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As Centralidades de Luanda

26-05-2026
Prédios residenciais bege e brancos, carros estacionados e vegetação, sob céu nublado na Centralidade Kilamba em Luanda
Centralidade Kilamba

As Centralidades de Angola: o país que se reconstruiu em betão


Por Angola Unfiltered

Há uma palavra que ninguém ensina nos guias de viagem, mas que se ouve em Luanda cinco vezes por dia: centralidade. Vais ouvi-la nos táxis ("eu moro lá em cima na centralidade"), nas conversas sobre o trânsito, nas negociações imobiliárias, nas piadas, nas queixas. Para quem chega de fora, demora um pouco a perceber do que se está a falar — não é bem um bairro, não é bem um subúrbio, não é bem uma cidade-satélite no sentido europeu. É outra coisa. E essa "outra coisa" é, talvez, a história mais importante da Angola dos últimos vinte anos.

O que é, afinal, uma centralidade?

Em termos simples, uma centralidade é um conjunto habitacional planeado, construído de raiz pelo Estado angolano em terrenos que, até há pouco tempo, eram puro mato. Pensa nisto menos como um bairro que cresceu durante décadas e mais como uma pequena cidade entregue como projeto único: centenas de prédios idênticos de média altura, dispostos numa grelha, com escolas, creches, lojas, estradas, água e eletricidade desenhadas e construídas em conjunto, como um pacote.

Três características distinguem uma centralidade de um bairro luandense tradicional. A primeira é que foi construída de uma só vez, pelo Estado — a maior parte de Luanda cresceu informalmente, com pessoas que chegavam, construíam o que podiam, e a cidade depois ia atrás (ou não). Uma centralidade é o contrário: o Governo escolhe o terreno, contrata uma empresa (muitas vezes chinesa) e em poucos anos surge uma cidade inteira. A segunda é o desenho fechado e autocontido: avenidas largas, blocos numerados, cores uniformes, praças centrais. Não há igrejas antigas, não há becos tortuosos, não há mercados com cem anos. A terceira é o enquadramento político — as centralidades foram a peça central da promessa que José Eduardo dos Santos fez em 2008, de construir um milhão de casas em Angola.

O resultado é visualmente impressionante: conduz-se pelas periferias poeirentas de Luanda, passa-se por musseques de chapa e autoconstrução, e de repente abre-se uma grelha geométrica de prédios cor-de-rosa, amarelos e azuis que se estendem até ao horizonte. Isso é uma centralidade.

Por que existem

Três coisas convergiram nos anos 2000 para produzir este modelo. Primeiro, uma crise habitacional brutal: depois de 27 anos de guerra civil (1975-2002), Luanda inchou com pessoas que fugiam do interior. A cidade colonial fora pensada para algumas centenas de milhares de habitantes; nos anos 2000, a área metropolitana já tinha vários milhões, a maioria a viver em musseques sem saneamento, sem água, sem títulos de terra. Segundo, um boom petrolífero: do início dos anos 2000 até à queda do preço do barril em 2014, Angola nadou em petrodólares e teve um crédito sem precedentes, sobretudo através de bancos chineses dispostos a emprestar contra futuros envios de petróleo. Terceiro, a capacidade chinesa de construção em escala: empresas estatais como a CITIC conseguiam entregar projetos enormes "chave-na-mão" em poucos anos, algo que nenhuma empresa angolana podia fazer sozinha. O acordo era simples: a China empresta o dinheiro e constrói a cidade; Angola paga em petróleo.

As centralidades são o legado físico dessa década. Algumas tornaram-se casos de sucesso. Outras, casos de estudo sobre o que acontece quando o planeamento se adianta à procura.

As principais centralidades de Luanda

Kilamba (Nova Cidade do Kilamba). A nave-mãe, a mais famosa, a mais fotografada. A cerca de 40 km a sul do centro de Luanda. Construída pela CITIC, financiada pelo ICBC chinês, inaugurada em 2011. São 750 edifícios coloridos numa área de 8,8 km², originalmente desenhada para 200 mil pessoas e hoje com cerca de 130 mil moradores. Foi famosa, nos primeiros anos, como a "cidade-fantasma de África" — os apartamentos começavam nos 120 mil dólares e quase ninguém os podia comprar. Em 2013, um esquema de subsídios cortou os preços quase a metade e os angolanos fizeram fila durante dias para garantir uma casa. Hoje é considerada o projeto de cidade nova mais bem-sucedido de África e serve de modelo para projetos semelhantes em vários países do continente.

Sequele (Centralidade do Sequele). O irmão gémeo do Kilamba, a norte. Fica no município de Cacuaco, também a cerca de 40 km do centro, e foi inaugurado em 2014. São 10 mil apartamentos em blocos de 5, 9 e 11 andares, pensados para 60 mil pessoas. O modelo arquitetónico é praticamente idêntico ao do Kilamba. Encheu-se mais depressa, mas os moradores debatem-se com a falta de água, longas deslocações para o trabalho e taxas de incumprimento muito elevadas nas prestações da casa.

Urbanização Nova Vida. A mais antiga das urbanizações modernas planeadas, no município do Kilamba Kiaxi. Construída em duas fases — cerca de 2.500 casas concluídas em 2012 e mais 2.562 em 2016 —, foi originalmente pensada para a classe média, sobretudo funcionários públicos. Foi durante uma década uma morada de prestígio, comparável a Alvalade ou Miramar. Nos últimos anos tem-se degradado visivelmente: ruas com buracos, lixo, falta de água — uma decadência que mostra como mesmo as centralidades de primeira linha precisam de manutenção contínua.

Zango (I, II, III, IV, 5 e Vida Pacífica / Zango 0). Um aglomerado vasto a leste, no município de Viana. Nasceu sob o Programa de Emergência Habitacional, para realojar populações retiradas de zonas de risco como a Boavista, a Chicala e as encostas abaixo do Palácio Presidencial. Menos polido do que o Kilamba, mas enorme — ultrapassa hoje os 600 mil habitantes. O Zango 5 é a fase mais recente, mais próxima do modelo centralidade; o Vida Pacífica (Zango 0) tornou-se uma referência do mercado imobiliário.

KK 5000 e KM 44. Centralidades mais pequenas mas que aparecem constantemente nos anúncios imobiliários. O "KK 5000" vem de "Kilamba Kiaxi 5.000 casas". O KM 44 é, literalmente, o quilómetro 44 da estrada para Catete — um projeto mais recente, dirigido a funcionários públicos.

E para lá de Luanda, o modelo replicou-se: Centralidade Horizonte do Cuito no Bié, Centralidade do Lossambo no Huambo, Centralidade Faustino Muteca na Caála (a "Rainha do Milho"). O modelo saiu da capital e espalhou-se pelo país.

Visitar uma centralidade

Para um visitante, a centralidade mais acessível é o Kilamba — não só por ser a mais desenvolvida, mas porque tem hoje vida comercial real: supermercados, restaurantes, um pequeno circuito de Airbnb, alguma animação noturna em torno das praças centrais. Vale meio dia de visita só pela escala do lugar. Não há nada parecido na África austral.

Algumas notas práticas. Distância e trânsito: 40 km parece pouco, mas nas horas de ponta a viagem pode chegar a duas horas. Vai a meio da manhã ou ao fim de semana. Os prédios são todos iguais: faz parte do desenho, mas é um pesadelo de orientação. Guarda o número exato do bloco em vez de uma morada. Os serviços são desiguais: não esperes a densidade de cafés, multibancos e farmácias da Baixa — leva tudo o que precisas. A segurança é melhor: tanto o Kilamba como o Sequele são considerados das zonas mais seguras de Luanda — perímetros vigiados, mais iluminação, mais polícia —, embora haja assaltos a apartamentos e a viaturas.

Três paisagens, uma só Angola

Numa única tarde, podes estar na Baixa de Luanda, com as praças portuguesas e o Palácio de Ferro atribuído a Eiffel, e meia hora depois encontrar-te no meio do que parece uma cidade-província chinesa pousada sobre a savana. Entre as duas, ficam os musseques onde a maioria dos luandenses vive de facto.

Para quem visita, esse contraste não é apenas curioso do ponto de vista arquitetónico. É a história da Angola moderna contada em três paisagens — a colonial, a informal e a planeada — coladas no mesmo mapa, à espera de quem se dê ao trabalho de as ler.

Prédio residencial alto na centralidade do Zango em Luanda com varandas, janelas e roupas, carros estacionados em frente e árvores no pátio.
Zango em Luanda
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