Cazenga: o coração que pulsa fora dos mapas turísticos
Por Angola Unfiltered
Há lugares em Luanda que aparecem em todos os guias de viagem — a Marginal, a Fortaleza, a Ilha do Cabo. E há lugares que praticamente não aparecem em nenhum, mas que explicam a cidade muito melhor do que qualquer monumento. O Cazenga é um desses lugares. Se quiseres entender Luanda a sério — a cidade que trabalha, que canta, que se reinventa todos os dias — é para aqui que tens de vir.
A geografia de um gigante
O Cazenga é um dos municípios da província de Luanda, situado a leste do centro histórico. Faz fronteira com o município de Luanda a oeste, com Cacuaco a norte, com Viana a leste e com Quilamba Quiaxi a sul. Em apenas 37 a 41 km² — um dos menores territórios da província — vivem hoje mais de um milhão de pessoas. O censo de 2014 contabilizou cerca de 862 mil habitantes, as projeções do INE para 2018 já apontavam para mais de um milhão, e há estimativas independentes que falam em quase dois milhões, considerando a forte densidade da habitação informal. Em zonas mais apertadas, ultrapassam-se os 25 mil habitantes por km². É, sem grande margem para dúvidas, um dos espaços urbanos mais densos de África austral.
Da terra distante ao maior aglomerado urbano
O nome do município tem uma origem curiosa. Conta-se que, no século XVII, chegou à zona um cidadão vindo da região que é hoje a República do Congo, de nome Miguel Pedro Cazenga, que ocupou uma enorme extensão de terra entre o atual Kinaxixi e Viana. Um dos seus descendentes, Pedro Guilherme Cazenga, faleceu na região a 9 de janeiro de 1946, e essa data ficou marcada como o dia comemorativo do município.
Durante séculos, foi uma zona afastada de Luanda, percorrida por riachos e habitada por animais selvagens. No final da década de 1960, o Estado colonial construiu aqui os chamados "bairros indígenas" para a população africana expulsa das áreas centrais. Em 1975, paradoxalmente, o Cazenga — em particular o que é hoje a Comuna do Hoji ya Henda — era ainda um conjunto de bairros maioritariamente habitados por europeus. Tudo mudou com a independência: a guerra civil empurrou milhares de famílias do interior para a capital, e o Cazenga foi o município que mais refugiados acolheu. Em poucas décadas, transformou-se num dos maiores aglomerados urbanos do país. Crescimento sem planeamento, ruas estreitas, deficits de saneamento — sim, tudo isso. Mas também uma força humana extraordinária.
A Cuca, os marcos, a identidade
Na vertente industrial, o grande destaque do Cazenga é a icónica fábrica da cerveja Cuca, situada ao longo da movimentada Avenida Angola Kiluanji. A Cuca é, sem dúvida, uma das marcas de cerveja mais populares e consumidas de Angola. A sua qualidade e prestígio são tão grandes que ultrapassou as fronteiras nacionais, sendo apreciada em Portugal e no Congo-Brazzaville, com forte presença em Ponta Negra. Quem cresceu em Luanda associa o cheiro da fábrica ao trajeto de casa para a escola — uma memória olfativa coletiva.
Para além deste polo industrial, a identidade do município é cimentada por pontos de grande relevância memorial, nomeadamente o famoso Tanque do Cazenga e o Marco Histórico do Cazenga. São paragens discretas, mas obrigatórias para quem quer perceber a estratificação histórica da zona.
Kikolo: da "boca do lobo" ao mercado pacificado
Mas o lugar onde o Cazenga mais surpreende é, talvez, o gigantesco Mercado do Kikolo. É um enorme polo comercial composto por armazéns, lojas e vendas ao ar livre onde se encontra quase de tudo — peixe fresco, roupa, peças de automóvel, plásticos, medicina ancestral, hortícolas, calçado. A verdadeira riqueza do Kikolo hoje, porém, está noutro lugar: na sua profunda transformação social.
No passado, o Kikolo era rotulado como uma das zonas mais perigosas de Luanda, severamente afetada pela criminalidade e pelas rivalidades entre gangues. Hoje, a realidade é muito diferente, graças à ação ativa de associações e grupos de vigilância comunitária, como a associação Camabatela — formada por indivíduos que, no passado, também viveram no submundo do crime e decidiram mudar de vida. Com o apoio de líderes da comunidade, como o conhecido "Papoite Paisão", muitos jovens que outrora estiveram envolvidos na marginalidade foram reabilitados e resgatados das ruas. Largaram as armas e encontraram trabalho digno no próprio mercado: carregadores, lotadores de táxis, sapateiros, pequenos comerciantes.
O que antes era uma "boca do lobo" tornou-se um local pacificado e seguro, onde as pessoas fazem as suas compras com tranquilidade. O Kikolo, e o Cazenga no seu todo, prova uma coisa importante: o crime não compensa, e a união de uma comunidade é capaz de transformar um bairro de dentro para fora — sem esperar pelo Estado, sem esperar por ninguém.
A cultura que sai daqui
Não é coincidência que tanta da música urbana angolana — kuduro, afro-house, hip-hop — tenha nascido ou crescido nestas ruas. Hoji ya Henda, Tala Hady, Kima Kieza: nomes de comunas que são, ao mesmo tempo, nomes de cenas musicais. A gíria luandense, com forte influência kimbundu, ouve-se aqui em estado puro.
Como visitar (e como não visitar)
Vai durante o dia, de manhã, quando os mercados estão em pleno funcionamento e o sol ainda não pesa. Vai acompanhado — um amigo angolano, um guia local, alguém que conheça o terreno. Usa Yango ou Bolt em vez de tentares conduzir; as ruas internas são labirínticas. Não exibas o telemóvel topo de gama nem a câmara profissional, e pede sempre licença antes de fotografar pessoas. Prova o funje, o calulu, a muamba, os grelhados de rua. Apoia o pequeno comércio. Ouve mais do que falas.
Sai de lá com o que vieste buscar: uma Luanda real, sem filtros — exatamente o tipo de Angola que este blog existe para mostrar.