme, significa que uma vaga muito grande de pessoas está a entrar em idade activa. E foi isso que o episódio 5 encontrou do outro lado: 88 em cada 100 empregos criados no primeiro trimestre de 2026 foram informais, e o desemprego entre os 15 e os 24 anos rondou os 40,7%.

A demografia explica a pressão. O mercado de trabalho mostra o resultado.

Onde vivem os angolanos

O censo confirma também a concentração que esta série encontrou repetidamente.

Luanda tem 8.816.297 habitantes, ou seja, 24% de toda a população do país numa só província. São mais 1,87 milhões de pessoas do que em 2014.

No extremo oposto, a província do Cuando tem 138.770 habitantes — cerca de 63 vezes menos do que Luanda. Zaire, Cuanza Norte, Moxico, Cubango e Moxico Leste ficam todas abaixo dos 700 mil residentes. Entre os extremos, Huíla, Huambo, Benguela, Cuanza Sul, Bié e Uíje ultrapassam os dois milhões cada.

Quase um quarto do país vive numa província onde, como vimos no episódio 6, menos de 35% da população tem água da rede, e onde, como vimos no episódio 10, um T3 pode custar quase nove vezes a renda controlada praticada nas centralidades provinciais.

O que observar a seguir

As novas Projecções da População 2025-2075. O INE já publicou estimativas para 2025-2027 com base no Censo 2024, e anunciou projecções de longo prazo. Quando saírem, substituem tudo o que circulava antes — e é a partir delas que passarão a ser calculados os rendimentos por pessoa, as taxas de cobertura e as metas sectoriais.

Qualquer número de população numa notícia. A pergunta a fazer é sempre a mesma: isto vem do censo ou de uma projecção? E, se for projecção, de que censo parte? Um número construído sobre o recenseamento de 2014 está, desde Novembro de 2025, desactualizado.

Fontes e notas

População residente, composição por sexo, idade média, distribuição provincial e comparação com 2014: Instituto Nacional de Estatística (INE), Recenseamento Geral da População e Habitação 2024, Resultados Definitivos, divulgados a 20 de Novembro de 2025, com data de referência de 19 de Setembro de 2024. Recenseamento Geral da População e Habitação 2014. Estimativas da população 2025-2027 baseadas no Censo 2024, publicadas pelo INE em Março de 2026. Natureza metodológica das projecções: INE, Projecção da População 2014-2050. Crescimento do PIB e rendimento por pessoa em 2025: Instituto Nacional de Estatística e Banco Africano de Desenvolvimento.

A taxa média de crescimento anual de 3,56% resulta da comparação entre os totais dos dois recenseamentos e pode incluir o efeito de uma cobertura censitária mais completa em 2024. As instituições internacionais utilizam pressupostos de crescimento populacional próprios, o que explica diferenças nos rendimentos por pessoa publicados por cada uma.

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