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A Dívida em Números 

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A Dívida em Números

Todos os valores desta página vêm do Boletim Trimestral da Dívida Pública da UGD relativo ao terceiro trimestre de 2025 — o documento que o próprio Estado publica sobre aquilo que deve. Começamos pelo facto que contraria a narrativa mais comum: o stock subiu enquanto o rácio desceu.

O stock, no fim de Setembro de 2025

63,63
Dívida Governamental, mil milhões de USD
45,07
Dívida externa, mil milhões de USD
18,56
Dívida interna, mil milhões de USD

UGD, Boletim Trimestral da Dívida Pública, III Trimestre de 2025. Em kwanzas, a Dívida Governamental correspondia a 58.116,49 mil milhões, à taxa de câmbio de 911,98 no final do trimestre.

Dentro deste total, duas trajectórias opostas. A dívida externa caiu para 45,07 mil milhões de dólares, o nível mais baixo desde 2019. A dívida interna subiu para 18,56 mil milhões. O mercado nacional passou a ser a principal fonte de financiamento do Estado, e é essa substituição — externo por interno — que explica a maior parte do movimento recente da carteira.

A dívida subiu. O rácio desceu. As duas coisas são verdade.

Entre o segundo e o terceiro trimestre de 2025, a Dívida Governamental aumentou de 61,93 para 63,63 mil milhões de dólares. No mesmo intervalo, o rácio dívida/PIB desceu de 56% para 48%.

A explicação está no quadro de indicadores do próprio boletim: o PIB usado como denominador passou de 111,05 para 131,79 mil milhões de dólares de um trimestre para o outro. Em nota de rodapé, a UGD indica que os dados foram actualizados conforme a nova metodologia do INE, segundo metodologia do FMI, e com a actualização do ano de referência de 2022 para 2015.

Ou seja: o país deve mais dólares do que devia em Junho, e a percentagem melhorou porque a economia passou a ser medida de outra maneira. Isto não anula a consolidação real que houve — a dívida externa está no valor mais baixo em seis anos, e a dívida garantida por petróleo desce trimestre após trimestre. Mas obriga a uma regra de leitura simples: para saber se Angola pagou, olhe para os dólares, não para a percentagem.

Cinco trimestres, dois indicadores

III T. 24
54,92%60,99 mM
IV T. 24
53,53%59,45 mM
I T. 25
46,11%60,77 mM
II T. 25
46,99%61,93 mM
III T. 25
48,28%63,63 mM

Em cima, o rácio Dívida Governamental/PIB. Em baixo, o stock em mil milhões de dólares. UGD, III Trim. 2025.

Lida em conjunto, a série mostra o que uma percentagem isolada esconde: o stock em dólares está hoje acima de onde estava há um ano, e o rácio está sete pontos percentuais abaixo. O limite legal de 60% previsto na Lei da Sustentabilidade das Finanças Públicas está cumprido em todos os trimestres apresentados.

A moeda: onde está o risco

79%

do stock da Dívida Governamental está denominado em moeda estrangeira. Os restantes 21% em kwanzas.

UGD, III Trim. 2025 — em descida face aos 83% de 2024 e aos 80% do trimestre anterior

Dentro da dívida externa, a concentração é ainda maior: cerca de 78,8% em dólares norte-americanos, 11,6% em euros e 8,4% em direitos de saque especiais, com o remanescente repartido por ienes, yuans e outras moedas. O yuan representa 0,31% — um número que vale a pena reter por contrariar a ideia de que a exposição à China é sobretudo cambial. Não é: é contratual, e está em dólares.

Uma carteira com quatro quintos em moeda estrangeira, paga por receitas maioritariamente petrolíferas, significa que a dívida angolana responde a duas variáveis que o Estado não controla — o câmbio e o barril.

A quem se deve: a dívida externa por tipo de credor

Comercial
42,1%
Multilateral
22,3%
Eurobonds
20,2%
Fornecedores
3,93 mM
Bilateral
3,00 mM

UGD, III Trim. 2025. Percentagens sobre o stock de dívida externa de 45,07 mil milhões de USD. Multilateral: 10,05 mM. Eurobonds: 9,11 mM. Comercial: 18,97 mM.

A categoria bilateral — a rubrica onde entram os empréstimos de Estado a Estado — desceu de 3,71 para 3,00 mil milhões de dólares no espaço de um ano, e é hoje a mais pequena das cinco. Vale a pena confrontar isto com a frase feita de que a dívida angolana é sobretudo dívida à China: os detentores de Eurobonds detêm sozinhos mais do triplo de toda a dívida bilateral do país.

A dívida garantida por petróleo

8,51

mil milhões de dólares de dívida garantida por petróleo no final do III trimestre de 2025 — repartidos entre o Banco de Desenvolvimento da China (7,54 mM) e o Eximbank da China (0,97 mM).

UGD, III Trim. 2025. Evolução: 10,18 → 10,15 → 9,04 → 8,94 → 8,51 mM nos cinco trimestres até Setembro de 2025.

Duas leituras importam aqui. A primeira: esta é a única rubrica da carteira em que a totalidade dos credores é chinesa — não porque a China seja o maior credor do país, mas porque o modelo de garantia petrolífera foi usado exclusivamente com credores chineses. A segunda: 8,51 mil milhões de dólares representam cerca de 19% da dívida externa e menos de 14% da Dívida Governamental total.

A Estratégia de Endividamento de Médio Prazo 2024–2026 inclui, entre os seus objectivos explícitos, a não utilização de financiamentos com garantias baseadas em commodities. O mecanismo e as suas consequências estão na página do petróleo.

O serviço: o que sai da tesouraria

O stock diz o que se deve; o serviço diz o que é preciso pagar. No terceiro trimestre de 2025, o serviço da dívida externa totalizou 2,27 mil milhões de dólares, com a dívida comercial a representar 59,47% desse valor. O serviço da dívida interna recuou 26,33% no trimestre, para 2,77 mil milhões.

Juros face à receita fiscal

Só de juros, 20,19% das receitas fiscais até ao III trimestre de 2025 — depois de 31% no conjunto de 2024. Um quinto da receita, antes de amortizar um único dólar de capital.

O custo de cada lado

Taxa de juro média ponderada de 6,54% na dívida externa e 13,10% na interna. Substituir externo por interno reduz risco cambial e aumenta o custo nominal.

Os prazos

Maturidade residual média de 10 anos na dívida externa e de apenas 3 anos na interna. O financiamento doméstico é mais caro e vence mais depressa.

2026 é o ano pesado

A projecção do serviço da dívida externa aponta 7,50 mil milhões de dólares em 2026, contra 4,97 em 2025 — o valor mais alto do período projectado até 2030.

UGD, III Trim. 2025, quadros 6, 9 e 13. Projecções calculadas com base no stock do trimestre.

O que estes números não incluem

O boletim afirma expressamente que considera primariamente a Dívida Governamental. Fora desse perímetro ficam rubricas que não são pequenas:

Dívida das empresas públicas
2,15 mM
Atrasados
2,85 mM
Passivo contingente externo
2,57 mM
Colateral de REPO (interno)
2,93 mM

UGD, III Trim. 2025, quadros 15 a 18. Dentro das empresas públicas, a Sonangol responde por 2,07 mil milhões e a TAAG por 0,083 mil milhões. O passivo contingente externo inclui garantias soberanas (0,65 mM) e a Eurobond 2030 (1,93 mM).

A dívida das empresas públicas equivale a cerca de 1,93% do PIB. Somadas, estas quatro rubricas ultrapassam 10 mil milhões de dólares — e é por existirem que o país publica mais do que um total oficial, como se explica na página dos conceitos.

Nota de método

Uma inconsistência dentro do próprio boletim. O quadro 1 apresenta a Dívida Governamental do III trimestre de 2025 em 63,63 mil milhões de dólares; o quadro 6, de rácios e indicadores, apresenta 63,73 mil milhões para o mesmo período. A diferença é de 100 milhões e não altera nenhuma conclusão desta página, mas registamo-la em vez de escolher em silêncio. Nos textos acima usamos 63,63, o valor do quadro principal de stock.

Sobre a mudança do PIB. A revisão do denominador é assumida pela fonte em nota de rodapé ao quadro 6. Comparar rácios de antes e depois desta revisão é comparar duas medições diferentes da mesma economia; a série de cinco trimestres acima atravessa essa mudança, e por isso é apresentada ao lado do stock em dólares.

Conversões cambiais. A UGD converte os stocks à taxa vigente na data de avaliação, os fluxos à taxa média do período e as projecções à taxa do final do período. Valores em kwanzas e em dólares não são, portanto, directamente comparáveis entre trimestres.

Notação soberana à data do boletim: Moody's B3 com perspectiva estável (27 de Maio de 2025), S&P B- estável (15 de Agosto de 2025) e Fitch B- estável (16 de Maio de 2025).

Perguntas frequentes

Angola está a pagar a dívida ou apenas a beneficiar da estatística?

As duas coisas, em rubricas diferentes. A dívida externa está no nível mais baixo desde 2019 e a dívida garantida por petróleo caiu de 10,18 para 8,51 mil milhões de dólares em cinco trimestres — isso é amortização real. Ao mesmo tempo, o stock total em dólares subiu, porque a dívida interna cresceu mais do que a externa desceu, e a queda do rácio no terceiro trimestre de 2025 deveu-se sobretudo à revisão do PIB.

Porque é que o Estado troca dívida externa barata por dívida interna cara?

Porque o custo não é a única variável. A dívida interna custa 13,10% de juro médio contra 6,54% na externa, mas é em kwanzas: não fica mais pesada se o câmbio se mexer. A UGD descreve a evolução como um equilíbrio gradual entre exposição externa e fortalecimento do mercado interno de capitais.

Quanto pesa a China no total?

A dívida garantida por petróleo, integralmente chinesa, era de 8,51 mil milhões de dólares no fim de Setembro de 2025 — cerca de 19% da dívida externa. A rubrica bilateral inteira, que inclui todos os credores estatais, era de 3,00 mil milhões. Os detentores de Eurobonds detinham 9,11 mil milhões.

O que é dívida comercial, a maior fatia?

Empréstimos contraídos junto de bancos e instituições financeiras privadas em condições de mercado, distintos dos títulos emitidos em bolsa (Eurobonds) e dos empréstimos de Estados ou instituições multilaterais. É a maior componente da dívida externa angolana, com 42,1%, e representa a maior parte das amortizações previstas nos próximos trimestres.

Ver também

Última actualização: 8 de Setembro de 2026 · Fonte: Unidade de Gestão da Dívida Pública (UGD), Ministério das Finanças — Boletim Trimestral da Dívida Pública, III Trimestre de 2025.