Sequele: a centralidade que cresceu a norte em Luanda
Por Angola Unfiltered
Se o Kilamba é o filho mais famoso do programa habitacional do Estado angolano, o Sequele é o irmão mais novo — menos mediático, menos fotografado, mas com uma história que vale a pena conhecer. Quem se aventurar até ao norte de Luanda, em direção a Cacuaco, encontra ali uma versão diferente daquilo que o Governo chamou de "centralidade": menos polida, mais habitada, com mais gente já a tentar fazer dela uma vida real.
Onde fica e o que é
A Centralidade do Sequele situa-se no município de Cacuaco, no extremo norte da província de Luanda, a cerca de 40 quilómetros do centro da cidade. Cacuaco foi criado como município em fevereiro de 1996, ocupa 571 km² e é o terceiro município mais populoso de Luanda. Na recente reorganização administrativa, o Sequele foi mesmo elevado à categoria de Distrito Urbano dentro de Cacuaco — sinal de que deixou de ser um projeto-piloto para passar a ser, de pleno direito, uma parte da cidade.
Não é um bairro no sentido tradicional. É uma centralidade: um conjunto habitacional planeado, construído de raiz, com prédios de cinco, nove e onze andares, apartamentos de três a cinco quartos, ruas largas, escolas, igrejas, espaços comerciais e equipamentos sociais.
Origens: o sonho do milhão de casas
O Sequele nasceu do mesmo programa que deu origem ao Kilamba e ao Zango — a famosa promessa do ex-Presidente José Eduardo dos Santos de construir um milhão de casas em Angola, financiada em grande parte através da relação de "petróleo por infraestruturas" com a China. O projeto foi desenvolvido pela Imogestin, a empresa pública gestora do parque habitacional do Estado, e seguiu um modelo arquitetónico quase idêntico ao do Kilamba: o mesmo desenho de quarteirões, os mesmos prédios coloridos, a mesma lógica de cidade-dentro-da-cidade.
A Centralidade do Sequele foi inaugurada em 2014, concebida para acolher cerca de 60.648 habitantes em 10 mil fogos habitacionais — número que a torna a segunda maior centralidade de Angola, logo depois do Kilamba. A construção continuou em fases. Em 2016, o Governo lançou um projeto adjacente para erguer 500 casas sociais T2 e T3 até dezembro desse ano, expandido depois para 3.000 habitações sociais em 160 hectares até 2018, destinadas a realojar famílias retiradas da zona da Boa Vista no âmbito da requalificação do município de Sambizanga. O orçamento global andou pelos 137 milhões de dólares, incluindo redes de água, eletricidade, drenagem e estradas.
A vida real, depois das chaves
O Sequele encheu-se mais depressa do que o Kilamba. Mas a história das centralidades angolanas mostra que receber as chaves é só o início — e os problemas, na maior parte das vezes, começam depois da mudança.
Depois da corrida inicial aos apartamentos, surgiram as dificuldades, e em muitos casos a frustração levou os moradores a sair, porque não conseguiam suportar os custos da escola, do hospital longe e da fatura mensal do combustível. Um caso reportado pelo Novo Jornal ilustra bem o problema: um morador que trabalha no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro tem de sair de casa às 5h00 da manhã e gasta pelo menos 40 mil kwanzas por mês só em combustível. Multiplica-se isto por milhares de famílias e percebe-se a dimensão do desafio.
A água é outro ponto crítico. A água potável raramente chega às torneiras dos apartamentos — os moradores transportam jerricãs e baldes à cabeça, exatamente como em qualquer musseque de Luanda. A eletricidade também falha com frequência, e há registos de moradores que ficaram presos em elevadores durante apagões, tanto no Kilamba como no Sequele.
E há ainda um peso financeiro que poucos antecipavam. Mais de 60% dos moradores do Kilamba e do Sequele acumulam dívidas ao Estado angolano referentes às prestações das casas adquiridas em propriedade resolúvel, com as duas centralidades a liderarem o país em incumprimento contratual — cerca de 65%. Comprar a casa foi o sonho. Conseguir pagá-la todos os meses, num país marcado por inflação e desvalorização do kwanza, tem sido o pesadelo.
À volta do núcleo planeado
Como acontece em todas as centralidades luandenses, a periferia do Sequele cresceu de forma muito diferente do centro planeado. Bairros como Vila Verde Kativa e Tande 2 desenvolveram-se de forma informal nas franjas, onde agricultores se queixam de furtos constantes às suas hortas. Existe ainda um pequeno povoado chamado ANDA-Sequel — originalmente atribuído a membros da Associação Nacional de Deficientes de Angola (daí o nome) —, que cresceu para mais de 50 famílias e tem estado no centro de disputas por terra.
Esta convivência entre o planeado e o improvisado é, hoje, uma das marcas mais luandenses da paisagem urbana: prédios cor-de-rosa de onze andares a poucas centenas de metros de cubatas, de hortas, de pequenos talhos improvisados.
Transporte: a velha dor luandense
O Sequele sempre foi mal servido em transportes públicos, e durante anos os moradores dependeram quase exclusivamente de candongueiros e mototáxis para chegar à Baixa de Luanda. A boa notícia é que, no final de 2024, foi noticiado o reforço da rota Sequele/Baleizão com novos autocarros, e foram desenhadas ligações adicionais entre a centralidade e o bairro do Maye-Maye, no mesmo Distrito Urbano. É pouco para a dimensão da centralidade, mas é mais do que existia.
Por que o Sequele importa
O Sequele é, em muitos aspetos, um espelho do Kilamba — mas um espelho menos polido, menos brilhante. Tem os mesmos êxitos: tirou milhares de famílias de musseques de risco, deu acesso à casa própria a uma classe média que não a tinha, criou um espaço urbano organizado onde antes havia praticamente nada. E tem as mesmas dores: água que não corre, luz que falha, transporte escasso, distâncias enormes para o trabalho e uma montanha de prestações em atraso.
Para o visitante curioso que queira entender a Luanda do século XXI, vale a pena passar por aqui. Conduzir pelas avenidas, ver os blocos coloridos a esticarem-se até ao horizonte, sentir o ritmo do pequeno comércio que foi nascendo entre os prédios. E perceber que estas cidades novas não foram fracassos nem milagres — foram tentativas. Algumas correram melhor do que se esperava, outras ficaram pelo meio. O Sequele é, talvez, o exemplo mais honesto disso: um projeto inacabado, vivido por gente real, que continua a tentar transformar uma centralidade num lar.