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Caminho de Ferro em Angola

Sobre Carris e História: A Epopeia do Caminho de Ferro em Angola

Baseado em "Resumo da história do transporte ferroviário em Angola", do Eng.º Domingos Chicoca, e enriquecido com fontes históricas.


Viajar de comboio em Angola é muito mais do que ir de um ponto a outro: é embarcar numa história de mais de um século, feita de ambição, engenharia heroica, guerra e renascimento. Antes de subir a bordo, vale a pena conhecer a epopeia que rasgou montanhas e ligou o Atlântico ao coração de África — porque cada quilómetro de carris tem uma história para contar.

Uma breve viagem às origens do comboio

A ideia de fazer deslizar cargas sobre carris é surpreendentemente antiga. Já na Grécia Antiga, por volta do século VI a.C., o célebre Diolkos usava sulcos talhados na pedra para arrastar embarcações através do istmo de Corinto — um antepassado distante da via-férrea. Séculos mais tarde, por volta de 1630, em Inglaterra, começaram a usar-se rodas de ferro sobre carris para transportar carvão das minas, um salto técnico que abriria caminho à revolução ferroviária do século XIX. Foi essa onda de progresso que, décadas depois, chegaria às colónias — e a Angola.


Como nasceu o comboio em Angola


No final do século XIX, Portugal adotou uma ambiciosa política de grandes obras nas colónias, e a ferrovia estava no centro dessa visão. Os planos para Angola começaram a ganhar forma a partir de meados da década de 1880, movidos por um duplo propósito: escoar as riquezas do interior e afirmar a presença portuguesa perante os apetites britânicos, belgas e alemães na corrida por África. Nasceram assim, ao longo de décadas, várias linhas independentes entre si, todas correndo do litoral para o interior. Conheçamos as três principais.

O Caminho de Ferro de Luanda

Foi o pioneiro. O primeiro troço, no norte da colónia, foi inaugurado no final da década de 1880 (o primeiro tramo abriu ao tráfego em 1888/1889), por iniciativa de uma empresa privada — a chamada linha de Ambaca, que atingiu Lucala em 1899. Mais tarde, já sob gestão de uma companhia estatal, a linha estendeu-se para leste até Malanje, sendo depois complementada por ramais, com destaque para o que ligava Zenza do Itombe ao Dondo. Hoje, o Caminho de Ferro de Luanda percorre cerca de 479 km, ligando a capital a Malanje. O transporte de passageiros entre Luanda e Malanje, interrompido pela guerra, seria restaurado em dezembro de 2010.

O Caminho de Ferro de Moçâmedes

Mais a sul, a segunda grande linha foi construída por uma companhia estatal a partir de 1905, inicialmente numa bitola estreita de 600 mm (mais tarde convertida para a bitola de 1067 mm). Partindo do porto do Namibe (então Moçâmedes), rumava ao interior. A sua construção foi uma verdadeira proeza de engenharia: teve de vencer os obstáculos dramáticos da Serra da Chela e da Serra da Leba, só alcançando o Lubango em 1923. A marcha para leste prosseguiu lentamente ao longo de décadas, atingindo finalmente Menongue já no início dos anos 1960. No total, a linha estende-se por mais de 750 km, atravessando as províncias do Namibe, Huíla e Cuando-Cubango.

O Caminho de Ferro de Benguela (CFB)

É a grande estrela — a maior linha do país e uma das mais notáveis de todo o continente. A concessão, por 99 anos, foi outorgada a 28 de novembro de 1902 ao engenheiro escocês Robert Williams (associado de Cecil Rhodes), no célebre "Contrato Williams". As obras arrancaram em Lobito a 1 de março de 1903 e avançaram para leste através de um terreno hostil, subindo mais de 1.500 metros de altitude por planaltos áridos. A linha chegou ao Huambo por volta de 1910–1912, ligando as cidades portuárias do Lobito e de Benguela ao Planalto Central. A grande obra ficaria completa em 1929, quando os carris alcançaram o Luau, na fronteira com a atual República Democrática do Congo, num traçado de cerca de 1.344 km.

O CFB guarda uma curiosidade que faz as delícias dos entusiastas: incluía cerca de dois quilómetros de um troço com cremalheira (um sistema de roda dentada), necessário para vencer taludes com inclinações superiores a 6%. E o seu propósito era estratégico: ser a saída mais rápida para o Atlântico do cobre e do cobalto extraídos no cinturão mineiro do Katanga e da Zâmbia. Antes da independência, chegou a escoar a maior parte das exportações de cobre do então Zaire — um dado que revela o seu peso económico colossal.


Quando os comboios pararam: o impacto da guerra


A trajetória ascendente teve um travão brutal. A 11 de novembro de 1975, Angola tornou-se independente, mas a guerra civil já havia começado — e prolongar-se-ia até 2002. O conflito, com as suas sabotagens e a destruição sistemática de pontes, túneis e estações, levou o tráfego ferroviário a uma paralisação quase total. O CFB cessou a exploração logo em 1975, e várias linhas ficaram inoperacionais durante décadas. Para se ter uma ideia da dimensão do colapso: quando a guerra terminou, restavam apenas cerca de 34 km de via em funcionamento ao longo da costa, entre Benguela e o Lobito — menos de 3% da grande linha.

O renascimento: a reconstrução do pós-guerra

Com a paz, em 2002, o Governo angolano lançou-se num vasto programa de reconstrução, recorrendo sobretudo a empresas chinesas. O Caminho de Ferro de Luanda e o Caminho de Ferro de Benguela foram reabilitados com envolvimento da estatal China Railway Construction Corporation, enquanto o Caminho de Ferro de Moçâmedes foi reconstruído por uma empresa chinesa ligada à mineração.

A ressurreição do CFB, em particular, foi monumental: decorreu essencialmente entre 2006 e 2014, empregou dezenas de milhares de angolanos e devolveu a vida a toda a linha. Os comboios voltaram a chegar ao Huambo em 2011, a Kuito em 2012 e ao Luau, junto à fronteira, em 2013. A linha renovada foi formalmente inaugurada em fevereiro de 2015, novamente como uma das grandes ferrovias transcontinentais de África.

E a história não parou por aí. Nos últimos anos, o CFB tornou-se a espinha dorsal do Corredor do Lobito, um dos projetos de infraestrutura mais falados do continente. Em 2023, um consórcio internacional (a Lobito Atlantic Railway) assumiu a concessão da operação, e o corredor atraiu investimentos avultados dos Estados Unidos e da União Europeia, com o objetivo de escoar os minerais críticos da região para os mercados globais. Para o viajante, o mais entusiasmante é que a linha voltou a oferecer serviços regulares de passageiros, ligando Lobito, Benguela, Huambo e Luau — permitindo viver, na primeira pessoa, esta epopeia sobre carris.


Lobito Atlantic Railway

A Lobito Atlantic Railway, com 1.739 km de extensão, liga Kolwezi, na República Democrática do Congo, ao Porto do Lobito, em Angola. Constitui atualmente a rota de importação e exportação mais rápida, fiável e segura entre o Copperbelt (RDC) e a costa ocidental de África.

Principais vantagens:

  • Tempo de trânsito de apenas 7 dias entre o Porto do Lobito e Kolwezi.
  • Porto de águas profundas no Lobito, sem congestionamento, com terminal de minerais dedicado.
  • Operação de transporte eficiente e de elevada capacidade para os principais mercados globais.
  • Atualmente opera com 12 comboios por semana, com previsão de aumento para 20 comboios semanais até 2027.

Um olhar para o futuro: a reflexão do autor

No seu texto original, o Eng.º Domingos Chicoca deixa uma reflexão crítica que merece destaque. Apesar de todo este renascimento, aponta ele, Angola continua sem empresas nacionais próprias para a construção de caminhos de ferro, dependendo de operadores estrangeiros. O autor defende, com convicção, um maior investimento local no setor — começando pela criação de faculdades especializadas, capazes de formar quadros qualificados. Sem engenheiros e técnicos nacionais, argumenta, jamais existirá um sistema ferroviário verdadeiramente sustentável e autónomo. É um apelo à formação e à soberania técnica que dá que pensar: as linhas já foram reconstruídas, mas o futuro do comboio angolano dependerá, sobretudo, das pessoas que o souberem manter e expandir.

Viajar é também viajar no tempo

Da Grécia Antiga aos planaltos de Angola, dos carris coloniais às sabotagens da guerra e ao renascimento do século XXI, a história do comboio angolano é uma verdadeira aventura. Da próxima vez que embarcar numa carruagem do Caminho de Ferro de Benguela e vir a paisagem desfilar pela janela, lembre-se: está a percorrer mais de cem anos de história, ambição e resiliência. E poucas viagens são tão inesquecíveis como aquelas em que os carris nos contam o passado de todo um país.


Referências

  • Chicoca, Domingos — Resumo da história do transporte ferroviário em Angola.
  • Civil Engineering Magazine ("Fast Tracks: How the Shanghai Maglev Was Designed & Built", 2004).
  • Portal do Governo Angolano; African Railways News.
  • Wikipédia — "História do transporte ferroviário em Angola"; "Caminho de Ferro de Benguela"; "Caminho de Ferro de Luanda"; "Caminho de Ferro de Moçâmedes"; "Lobito Corridor".
  • Empresa do Caminho de Ferro de Benguela (cfb.ao); Lobito Atlantic Railway (lobitoatlantic.com).
  • Comissão Europeia — Lobito Corridor: building the future together.