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O Mercado do Kikolo em Luanda

26-05-2026

Mercado do Kikolo: o coração comercial do norte de Luanda — e o que ninguém te conta sobre ele


Por Angola Unfiltered

Há mercados que são paragens turísticas e há mercados que são pontos de encontro do bairro. O Kikolo está claramente no segundo grupo. Em Luanda, quando alguém diz "encontro-te no Kikolo", raramente está a falar do bairro — está a falar do mercado. É essa a referência, é esse o ponto-zero do norte da cidade. E, no entanto, o Kikolo continua a ser um dos lugares mais mal compreendidos da capital: associado durante anos à insegurança, hoje completamente transformado, profundamente integrado na vida diária de centenas de milhares de luandenses.

Onde fica e o que é

O Mercado do Kikolo situa-se no município de Cacuaco, na franja norte da grande Luanda — o mesmo município que abriga a Centralidade do Sequele. Mais concretamente, fica no Distrito Urbano do Kikolo, numa zona que se tornou num dos corredores de maior densidade populacional da província, onde Cacuaco encosta aos municípios vizinhos de Cazenga e do recém-criado Hoji-ya-Henda (elevado a município em 5 de setembro de 2024). É descrito no diretório oficial de turismo como um dos maiores mercados informais da capital, conhecido por oferecer uma vasta variedade de produtos a preços acessíveis.

Geograficamente, fica a cerca de cinco quilómetros a leste da cidade de Hoji-ya-Henda e a sete quilómetros do município de Sambizanga. Está, portanto, no centro de gravidade do norte de Luanda — uma zona onde se concentra parte significativa da força de trabalho da cidade.

Uma história de transformação social

Aqui entra a parte que mais me interessa contar. No passado, a zona do Kikolo era amplamente temida e considerada extremamente perigosa, marcada pela delinquência, pela criminalidade alta e por rivalidades entre gangues. Quem viveu Luanda nos anos 2000 e 2010 lembra-se: o Kikolo era um nome que se evitava pronunciar à noite.

Hoje, a realidade é drasticamente diferente. O Kikolo transformou-se num ambiente pacificado, onde se circula, se compra e se vende sem o medo constante de ser assaltado. Esta mudança não veio de uma operação policial qualquer, nem de uma política central. Veio do próprio bairro.

A transformação foi liderada por grupos comunitários locais, com destaque para a associação Camabatela — fundada por antigos membros de gangues que decidiram abandonar o submundo do crime. O grupo trabalha para erradicar a delinquência, resgatando, reeducando e reintegrando os jovens da zona. Com o apoio de figuras respeitadas, como o conhecido "Papoite Paisão", muitos jovens foram reabilitados com sucesso. Em vez de armas e assaltos, encontraram trabalho honesto no próprio mercado — como lotadores de táxis, sapateiros, carregadores, pequenos comerciantes.

É uma das histórias mais luandenses que se podem contar. Uma comunidade que se viu ao espelho, decidiu que não queria continuar daquela forma e mudou as regras a partir de dentro. Nenhum decreto, nenhuma força externa: as próprias pessoas que outrora estiveram do lado errado da lei é que conduziram a transformação. Hoje, o Kikolo é prova viva de que o crime não compensa — e de que a comunidade, quando se organiza, é capaz de mudar um bairro inteiro.

O que se vende lá

O Kikolo é um mercado informal generalista, no molde clássico luandense: um complexo enorme a céu aberto de bancas, barracões e ruas adjacentes onde se vende praticamente de tudo. Encontras produtos frescos (mandioca, batata-doce, gimboa, fubá, peixe seco, carne, feijão, óleo de palma), comida pronta, roupa nova e em segunda mão, eletrodomésticos, plásticos, cosméticos, acessórios de telemóvel, ferragens, calçado, perfumaria — e o inevitável cardume de cambistas.

Há ainda uma secção que vale a visita: a zona da marcenaria. É lá que carpinteiros locais constroem mobília à vista — camas, mesas, armários — diretamente no espaço, sob encomenda, a preços que tornam impensável comprar o mesmo numa loja formal.

Tal como o Catinton, os Kwanzas e o Asa Branca, o Kikolo é alimentado a montante pelos grandes grossistas — sobretudo o Mercado do 30, em Viana —, o que ajuda a explicar os seus preços acessíveis. Para muitos importadores e fornecedores, especialmente estrangeiros, é vantajoso descarregar os contentores diretamente em Kikolo, em vez de irem para mercados mais centrais. Isso significa que, em certos produtos, o Kikolo consegue mesmo bater os preços do retalho de outras zonas.

Funciona menos como mercado-destino e mais como mercado do bairro para todo o arco norte de Luanda: Cacuaco, o próprio Kikolo, Hoji-ya-Henda, os bairros altos do Cazenga e os moradores da Centralidade do Sequele convergem aqui para as compras diárias.

A disputa que ninguém esperava

Há um pormenor curioso na vida administrativa do Kikolo: o mercado tem sido, durante anos, palco de uma queda-de-braço entre dois municípios vizinhos. A fronteira entre Cacuaco e Cazenga (agora complicada pela criação de Hoji-ya-Henda em 2024) passa, literalmente, ao lado — ou mesmo por dentro — do mercado, e ambas as administrações reclamaram, em diferentes momentos, o direito de gestão e, sobretudo, as lucrativas taxas pagas pelos vendedores.

O conflito chegou a ser tão público que, em 2021, a Governadora Provincial de Luanda, Joana Lina, teve de intervir. Esclareceu que a gestão do Mercado do Kikolo permanece sob a direção da Administração Municipal de Cacuaco e não de Cazenga. A clarificação foi feita durante uma audiência colectiva com residentes de Cacuaco, no Sítio Histórico de Kifangondo. A questão, observou a Governadora, é que o facto de o mercado estar um ou dois metros para um lado ou para o outro de uma linha, ou de uma curva da estrada o colocar num município ou noutro, não pode determinar a gestão de um espaço daquela dimensão.

Mais recentemente, a comissão técnica encarregada de redesenhar as fronteiras provinciais usou o próprio Kikolo como exemplo de que micro-fronteiras não funcionam: a rua com cerca de cinco metros de largura que atravessa o Mercado do Kikolo entre Cazenga e Cacuaco serviu de fronteira inter-municipal durante anos. Para delimitar duas províncias, isso é claramente insuficiente — daí a escolha da Estrada Nacional 100 e da Via Expressa Fidel Castro como novas fronteiras de referência.

A reconstrução prometida (e adiada)

Em finais de 2021, o Governo central autorizou um pacote significativo para reconstruir três dos principais mercados de Luanda, com o Kikolo no topo da lista. Foram previstos 2,1 mil milhões de kwanzas do Orçamento Geral do Estado para a construção do Mercado do Kikolo em Cacuaco; 2,2 mil milhões para a reabilitação e expansão do Mercado dos Congolenses, no Rangel; e 2,3 mil milhões para o Mercado do São Paulo, no município de Luanda. No total, cerca de 10 milhões de dólares para os três projetos.

Os progressos no terreno têm sido mais lentos do que o orçamento sugere. Já neste ano, a entrada principal do famoso Mercado do Kikolo esteve fechada durante mais de um mês, deixando clientes e vendedores em dificuldades, devido às obras de reabilitação na Rua da Kianda — obras que, segundo o Governador Provincial Luís Nunes, estão apenas a cerca de 40% e deverão ficar concluídas em setembro. Moradores, comerciantes e clientes queixaram-se da falta de informação sobre rotas alternativas seguras. E a criminalidade nas ruas adjacentes ao mercado, bem como a falta de saneamento, são apontadas pelos próprios como os maiores problemas. Mesmo um mercado já pacificado, como o Kikolo é hoje, continua vulnerável quando a infraestrutura à volta falha.

Como encaixa no resto da cidade

Para entender o Kikolo, ajuda compará-lo com os outros mercados que já cobrimos no blog. O Mercado do 30, em Viana, é o grossista — onde a comida do interior chega e é fragmentada para redistribuição. O Kikolo, em Cacuaco, é o retalhista do norte — compra muito ao 30 e vende às famílias e zungueiras. A Cidade da China, também em Viana, faz o equivalente ao 30 mas para produtos manufaturados (mobília, azulejos, eletrónica). E o Catinton, o Asa Branca, os Kwanzas e o Avô Mabunda são os equivalentes do Kikolo para outras zonas da cidade.

Se uma família do Sequele ou de um dos bairros de Cacuaco precisa de fubá, gimboa, peixe seco, uniformes escolares ou utensílios de cozinha num sábado de manhã, o destino óbvio é o Kikolo. Se um pequeno comerciante do Kikolo precisa de reabastecer a preços grossistas, desce a Via Expressa rumo ao Mercado do 30 ou à Cidade da China.

Como visitar

Vai de manhã, como em qualquer mercado a céu aberto luandense — os produtos estão mais frescos e os preços ainda não foram revolvidos pelo "arreiou arreiou" do fim do dia. Vai acompanhado por alguém que conheça o terreno: o mercado é grande e desorienta. Não exibas valores nem fotografes sem pedir licença. E, com a Rua da Kianda em obras, confirma com um local qual é a entrada que está aberta antes de te meteres ao caminho.

O Kikolo não é um mercado feito para turistas. É um mercado feito para Luanda. E é precisamente por isso que vale a pena conhecê-lo — para entender que, por trás de cada banca, há uma história de bairro, de trabalho, e às vezes também de redenção.

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