Pagamentos digitais em Angola · rede Multicaixa Express
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Multicaixa Express: como o telemóvel se tornou a maior rede bancária de Angola
Em sete anos, o canal digital da EMIS passou de 257 milhões para 19,7 biliões de kwanzas por ano. O que os números mostram — e o que escondem.
O Multicaixa Express é hoje o canal mais usado do sistema de pagamentos angolano. Em 2025 concentrou cerca de 62% de todas as operações da rede Multicaixa e movimentou 19,7 biliões de kwanzas.
É um caso de adopção digital rápido para os padrões africanos. Mas os números que circulam merecem ser lidos com cuidado. Alguns estão mal calculados. Outros vêm de fontes que têm interesse no resultado. E o retrato completo inclui limites que raramente aparecem nas apresentações.
O que é o Multicaixa Express
A EMIS — Empresa Interbancária de Serviços — lançou o Multicaixa Express a 24 de Abril de 2019.
A ideia era simples: associar cartões Multicaixa a um número de telemóvel. Até dez cartões por aparelho, de bancos diferentes. A partir daí, o cliente pode consultar saldos, transferir dinheiro, pagar serviços e pedir levantamentos sem cartão. Tudo pelo telefone.
O termo técnico é tokenização do cartão. O objectivo declarado pela EMIS era maior: acabar com o cartão físico e massificar os pagamentos electrónicos.
No primeiro ano, o Express movimentou 257 milhões de kwanzas. Em 2023, movimentou 7,4 biliões. Em 2025, 19,7 biliões.
Os números: de 2019 a 2026
O Express ultrapassou os caixas automáticos em duas fases.
2023 — mais operações. O Express passou os ATM em número de operações: 595 milhões. Destas, mais de 428 milhões foram simples consultas de saldo. Os pagamentos de serviços somaram 90,8 milhões e as transferências 51,9 milhões. A liderança foi construída sobre a consulta.
2024 — mais dinheiro. O Express fechou o ano com 12,6 biliões Kz, contra 11,9 biliões nos caixas automáticos. Uma diferença de 692 mil milhões Kz. Pela primeira vez, os angolanos moveram mais dinheiro pelo telemóvel do que pelas máquinas.
2025 — domínio. 19,7 biliões Kz em 2,1 mil milhões de transacções. Cerca de 62% das operações da rede. Em Dezembro, 64,1% dos movimentos. A rede Multicaixa no total processou 46 biliões Kz, mais 31,2% do que em 2024, com um recorde de 15,8 milhões de transacções a 24 de Dezembro.
2026 — continua. No primeiro semestre, 13,44 biliões Kz. Isto é 48,3% de todo o valor movimentado na rede, mais 61,7% do que no ano anterior.
Quantos utilizadores tem
Os números circulam desencontrados, por isso convém datá-los.
Segundo os relatórios da EMIS: 1,3 milhões de utilizadores em Dezembro de 2023. 2,5 milhões em Setembro de 2025. Em Fevereiro de 2026, 2,7 milhões de utilizadores válidos — mas só 2 milhões com cartão activo, ou seja, com pelo menos uma operação nos seis meses anteriores. Os restantes 675,8 mil estavam inactivos.
A cifra de 3,2 milhões que aparece nos dados de 2026 usa um critério mais lato. Não é comparável com as anteriores.
Crescimento real ou apenas inflação?
Todos estes valores estão em kwanzas nominais. E Angola teve inflação alta e uma moeda a desvalorizar.
Entre 2019 e 2025, a inflação anual variou entre cerca de 13,6% e 28%, com picos em 2021 e 2024. No conjunto, os preços subiram qualquer coisa como três vezes e meia. O kwanza passou de algumas centenas por dólar em 2019 para cerca de 900 em 2025.
O que sobra depois de descontar a inflação?
No longo prazo, quase tudo. O crescimento entre 2019 e 2023 foi de tal ordem que a inflação não o explica. A base de partida era demasiado pequena.
No curto prazo, menos do que parece. Entre 2023 e 2025, o volume subiu 166% em termos nominais. Descontada a inflação, o crescimento real fica nos 70 a 75%. Continua a ser forte, mas é cerca de metade do que a leitura nominal sugere. Em dólares, o Express passou de cerca de 9 mil milhões USD para cerca de 21 mil milhões.
O melhor indicador é outro: o número de operações. Passou de 595 milhões em 2023 para 2,1 mil milhões em 2025. Três vezes e meia em dois anos. Este número não depende de inflação nem de câmbio. É ele que prova a mudança de comportamento.
Quantas operações faz cada utilizador?
Circulam métricas muito favoráveis sobre o Express: mais de 1,1 milhão de utilizadores activos por dia, uma taxa de retenção diária acima de 50%, mais de 40 operações por utilizador por mês, um valor médio mensal de 1,2 milhões Kz (cerca de 1.300 dólares) e mais de 53% dos cartões bancários activos do país ligados à aplicação.
Convém dizer de onde vêm. Não são relatórios da EMIS nem do BNA. São de um artigo de opinião de Eduardo Bettencourt, administrador executivo da EMIS, publicado no LinkedIn em Dezembro de 2025 e traduzido pelo portal FintechAO. Ou seja: números de uma empresa sobre o seu próprio produto. Podem estar certos. Não são estatística independente.
A comparação com a Revolut e o M-Pesa não funciona
O mesmo texto compara as 40 operações mensais do Express com as 16 a 20 da Revolut e as 31 a 34 do M-Pesa.
O problema é que as séries medem coisas diferentes. Os dados da EMIS mostram que cerca de 69% das operações no Express são consultas de saldo. Os números da Revolut e da Safaricom contam pagamentos e transferências — não consultas.
Retirando as consultas, o utilizador do Express faz entre 15 e 22 operações financeiras por mês. Fica dentro do intervalo da Revolut e abaixo do M-Pesa.
O canal é muito usado. Só não é o campeão mundial de frequência que a comparação sugere.
A leitura que ninguém faz
Consultar o saldo todos os dias não é necessariamente sinal de um bom produto.
Numa economia com pouca liquidez, salários pagos em datas fixas, filas nos ATM e falta frequente de dinheiro nas máquinas, a consulta diária também é sinal de outra coisa: gestão da escassez.
A altíssima frequência de uso pode estar a medir precariedade financeira tanto quanto sucesso comercial. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. Mas só uma aparece nas apresentações.
Quem paga pelo canal
Há uma pergunta que quase não se faz no debate angolano: quem suporta o custo.
O Express tirou volume das agências e dos caixas automáticos. São canais caros — exigem máquinas, transporte de dinheiro e pessoal. Para os bancos, a migração significa poupança.
Mas também transfere volume para uma infra-estrutura que nenhum banco controla sozinho. A EMIS é detida pelos próprios bancos e pelo Banco Nacional de Angola, e opera o único switch nacional de retalho.
Isto tem uma vantagem clara: interoperabilidade total, sem os sistemas fechados que fragmentam outros mercados africanos. E tem uma consequência menos discutida: não há concorrência ao nível do switch. Nenhum operador pode competir com a rede Multicaixa. Pode, quando muito, ligar-se a ela.
Ficam por responder três perguntas: como se estrutura o tarifário do Express face ao ATM e ao TPA, quem paga cada comissão, e como evolui a receita da EMIS à medida que o volume migra. A informação pública é escassa.
Onde o dinheiro físico é realmente substituído
Não é na consulta de saldo. É no momento em que um comerciante recebe sem tocar em notas.
Os pagamentos por código QR passaram os 53 milhões de transacções em 2025. Os Terminais de Pagamento Automático (TPA) mantiveram-se como segundo canal mais usado da rede, com presença crescente até no comércio informal — importante num país onde a informalidade pesa muito.
A EMIS tem alargado as funcionalidades. Em Setembro de 2025 lançou transferências directas entre cartões Express, sem número de telemóvel nem IBAN, e começou a testar o pagamento de estacionamento por QR no Aeroporto 4 de Fevereiro e no Shopping Fortaleza.
O levantamento sem cartão mostra bem o equilíbrio entre comodidade e risco: o código dura seis horas e depois expira, precisamente para limitar a fraude.
Multicaixa Express, Unitel Money e Afrimoney: os limites
Aqui está a fronteira do modelo.
Só serve quem já tem banco. O Express exige um cartão Multicaixa emitido por um banco. Angola tem cerca de 35 milhões de habitantes e aproximadamente 5,7 milhões de contas bancárias. O canal aprofunda a bancarização — não a cria.
Exige smartphone e dados. Segundo o INACOM, o país tinha cerca de 25,5 milhões de números de telemóvel activos. Mas a penetração de smartphones e o custo dos dados limitam o alcance de qualquer aplicação.
A concorrência que o debate ignora. Quem está desenhado para o não-bancarizado são as carteiras móveis dos operadores. A Unitel Money, lançada em Agosto de 2021, aproximava-se dos 2 milhões de utilizadores em 2024, com mais de 50 mil agentes em todas as províncias e foco nos mercados e praças informais. A Afrimoney, da Africell, lançada em 2023, anunciou mais de dois milhões de registos. Juntas, cerca de 3,5 milhões — embora só uma parte use os serviços com regularidade.
A diferença está nos agentes. Os 50 mil pontos da Unitel Money formam uma rede física de liquidez e confiança que nenhuma app substitui.
Angola construiu primeiro a banca e só depois abriu espaço ao mobile money. O Quénia fez o contrário. O resultado é um sistema sofisticado para quem já está dentro, e lento a chegar a quem está fora.
A resposta institucional é o KWiK. Este instrumento de transferências instantâneas, integrado no Programa Nacional de Inclusão Financeira, registou cerca de 35 milhões de transferências em 2025 — um crescimento superior a 1.000%. Programas como o "KWiK nos Mercados" reconhecem que a inclusão se faz no terreno, não só na aplicação.
Segurança e risco: o preço de depender de um só canal
Quando um canal concentra 62% das operações de retalho de um país, a sua disponibilidade deixa de ser um assunto comercial. Passa a ser um assunto de estabilidade financeira.
A fraude é humana, não técnica. O risco principal são SMS falsos e a partilha de PIN ou de códigos de validação. A EMIS respondeu com campanhas de sensibilização e com validação por token SMS na primeira transacção depois de adicionar um cartão.
Depende de terceiros. Em Dezembro de 2024, um congestionamento na rede da Unitel causou falhas no Express. O canal central dos pagamentos angolanos depende de infra-estrutura de telecomunicações que a EMIS não controla.
Só existe um switch. A resiliência tem sido testada com sucesso — 15,8 milhões de transacções a 24 de Dezembro de 2025, e 15,9 milhões no primeiro semestre de 2026. Mas não há alternativa estrutural. Uma falha prolongada não teria plano B à escala do país.
A regulação está a apertar. O próprio BNA sofreu um ataque de ransomware em Janeiro de 2024. Em Outubro de 2025, o vice-governador Domingos Pedro anunciou que o banco central finalizava um quadro regulamentar de cibersegurança. O Aviso n.º 03/2026 elevou a cibersegurança a função de controlo e obriga à nomeação de um administrador responsável, com prazo de doze meses para as prestadoras de serviços de pagamento. A EMIS, por seu lado, criou um Centro de Operações de Segurança.
Conclusão
Em sete anos, o Multicaixa Express passou de experiência técnica a espinha dorsal dos pagamentos angolanos. Mesmo descontada a inflação, é um dos casos de adopção digital mais rápidos de África.
Angola construiu algo real: uma solução interbancária nacional que funciona entre praticamente todos os bancos.
O desafio seguinte não é crescer. É garantir a resiliência de uma infra-estrutura que o país inteiro passou a usar como se fosse dinheiro, esclarecer quem paga por ela, e chegar a quem continua de fora.
O Express resolveu o problema de quem já tinha banco. O problema de quem não tem continua por resolver.
Fontes: EMIS / Rede Multicaixa; Banco Nacional de Angola (Aviso n.º 03/2026); Instituto Nacional de Estatística; INACOM; Expansão; Economia & Mercado; Portal de T.I.; Menos Fios; ANGOP; FintechAO / Eduardo Bettencourt (artigo de opinião, Dezembro de 2025).
Perguntas frequentes
O que é o Multicaixa Express? É o canal móvel interbancário da rede Multicaixa, gerido pela EMIS e lançado a 24 de Abril de 2019. Permite consultar saldos, transferir, pagar serviços e levantar dinheiro sem cartão, através do telemóvel.
Quantos cartões posso associar? Até dez, de bancos diferentes.
Quantos utilizadores tem? Em Fevereiro de 2026, 2,7 milhões de utilizadores válidos, dos quais cerca de 2 milhões com cartão activo. Em Dezembro de 2023 eram 1,3 milhões.
Quanto dinheiro movimenta por ano? 19,7 biliões de kwanzas em 2025, em 2,1 mil milhões de transacções.
O Multicaixa Express é seguro? A EMIS reforçou a autenticação e criou um Centro de Operações de Segurança. O maior risco não é técnico: são SMS falsos e a partilha de PIN ou códigos com terceiros.
Quanto tempo dura o código de levantamento sem cartão? Seis horas. Depois expira e é preciso gerar outro.
Qual a diferença entre o Express e o KWiK? O Express dá acesso móvel a cartões bancários que já existem. O KWiK é um sistema de transferências instantâneas, pensado também para quem tem menos ligação à banca tradicional.